Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cruz e Sousa (1861-1898)


Marca d'água

A que está morta

 


Morta, morta de amor e de saudade,
Separada de mim por longo espaço,
Penetraste da cova a imensidade
Sem o meu louco e derradeiro abraço.

Cedo gelaste em meio de uma estrada
Constelada d’estrelas luminosas
E no regaço e à trança perfumada
Em vez de beijos meus levaste rosas.

Não pude, longe, errante, por desertos,
Nesses ínvios atalhos vãos da vida
Mandar-te, como pássaros incertos,
Os sonhos da minh’alma condoída.

Cedo gelaste, ó carne dos meus beijos,
Por entre a podridão da terra escura...
Oh! não nascer a flor dos meus desejos
Da tua boca saborosa e pura.

Não te nascer dos olhos sedutores,
Voluptuosos, tropicais, ardentes
O bálsamo vital de tantas dores,
A saúde da fé para os descrentes.

Que lágrimas febris hei de eu, chorando,
Verter em cima dessa campa fria
Se as lágrimas em mim já vão secando
Nesta vida de trágica ironia!

Que eu, afinal, semelho-me às crianças
Cheias das verdes ilusões primeiras: –
Pois para perfumar as esperanças
Plantei no meu quintal muitas roseiras.

Que elas brotem agora, que floresçam
Para ventura dos meus pobres olhos,
Que vermelhas e brancas resplandeçam
Por sobre dores e por sobre escolhos.

Que elas perfumem todo o meu sentido
E vão, na cova onde o teu corpo existe,
Dizer que neste peito emudecido
Há o silêncio de uma dor mais triste.


SOUSA, João da Cruz e. “A que está morta…”. In: Dispersos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 320.

 


Marca d'água

Amor!!!

 

Oferecido à Ilma. Sra. D. Pedra
como prova de imensa amizade e profundo amor
que lhe consagra.
O Autor.


Amor, meu anjo, é sagrada chama
Que o peito inflama na voraz paixão,
Amo-te muito eu t’o juro ainda
Deidade linda que não tem senão!

Virgem formosa, d’encantos bela,
Gentil donzela, meu amor é teu.
Vou consagrar-te mil afetos tantos
Puros e santos qual também Romeu!

Flor entre as flores, a mais linda, altiva
Qual sensitiva, só tu és, ó sim.
Esses teus olhos sedutores, belos
De mil anelos, me pedirão a mim.

Anjo, meu anjo, eu te adoro e amo.
Por ti eu chamo nas horas de dor.
Sem ti eu sofro; um sequer instante
De ti perante só me dás valor.

Meu peito em ânsias só por ti suspira
Como da lira a vibrante voz!
Te vendo eu rio e senão gemendo
Vou padecendo saudade atroz!

Amor ardente de meu coração
Santa paixão em todo peito forte
Eu hei de amar-te até mesmo a vida
Deixar, querida, e abraçar a morte!


SOUSA, João da Cruz e. “Amor!!”. In: Dispersos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 224.

 


Marca d'água

Após o noivado

 


Em flácido divã ela resvala
Na alcova – bem feliz, alegremente,
E o fresco penteador alvinitente,
De nardo e benjoim o aroma exala.

E o noivo todo amor, assim lhe fala,
Por entre vibrações do olhar ardente:
Pertences-me afinal, pomba dormente,
Parece que a razão de gozo, estala.

Mas eis – corre-se então nívea cortina:
E a plácida, a ideal, a branca lua
Derrama nos vergeis a luz divina…

Depois... Oh! Musa audaz, ousada, e nua,
Não rompas esse véu de gaze fina
Que encerra um madrigal – Vamos... recua!...


SOUSA, João da Cruz e. “Após o noivado”. In: O livro derradeiro. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 64.

 


Marca d'água

Divina

 


Eu não busco saber o inevitável
Das espirais da tua vã matéria.
Não quero cogitar da paz funérea
Que envolve todo o ser inconsolável.

Bem sei que no teu círculo maleável
De vida transitória e mágoa séria
Há manchas dessa orgânica miséria
Do mundo contingente, imponderável.

Mas o que eu amo no teu ser obscuro
É o evangélico mistério puro
Do sacrifício que te torna heroína.

São certos raios da tu’alma ansiosa
É certa luz misericordiosa,
É certa auréola que te faz divina!


SOUSA, João da Cruz e. “Divina”. In: Fárois. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 489.

 


Marca d'água

Num baile

 


Estavas toda de azul,
Tão majestosa e elegante
Que senti naquele instante
Me pulsar o coração!
Cheio d’afeto, de júbilo
Cheio de amor, de ternura
Num momento de ventura
Enlouqueci de paixão!

Então sentei-me a teu lado
E contemplei teu semblante,
Tão belo, tão radiante,
Tão puro, casto e gentil!
Teus olhos eram luzentes,
A boca rubra e pequena,
A voz mui doce e serena
Qual d’ave em tarde de Abril!

Teu cabelo era aloirado
Tua cintura era breve
E na face mui de leve,
Transparecia o rubor!
Teu todo era um conjunto
De encantadora beleza
Que senti minh’alma presa
Aos elos de santo amor!...

E a dança continuava
Com incessante delírio
Enquanto duro martírio
Ia minh’alma rasgar!
Num antro então d’incertezas
Entrou-me a frágil razão
E num mar de escuridão
A louca foi-se a boiar!...

Era por ti que eu sofria
A tempestade moral!
Para depois por meu mal
Suportar a ingratidão!
E sem saber se me amavas
Quis dizer-te o que sentia!...
Insensato! que não via?
Qu’estava a lutar em vão!

Não via, pois abrasado
Por tão ardente afeição,
Fui presa – dessa atração
Que tinhas sempre no olhar!
E amei-te tanto... mas tanto...
Que quis dizer-te com ânsia
– Oh! virgem dá-me constância!...
Que hei de sempre te amar!

Assim, assim, te consagro
O mais eloqüente amor!
Enquanto estalo – de dor
Tu vais folgando a sorrir!...
E se lembrares-te um dia
Do infeliz, desgraçado
Desculpa-o, que foi ousado...
Perdão te deve pedir!!...


SOUSA, João da Cruz e. “Ave! Maria…”. In: Serenata e outros poemas. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 354.

 


Marca d'água

Quando eu partir

 


Quando eu partir, que eterna e que infinita
Há de crescer-me a dor de tu ficares;
Quanto pesar e mesmo que pesares,
Que comoção dentro desta alma aflita.

Por nossa vida toda sol, bonita,
Que sentimento, grande como os mares,
Que sombra e luto pelos teus olhares
Onde o carinho mais feliz palpita…

Nesse teu rosto da maior bondade
Quanta saudade mais, que atroz saudade...
Quanta tristeza por nós ambos, quanta,

Quando eu tiver já de uma vez partido,
Ó meu amor, ó meu muito querido
Amor, meu bem, meu tudo, ó minha santa!


SOUSA, João da Cruz e. “Quando eu partir”. In: Outros Sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 85.

 


Marca d'água

Surdinas

 


Vais partir, vais partir que eu bem te vejo
Na branca face os gélidos suores,
Vais procurar as músicas melhores
Do sol, da glória e do celeste beijo.

Dentro de ti as harpas do desejo
Não vibram mais – embora que tu chores –
Nem pelas tuas aflições maiores
Se escuta um vago e enfraquecido arpejo…

Bem! vais partir, vais demandar esferas
Amplas de luz, feitas de primaveras,
Paisagens novas e amplidão florida…

Mas ao chegar-te a lágrima infinita,
Lembra-te ainda, ó pálida bonita,
De que houve alguém que te adorou na vida.


SOUSA, João da Cruz e. “Surdinas”. In: Outros sonetos. In: Obra completa: poesia / João da Cruz e Sousa. Organização e estudo por Lauro Junkes. Jaguará do Sul: Avenida; 2008, vol. 1, p. 87.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)