Henriqueta Lisboa (1901-1985)
Canção para entristecer
Que fui eu, afinal, na tua vida?
Fui um raio de sol para tua alma.
Fui um raio de sol e uma nuvem, também...
E' tão profundo o meu olhar! A voz, tão calma!
Que fui eu mais?... Alguma coisa indefinida,
um perfume subtil que ao longe esvoaçа,
um perfume subtil à claridade baça
de uma tarde de chuva em que se espera alguém…
Quando passei, pelo crepúsculo, sonhavas...
A emmoldurar-te a cabelleira em desalinho
vinha do poente uma cora de ondas flavas.
E eu disse, então: -"Ai! quem me dera encher teu sonho]
Fechar os olhos para a vida, de mansinho,
e abrir a vida para o teu amor!
Ai, quem me dera ser teu canto mais risonho,
ser sombra no verão, na primavera, flor;
ser sombra e flor na primavera!
Ai, quem me dera, quem me dera, quem me dera!..."
- "Felicidade"! Foi teu grito de alvoroço..
Porém depois baixando a voz tu me disseste:
-"E's tão linda e tão frágil! Sou tão moço!
Vieste cedo demais. Para que vieste?...
Deves ficar entre as estrelas, distanciada,
que a mais longínqua há de ser sempre a mais amada.
Como uma lágrima que se dilui.
vou arrastando o meu destino pela dor.
Fui teu sonho de amor, mas teu amor não fui.
Felicidade nunca pode ser amor.
LISBOA, Henriqueta. “Canção para entristecer”. In: Enternecimento (Versos). Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora - Paulo Pongetti & Cia, 1920, p. 33.
Quietude
O meu amor já não scintilla,
já não se expande o meu amor.
Estou serena, estou tranquila...
Não é a hora do sol - pôr?...
Minha alma assim nesta quietude,
quando os meus olhos vens fitar,
não se deslumbra, não se ilude:
toma expressões de lyrio ao luar.
Sou como um pássaro que esconde
entre as plumagens a cabeça.
Deixei meus cantos não sei onde,
faz frio em volta e a nevoa é espessa…
Meu coração é como um lago:
a agua que dorme nem marulha.
De tarde, ás vezes, muito vago,
um cysne vem, sem fazer bulha.
E eu ólho a esteira azul-celeste
que me annuvia o olhar tristonho.
Ai, meu amor, tu bem disseste:
ha uma mentira em cada sonho…
Não fales mais. Silencio. Entraste
na minha vida sem falar.
Deixa uma flor ao menos na haste
para a ilusão crepuscular.
LISBOA, Henriqueta. “Quietude”. In: Enternecimento (Versos). Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora - Paulo Pongetti & Cia, 1920, p. 41.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)