Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Gilka Machado (1893-1980)


Marca d'água

Violeta

 

A Mário Gameiro


E's, das flores, a flor que a primazia alcança,
pois flor nao ha que tenha aroma, si ao teu lado;
Jesus, ao te beijar um dia, quando creança,
o anhelito divino em ti deixou gravado.

Sempre que o teu odor para os ares se lança,
nelle, de um violoncello escuto o som maguado,
som que é a voz da Saudade e da Desesperança,
e que me vem narrar a historia do Passado.

Amo-te porque em ti vive a tristeza impressa,
porque não és vaidosa e immersa vives, nessa
perennal solidão que o viço te não lesa.

Como podes (commigo ás vezes scismo, penso),
sendo pequena, assim, conter perfume intenso
e possuir essa austera e original belleza?


MACHADO, Gilka. “Violeta”. In: Crystaes Partidos. Rio de Janeiro, 1915, p. 30.

 


Marca d'água

Sem título

 


Sonhei-te tantos annosl tantos annos!
eras o meu ideal de amor e de arte,
buscava-te a toda hora e em toda parte,
nessa anciã inexplicável dos insanos.

Emfim, vencida pelos desenganos,
como quem nada espera que lhe farte
a alma faminta, exhausta de sonhar-te,
abandonei-me do destino aos damnos.

Surges-me, agora, em meio da jornada
da vida: vens do inferno ou vens da altura?
— não sei: mas de ti fujo, apavorada!...

E, em lagrimas, minha alma conjectura:
uma felicidade retardada
-quasi sempre se torna desventura.


MACHADO, Gilka. “Sem título”. In: Estados de Alma. Rio de Janeiro, 1917, p. 67.

 


Marca d'água

Sem título

 


Ser a atmosphera que respiras,
conter-te em mim como numa redoma,
entrar-te pelo olfacto, assim como as espiras
invisíveis, do aroma…

Ser teu ambiente,
ser teu espaço circumdante,
sentindo em mim roçar, constantemente,
teu gesto palpitante…

Ser o silencio em que te enfurnas,
guardar teus lentos
pensamentos,
pelas horas nocturnas…

Ser o teu somno, sentir-te assim
como ninguém te sente
— abandonado completamente,
completamente esquecido em mim.


MACHADO, Gilka. “Sem título”. In: Estados de Alma. Rio de Janeiro, 1917, p. 74.

 


Marca d'água

Noute de Junho

 


Faz tanto frio, tanto frio,
que, de ti longe, phantazio
como gelado te has de estar!
a noute é clara, nivea, etherea,
suggere as noutes da Sibéria
assim nevada pelo luar

Través a gaze tênue, fina,
da charpa immensa da neblina
que tudo vela e no ar fluctua,
por estas horas dormideiras,
lembram as altas, cordilheiras
gelo em montões, montões de Lua

Cae neve ? — não; porém, humente
de neve julgo todo o ambiente;
é uma planície erma, polar,
em cuja frente e em cujos flancos
assomam pellos de ursos brancos,
a solidão sem fim do mar

Faz tanto frio, tanto, tanto,
que sonho neve em cada canto
e penso em ti, meu sonho lindo;
penso-te e, logo, me arrepio,
ai! quem me dera ser o frio
que com certeza estás sentindo!.

Todo meu ser se vaporiza,
se faz mais leve do que a briza,
Isobe, mistura-se com o ar,
e, em seus anseios se esticando,
busca sentir o offego brando
de um coração a palpitar

Ai! quem me dera ser o intenso
frio desta hora em que te penso!
— tomar-te as mãos, o busto, a bocca,
e te envolver de lado a lado,
e te deixar branco, espasmado,
por meu querer talvez de louca!

E, ó meu Amor, com que alegria,
eu, nesta noute de hinvernia,
noute de frio tumular,
ao lume azul do meu carinho,
te aqueceria, de mansinho,
— fora a lareira do teu lar!

O hinverno em tudo se insinua,
gela-me a fronte, o colb; a Lua
toda se esyae, toda se espalma;
e soffro, a um tempo, o duplo ançeio
de te esconder dentro em meu seio,
de me esconder dentro em tua alma.

Então, por ti me abstraio, e cuido
ser toda essência, toda fluido.
e, ó devaneio singular!
fico-me instantes, esquecida,
tendo na minha tua vida,
no ultimo espasmo a esfriar, a esfriar

Vae se tornando mais esguio
meu ser, por ti toda me esfio
num elasterio de ansiedade;
fosse minha alma a alma do Hinverno,
transmittir-te-ia o frio eterno,
a gelidez da eternidade.

Faz tanto frio, tanto frio,
que, de ti longe, phantasio
algido estejas como o luar
Por esta noute de Sibéria,
como eu quizera ser etherea
para em meu gelo te queimar!.


MACHADO, Gilka. “Noute de Junho”. In: Mulher Nua. Rio de Janeiro, 1922, p. 45.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq / Universal)