Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Mário de Andrade (1893-1945)

 

Epitalâmio

 


É sempre assim. De manhãzinha, braço dado,
nos jardins claros do hospital,
ele mancando, a ela apoiado,
silenciosos, lado a lado,
dão o passeio matinal.

E, vagarosamente, se entranhando
no perfume vermelho da manhã,
ela vem triste, como que sonhando,
- ela, que é să -
e ele, o ferido traz sorrisos francos,
vem assobiando entre seus lábios brancos
uma valsa alemā...

E no fundo do parque redolente,
onde tudo é perfume e som,
sentam-se e dizem, já maquinalmente:
"Êtes-vous las?" - "Oh! non!"

Então ele, com sua voz quebrada,
vendo o sol que no longe aponta,
entrando sorrateiro sob a touca,
brincar entre os cabelos brunos dela,
pela décima vez conta e reconta
como o prenderam e feriram pela
tardinha, ao proteger a retirada
dos seus soldados.

Ela, dedos febris entrelaçados,
bebe o reconto que lhe sai da boca.

E ele lembrando, sem vanglória, o heroísmo
que praticou, a vê chorar...
Então se arrasta para junto dela,
pergunta-lhe a razão do seu mutismo,
pede-lhe as mãos para beijar...

"Porquoi pleures tu?" - "Moi!" - "Mais oui!..."
E no seu colo se debruça,
cola-lhe a boca às mãos; e enquanto ele soluça,
agora, ela sorri.

É sempre assim...
Mas ao voltar, vem resplendendo
nela o beijo nas mãos, nele a esperança...
Voltam pelos meandros do jardim,
e ela vem rubra, que ele vem dizendo
quanto acha lindas as manhãs de França...


ANDRADE, Mário de. “Epitalâmio”. In: Há uma gota de sangue em cada poema. In: Obra imatura. Organização de Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Agir, 2009, p. 40-41.

 

Noturno

 


Luzes do Cambuci pelas noites de crime...
Calor!... E as nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
rumorejando na epiderme das árvores...

Gingam os bondes como um fogo de artificio,
sapateando nos trilhos,
cuspindo um orificio na treva cor de cal...

Num perfume de heliotrópios e de poças
gira uma flor-do-mal... Veio do Turquestā;
e traz olheiras que escurecem almas...
Fundiu esterlinas entre as unhas roxas
nos oscilantes de Ribeirão Preto...

Batat'assat'ô furnn!...

Luzes do Cambuci pelas noites de crime!...
Calor... E as nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
rumorejando na epiderme das árvores...

Um mulato cor de ouro,
com uma cabeleira feita de alianças polidas...
Violão! "Quando eu morrer..." Um cheiro pesado de baunilhas
oscila, tomba e rola no chão...
Ondula no ar a nostalgia das Baías...

E os bondes passam como um fogo de artifício,
sapateando nos trilhos,
ferindo um orifício na treva cor de cal...

- Batat'assat'ô furnn!...

Calor!... Os diabos andam no ar
corpos de nuas carregando...
As lassitudes dos sempres imprevistos!
e as almas acordando às mãos dos enlaçados!
Idílios sob os plátanos!...

E o ciúme universal às fanfarras gloriosas
de saias cor-de-rosa e gravatas cor-de-rosa!...

Balcões na cautela latejante, onde florem Iracemas
para os encontros dos guerreiros brancos... Brancos?
E que os cães latam nos jardins!
Ninguém, ninguém, ninguém se importa!
Todos embarcam na Alameda dos Beijos da Aventura!
Mas eu... Estas minhas grades em girândolas de jasmins,
enquanto as travessas do Cambuci nos livres
da liberdade dos lábios entreabertos!...

Arlequinal! Arlequinal!
As nuvens baixas muito grossas,
feitas de corpos de mariposas,
rumorejando na epiderme das árvores…
Mas sobre estas minhas grades em girândolas de jasmins,
o estelário delira em carnagens de luz,
e meu céu é todo um rojão de lágrimas!...

E os bondes riscam como um fogo de artifício,
sapateando nos trilhos,
jorrando um orifício na treva cor de cal...

Batat'assat'ô furnn!...


ANDRADE, Mário de. “Noturno”. In: Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 96-99.

 

Tu

 


Morrente chama esgalga,
mais morta inda no espírito!
Espírito de fidalga,
que vive dum bocejo entre dois galanteios
e de longe em longe uma chávena da treva bem forte

Mulher mais longa
que os pasmos alucinados
das torres de São Bento!
Mulher feita de asfalto e de lamas de várzea,
toda insultos nos olhos,
toda convites nessa boca louca de rubores!

Costureirinha de São Paulo,
italo-franco-luso-brasílico-saxonica,
gosto dos teus ardores crepusculares,
crepusculares e por isso mais ardentes,
bandeirantemente!

Lady Macbeth feita de névoa fina,
pura neblina da manhã!
Mulher que és minha madrasta e minha irmã!

Trituração ascencional dos meus sentidos!
Risco de aeroplano entre Moji e Paris!
Pura neblina da manhã!

Gosto dos teus desejos de crime turco
e das tuas ambições retorcidas como roubos!
Amo-te de pesadelos taciturnos,
Materialização da Canaã do meu Poe!
Never more!

Emílio de Menezes insultou a memória do meu Poe....

Oh! Incendiária dos meus aléns sonoros!
tu és o meu gato preto!
Tu te esmagaste nas paredes do meu sonho!
este sonho medonho!...

E serás sempre, morrente chama esgalga,
meio fidalga, meio barregã,
as alucinações crucificantes
de todas as auroras de meu jardim!


ANDRADE, Mário de. “Tu”. In: Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 102-103.

 

I

 


Eu coração estrala.
Esse lugar-comum inesperado: Amor.

Na trajetória rápida do bonde…
De Sant'Ana à cidade.
Da Terra à Lua
Júlio Verne
Atravessei o núcleo dum cometa?
Me sinto vestido de luzes estranhas
E da inquietação fulgurante da felicidade.

Aqueles olhos matinais sem nuvens...
Meu coração estrala.

No entanto dia intenso apertado.
Fui buscar minha farda.
Choveu.
Visita espanto
Discussões estéticas.
Automóvel confidencial.
Os cariocas perderam o matche.
Eta paulistas!

Mas aqueles olhos matinais sem nuvens...
Meu refrão!

E penso nela, unicamente penso em mim.
Amo todos os amores de S. Paulo... do Brasil.
Eu sou a Fama de cem bocas
Pra beijar todas as mulheres do mundo!
Hoje é Suburra nos meus braços abraços frementes amor
Minha Loucura, acalma-te.
... Muitos dias de exercícios militares…
Previsões tenebrosas....
Revoluções futuras...
Perspectiva de escravo cáqui, pardacento, fardacento...

Meu coração estrala.
Amor!...


ANDRADE, Mário de. “I”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 135-136.

 

VI

 


Queda pedrenta da ladeira.
Calcei botinas de febre.
Meus pés são duas sarças ardentes.
Queima-se o bruxo!
Inquisição!

Topada,
Turtuveio,
Desfaleço…

… um-dois, um-dois…

Mário, coragem!
Tão atrás dos companheiros… Avance!
Olhe à direita o alinhamento.

E continuo: um-dois, um-dois…

Mas como eu marcharia,
Taratá!
Bandeiras
Centenário
Exposição Universal
Torre-das-Joias dos meus beijos,
Se ela fosse soldado!

Se marchasse a meu lado
Com a sarça ardente dos cabelos
Labaredando sob o quepe…
Que linda então a barulheira dos tacões
Batendo macanudos no chão:
UM-DOIS, UM-DOIS…
E nem marcha!
Desembestava maluco por essas pedras queridas,
Se ela fosse meu rancho,
Se ela fosse meu soldo!

Meu amor…

Mário, cuidado, se alinhe!
Tão na frente dos companheiros…
Contenha esse ardor patriótico,
Essa baita paixão pelo Brasil!


ANDRADE, Mário de. “VI”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 144-145.

 

XII

 


Aquele bonde...
Sensação primavera de jardim.

Aleias regulares francesas coroadas de rosas,
Chiados de insetos de metálicas asas,
Cheiro claro esgarçado rosado de rosas abertas,
De rosas nos ares na grama nos caminhos,
Milhares de rosas nos ares na grama nos caminhos,
De rosas se rindo...
Vontade de amar!...

No entanto é já bem corriqueira
Esta comparação de flores e mulheres.


ANDRADE, Mário de. “XII”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 151.

 

XV

 


Abro tua porta inda todo úmido do orvalho da manhã.
Estávamos tão bonitos hoje...
Os filhos dos fazendeiros
Os filhos dos italianos...
Tinha também alguns com a pele morena por demais
Como deve ser ridículo um negro passeando em Versalhes!

Detestável Paris!

Porém nós fazíamos a mesma raça,
Grande gente nova sem ódios,
Povo de trabalho e de aventura...
Novo-Continente, novo centro do mundo!...

Então vim, pra que me visses de farda.
Preguiçosa!
A estas horas amante de soldado já esqueceu o toucador!

Teus beijos serelepes novo orvalho sobre mim.
Teus olhos palpitantes e risadas
As tuas palmas infantis...
Me entristeci.

Vejo no espelho a medalha dos teus cabelos no meu peito.

O bonde grita engasgado nos trilhos da esquina.

Não ficarei.
Quando a primeira vez apareci fardado,
Duas lágrimas ariscas nos olhos de minha mãe.


ANDRADE, Mário de. “XV”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 155.

 

XX

 


Cadência ondulada suave regular.

Névoa grossa pesada que nem som de trompa longe.
O Sol colhe algodão nas praias do Tietê.

… um-dois, um-dois…
NA REDE.

A cadência me embalança.

Que gostosura!

Ela devia estar aqui
Com os seus cabelos…


ANDRADE, Mário de. “XX”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 162.

 

XXV

 


Sou o “base”.
Primeiro homem da 4ª Companhia.
Primeiro homem de S. Paulo!

Ela devia estar aqui
Com o seu “bom-dia”…

Tem dois soldados inda mais compridos que eu.
E a bizarria?
E a nitidez dos gestos militares?
Finalmente o sargento compreendeu que eu era o Exemplo,
Me deu o lugar supremo!
Sou o generalíssimo das tropas de terra-e-mar da humanidade!
Ela devia estar aqui
Com a sua vaidade.

Tudo em mim são ângulos, retas.
Maquinismo inflexível.
Corpo metrônomo,
Allegro ma non troppo.
Abaixo as músicas românticas!
Sou uma fuga de João Sebastião Bach!

Porém os pés sarcásticos satíricos
Grita-gritam riso fino de picadas.
Cobras,
Espinhos,
Dores,
Cacos no caminho.
Calcei botinas de febre!
Lamentações humilhações físicas insuportáveis!
Meus pobres pés martirizados!
Ah, os bálsamos deliciosos refrigerantes!
Perfumes raríssimos bíblicos!
Madalenas de mãos finas lentas imperiais!

Ela devia estar aqui
Com as suas mãos lentas…


ANDRADE, Mário de. “XXV”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 169-170.

 

XXXIV

 

Louvação Da Emboaba Tordilha


Eu irei na Inglaterra
E direi a todas as moças da Inglaterra
Que não careço delas
Porque te possuo.

Irei na Itália
E direi a todas as moças da Itália
Que não careço delas
Porque te possuo.

Irei nos Estados-Unidos
E direi a todas as moças dos Estados-Unidos
Que não tenho nada com elas
Porque te possuo.

Depois irei na Espanha
e direi para todas as niñas da Espanha
Que não tenho nada com elas
porque te possuo.

(etc.)

Quando voltar ao Brasil
Te mostrarei a irmã dos teus cabelos,
Minha constância triunfante.
Será bonito enxergar as irmãs abraçadas na rua!

E inda terei de ir numa terra que eu sei…
Mas não será pra lhe gritar minha felicidade fanfarrã…
Será numa comovida silenciosa romaria
De amor, de reconhecimento.


ANDRADE, Mário de. “XXXIV”. In: Losango Cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 183-184.

 

XXXVI

 


Como sempre, escondi minha paixão.
Ninguém soube do primeiro beijo que te dei.
Ninguém não é a inteira verdade
Mas são tão relativos os desconhecidos...
S. Paulo é já uma grande capital.
Não porque tenha milhares de habitantes
Porém a curiosidade já não passa mais dos olhos pras línguas.
E quanto é mais intenso amar sem comentários!

Mas eu sonho que vais agarradinha no meu braço
Numa rua toda cheia de amigos, de soldados, conhecidos...


ANDRADE, Mário de. “XXXVI”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 186.

 

XLII

 

Rondó Das Tardanças


“– Volte amanhã.”

Como tarda a desincorporação!
Não tem mais formaturas,
Não tem mais acelerados…
CALMARIA
Desejo de tempestades
Adoece meus membros parados.
Quero ir de novo pro batuque público da vida!
Que engraçado!
Também quando trato dos meus negócios com a vida

Ela sempre me diz com o ar distraído dela:
“– Volte amanhã.”


ANDRADE, Mário de. “XLII”. In: Losango cáqui. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 197.

 

Os teus olhos distribuem

 


Os teus olhos distribuem
o que não existe aos meus:
As luzes que os meus possuem
São as migalhas dos teus.

Quem gasta no amor vinte anos
Menos amou, na alegria,
Do que quem ama um só dia
E morre de desenganos.

Teu sorriso é um jardineiro
Meu coração é um jardim;
Saudade! imenso canteiro
Que eu trago dentro de mim.

A semente dos teus olhos
Caiu no meu coração,
Deu uma árvore de abrolhos
e deu uma fruta – a paixão.

Quis plantar uma limeira,
O vento roubou-me o grão.
Teus sorrisos, feiticeira,
Roubaram-me o coração.

Quando tu passas ligeira,
Sozinha e alegre, a cantar,
Eu, que choro a vida inteira,
Eu rio em vez de chorar.

O amor é um barquinho esguio
Sulcando as ondas do mar;
— O amor não é como o rio
Que é fácil de atravessar.

Eu já chorei muitas vezes
Sem que a lágrima brotasse:
Os meus males não são nuvens
Que se esgotem pela face.


ANDRADE, Mário de. “Os teus olhos distribuem”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 214-215.

 

Rondó pra você

 

Á Mário Pedrosa


De você, Rosa, eu não queria
Receber somente esse abraço
Tão devagar que você me dá,
Nem gozar somente esse beijo
Tão molhado que você me dá…
Eu não queria só porque
Por tudo quanto você me fala,
Já reparei que no seu peito
Soluça o coração bem feito
De você.

Pois então eu imaginei
Que junto com esse corpo magro,
Moreninho que você me dá,
Com a boniteza, a faceirice,

A risada que você me dá,
E me enrabicham como o quê,
Bem que eu podia possuir também
O que mora atrás do seu rosto, Rosa,
O pensamento, a alma, o desgosto
De você.


ANDRADE, Mário de. “Rondó pra você”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 229-230.

 

Noturno de Belo Horizonte

 

a Elísio de Carvalho


Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos,
Calma do noturno de Belo Horizonte…
O silêncio fresco desfolha das árvores
E orvalha o jardim só.

Larguezas.
Enormes coágulos de sombra.
O polícia entre rosas…
Onde não é preciso, como sempre…
Há uma ausência de crimes
Na jovialidade infantil do friozinho.
Ninguém.
O monstro desapareceu.
Só as árvores árvores do mato-virgem
Pendurando a tapeçaria das ramagens
Nos braços cabindas da noite.

Que luta pavorosa entre floresta e casas…
Todas as idades humanas
Macaqueadas por arquiteturas históricas
Torres torreões torrinhas e tolices
Brigaram em nome da?
Os mineiros secundam em coro:
– Em nome da civilização!
Minas progride.
Também quer ter também capital moderníssima também…

Pórticos gregos do Instituto de Rádio
Onde jamais Empédocles entrará…
O Conselho Deliberativo é manuelino,
Salão sapiente de Manuéis-da-hora…
Arcos românicos de São José

E a catedral que pretende ser gótica…
Pois tanto esquecimento da verdade!
A terra se insurgiu.

O mato invadiu o gradeado das ruas,
Bondes sopesados por troncos hercúleos,
Incêndio de Cafés,
Setas inflamadas,
Comboio de trânsfugas pro Rio de Janeiro,
A ramaria crequenta cegando as janelas
Com a poeira dura das folhagens…
Aquele homem fugiu.
A imitação fugiu.
Clareiras do Brasil, praças agrestes!…
Paz.

O mato vitorioso acampou nas ladeiras.
Suor de resinas opulentas.
Grupos de automóveis:
Baitacas e jandaias do rosal.
E o noturno apagando na sombra o artifício e o defeito
Adormece em Belo Horizonte

Como um sonho mineiro.
Tem festas do Tejuco pelo céu!
As estrelas baralham-se num estardalhaço de luzes.
O sr. barão das Catas-Altas
Reúne todas as constelações
Pra fundir uma baixela de mundos…
Bulício de multidões matizadas…
Emboabas, carijós, espanhóis de Felipe IV…
Tem baianos redondos…
Dom Rodrigo de Castel Branco partirá!…
Lumeiro festival… Gritos… Tocheiros…
O Triunfo Eucarístico abala chispeando…
Os planetas comparecem em pessoa!
Só as magnólias – que banzo dolorido! –
As carapinhas fofas polvilhadas
Com a prata da Via-Látea
Seguem pra igreja do Rosário
E pro jongo de Chico-Rei…

Estrelas árvores estrelas
E o silêncio fresco da noite deserta.
Belo Horizonte desapareceu
Transfigurada nas recordações.

… Minas Gerais, fruta paulista…
Ouvi que tem minas ocultas por cá…
Mas ninguém mais conhece Marcos de Azeredo,

Quedê os roteiros de Robério Dias?
Prata
Diamantes cascateantes
Esmeraldas esmeraldas esperanças!…

Não são esmeraldas, são turmalinas, bem se vê:

A casinha de taipa a beira-rio.
Canoa abicada na margem,
A bruma das monções,
Mais nada.
Os galhos lavam matinalmente os cabelos
Na água barrenta indiferente.
As ondas sozinhas do Paraíba
Morrem avermelhadas mornas cor-de-febre.
E a febre…

Não sejamos muito exigentes.
Todos os países do mundo
Tem os seus Guaicuis emboscados
No sossego das ribanceiras dolentes.
As carneiradas ficavam pra trás…
O trem passava apavorado.
Só parou muito longe na estação
Pra que os romeiros saudassem
Nosso Senhor da Boa-Viagem.

Ele ficava imóvel na beira dos trilhos
Amarrado à cegueira.
Trazia só os molambos necessários
Como convém aos santos e
Aos avarentos.
Porém o netinho corria junto das janelas dos vagões
Com o chapéu do cego na mão.
Quando a esmola caía – com que triunfo! – o menino gritava:

– Pronto! Mais uma!
Então lá do seu mundo
Nosso Senhor abençoava:
– Boa viagem.

Examina a carne do teu corpo.
Apesar da perfeição das estradas-de-ferro
E da inflexível providência dos horários,
Encontros descarrilamentos mortes…
Pode ser!…
As esmolas tombavam.

– Pronto! Mais uma!
– Boa viagem.
Minas Gerais de assombros e anedotas…
Os mineiros pintam diariamente o céu de azul
Com os pincéis das macaúbas folhudas.
Olhe a cascata lá!
Súbita bombarda.
Talvez folha de arbusto,
Ninho de teneném que cai pesado,
Talvez o trem, talvez ninguém…

As águas se assustaram
E o estouro dos rios começou.

Vão soltos pinchando rabanadas pelos ares,
Salta aqui salta corre viravolta pingo grito
Espumas brancas alvas
Fluem bolhas bolas,
Itoupavas altas…
Borbulham bulhando em murmúrios churriantes
Nas bolsas brandas largas das enseadas lânguidas…
De supetão fosso.
Mergulho.
Uivam tombando.
Desgarram serra abaixo.
Rio das Mortes
Paraopeba
Paraibuna,
Mamotes brancos…
E o Araçuí de Fernão Dias…
Barafustam vargens fora
Até acalmarem muito longe exânimes
Nas polidas lagoas de cabeça pra baixo.

Rio São Francisco o marrueiro dos matos
Partiu levando o rebanho pro norte
Ao aboio das águas lentamente.
A barcaça que ruma pra Juazeiro
Desce ritmada pelos golpes dos remeiros.
Na proa, o olhar distante a olhar,
Matraca o dançador:

“Meu pangaré arreado,
Minha garrucha laporte,
Encostado no meu bem
Não tenho medo da morte.
Ah!…”

Um grande Ah!… aberto e pesado de espanto
Varre Minas Gerais por toda a parte…
Um silêncio repleto de silêncio
Nas invernadas, nos araxás,
No marasmo das cidades paradas…
Passado a fuxicar as almas,
Fantasmas de altares, de naves douradas
E dos palácios de Mariana e Vila Rica…
Isto é: Ouro Preto.
E o nome lindo de São José d’El Rei mudado num odontológico Tiradentes…
Respeitemos os mártires.

Calma do noturno de Belo Horizonte…
As estrelas acordadas enchem de Ahs!… ecoantes o ar.
O silêncio fresco despenca das árvores.
Veio de longe, das planícies altas,
Dos cerrados onde o guaxe passa rápido…
Vvvvvvv… passou.
Passou tal qual o fausto das paragens de ouro velho…
Minas Gerais, fruta paulista…
Fruta que apodreceu.

Frutificou mineira! Taratá!
Há também colheitas sinceras!
Milharais canaviais cafezais insistentes
Trepadeirando morro acima.
Mas que chãos sovinas como o mineiro-zebu!
Dizem que os baetas são agarrados…
Não percebi, graças a Deus!
Na fazenda do Barreiro recebem opulentamente.
Os pratos nativos são índices de nacionalidade.
Mas no Grande Hotel de Belo Horizonte servem à francesa.

Et bien! Je vous demande un toutou!
Venha a batata-doce e o torresmo fondant!
Carne-de-porco não!
O médico russo afirma que na carne-de-porco andam micróbios de loucura…
Basta o meu desvairismo!
E os pileques
quase pileques
salamaleques
da caninha de manga!…

Taratá! Quero a couve mineira!
Minas progride!
Mãos esqueléticas de máquinas britando minérios,
As estradas-de-ferro estradas-de-rodagem
Serpenteiam teosoficamente fecundando o deserto…

Afinal Belo Horizonte é uma tolice como as outras.
São Paulo não é a única cidade arlequinal.
E há vida há gente, nosso povo tostado.
O secretário da Agricultura é novo!
Fábricas de calçados
Escola de Minas no palácio dos Governadores,
Na Casa dos Contos não tem mais poetas encarcerados,
Campo de futebol em Carmo da Mata,
Divinópolis possui o melhor chuveiro do mundo,
As cunhãs não usam mais pó de ouro nos cabelos,
Os choferes avançam no bolso dos viajantes,

Teatro grego em São João d’El Rei
Onde jamais Eurípedes será representado…
Ninguém mais para nas pontes, Critilo,
Novidadeirando sobre damas casadas.
Tenho pressa! Ganhemos o dia!
Progresso! Civilização!
As plantações pendem maduras.
O morfético ao lado da estrada esperando automóveis…
Cheiro fecundo de vacas,
Pedreiras feridas,
Eletricidade submissa…
Minas Gerais sáxea e atualista
Não resumida às estações-termais!
Gentes do Triângulo Mineiro, Juiz de Fora!
Força das xiriricas das florestas e cerrados!
Minas Gerais, fruta paulista!…

Alegria da noite de Belo Horizonte!
Há uma ausência de males
Na jovialidade infantil do friozinho.
Silêncio brincalhão salta das árvores,
Entra nas casas desce as ruas paradas
E se engrossa agressivo na praça do Mercado.
Vento florido roda pelos trilhos.
Vem de longe, das grotas pré-históricas…
Descendo as montanhas
Fugiu dos despenhadeiros assombrados do Rola-Moça…

Estremeção brusco de medo.
Pavor.
Folhas chorosas de eucaliptos.
Sino bate.
Ninguém.
A solidão angustiosa dos píncaros…
A paz chucra, ressabiada, das gargantas da montanha…

A serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não…
Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.

Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puseram de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.

Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.

A serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.

As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões
Temendo a noite que vinha.

Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam

Buscando o despenhadeiro.
Ah, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto

Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte.
Na altura tudo era paz…
Chicoteando o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.

E a serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

Eu queria contar as histórias de Minas
Aos brasileiros do Brasil…

Filhos do Luso e da melancolia,
Vem, gente de Alagoas e de Mato Grosso,
De norte e sul homens fluviais do Amazonas e do rio Paraná…
E os fluminenses salinos
E os guascas e os paraenses e os pernambucanos
E os vaqueiros de couro das caatingas
E os goianos governados por meu avô…

Teutos de Santa Catarina,
Retirantes de língua seca,
Maranhenses paraibanos e do Rio Grande do Norte e do Espírito Santo
E do Acre, irmão caçula,
Toda a minha raça morena!
Vem, gente! vem ver o noturno de Belo Horizonte!
Sejam comedores de pimenta
Ou de carne requentada no dorso dos pigarços petiços,
Vem, minha gente!
Bebedores de guaraná e de açaí,
Chupadores do chimarrão,
Pinguços cantantes, cafezistas ricaços,
Mamíferos amamentados pelos cocos de Pindorama,
Vem, minha gente, que tem festas do Tejuco pelo céu!
Bárbara Heliodora desgrenhada louca
Dizendo versos desce a rua do Pará…
Quem conhece as ingratidões de Marília?
Juro que foi Nosso Senhor Jesus Cristo Ele mesmo
Que plantou a sua cruz no adro das capelas da serra!
Foi Ele mesmo que em São João d’El Rei
Esculpiu as imagens dos seus santos…
E há histórias também pros que duvidam de Deus…

O coronel Antônio de Oliveira Leitão era casado com dona
Branca Ribeiro do Alvarenga, ambos de orgulhosa nobreza
vicentina. Porém nas tardes de Vila Rica a filha deles abana-
va o lenço no quintal… – “Deve ser a algum plebeu, que não
há moços nobres na cidade…” E o descendente de cavaleiros
e capitãesmores não quer saber de mésalliances. O coronel
Antônio de Oliveira Leitão esfaqueou a filha. Levaram-no
preso à Baía onde foi decapitado. Pois dona Branca Ribei-
ro do Alvarenga reuniu todos os cabedais. Mandou cons-
truir com eles uma igreja para que Deus perdoasse as almas
pecadoras do marido e da filha.

Meus brasileiros lindamente misturados,
Se vocês vierem nessa igreja dos Perdões
Rezem três ave-marias ajoelhadas
Pros dois desinfelizes.
Creio que a moça não carece muito delas
Mas ninguém sabe onde estará o coronel…
Credo!

Mas não há nada como histórias pra reunir na mesma casa…
Na Arábia por saber contar histórias

Uma mulher se salvou…
A Espanha estilhaçou-se numa poeira de nações americanas
Mas sobre o tronco sonoro da língua do ão
Portugal reuniu 22 orquídeas desiguais.
Nós somos na Terra o grande milagre do amor!

Que vergonha se representássemos apenas contingência de defesa
Ou mesmo ligação circunscrita de amor…
Porém as raças são verdades essenciais
E um elemento de riqueza humana.
As pátrias têm de ser uma expressão de Humanidade.

Separadas na guerra ou na paz são bem pobres
Bem mesquinhos exemplos de alma
Mas compreendidas juntas num amor consciente e exato
Quanta história mineira pra contar!

Não prego a guerra nem a paz, eu peço amor!
Eu peço amor em todos os seus beijos,
Beijos de ódio, de cópula ou de fraternidade.
Não prego a paz universal e eterna, Deus me livre!
Eu sempre contei com a imbecilidade vaidosa dos homens
E não me agradam os idealistas.

E temo que uma paz obrigatória
Nos fizesse esquecer o amor
Porque mesmo falando de relações de povo e povo
O amor não é uma paz
E é por amor que Deus nos deu a vida…
O amor não é uma paz, bem mais bonito que ela,
Porque é um completamento!…

Nós somos na Terra o grande milagre do amor!
E embora tão diversa a nossa vida
Dançamos juntos no carnaval das gentes,
Bloco pachola do “Custa mas vai!”

E abre alas que Eu quero passar!
Nós somos os brasileiros auriverdes!
As esmeraldas das araras
Os rubis dos colibris
Os abacaxis as mangas os cajus
Atravessam amorosamente
A fremente celebração do Universal!

Que importa uns falem mole descansado
Que os cariocas arranhem os erres na garganta
Que os capixabas e paroaras escancarem as vogais?
Que tem se o quinhentos réis meridional
Vira cinco tostões do Rio pro Norte?
Juntos formamos este assombro de misérias e grandezas,
Brasil, nome de vegetal!…

O bloco fantasiado de histórias mineiras
Move-se na avenida de seis renques de árvores…
O sol explode em fogaréus…
O dia é frio sem nuvens, de brilhos vidrilhos…
Não é dia! Não tem sol explodindo no céu!
É o delírio noturno de Belo Horizonte…
Não nos esqueçamos da cor local:
Itacolomi… Diário de Minas… Bondes do Calafate…
E o silêncio… sio… sio… quiriri…

Os seres e as coisas se aplainam no sono.
Três horas.
A cidade oblíqua
Depois de dançar os trabalhos do dia
Faz muito que dormiu.

Seu corpo respira de leve o aclive vagarento das ladeiras.
De longe em longe gritam solitários brilhos falsos
Perfurando o sombral das figueiras:
Berenguendens berloques ouropéis de Oropa consagrada
Que a goiana trocou pelas pepitas de ouro fino.
Dorme Belo Horizonte.
Seu corpo respira de leve o aclive vagarento das ladeiras…
Não se escuta sequer o ruído das estrelas caminhando…
Mas os poros abertos da cidade
Aspiram com sensualidade com delícia
O ar da terra elevada.
Ar arejado batido nas pedras dos morros,
Varado através da água trançada das cachoeiras,
Ar que brota nas fontes com as águas
Por toda a parte de Minas Gerais.


ANDRADE, Mário de. “Noturno de Belo Horizonte”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 240-259.

 

Moda da cadeia de Porto Alegre

 

A Mário Pedrosa


Dona Rita amouxa em casa
Uma porção da riqueza
Que o marido, que Deus tenha!
Por amor dela ajuntou.
A riqueza de que falo
É cobres, porque dos filhos
Só um mocinho não gorou.

Apesar dessa família
Já grande, em pleno viçor,
Quando ela pensa em gatunos
Corre pela espinha dela
Uma friagem de horror.

Também não tem na cidade
Correição de segurança
Adonde gatuno que entra
Perde pra sempre a esperança
De outra vez ir gatunar.
Dona Rita passa as noites
Sem dormir, sem descansar.
Qualquer barulhinho a pobre
Levanta, vai assuntar.

Pois então ela resolve,
Gasta mas gasta pra bem:
Faz construir uma cadeia
Que mais segura não tem
Por este grande Brasil.

Era mesmo um casarão
Alvo que nem tabatinga,
Com tanta grade tamanha
Que apertava o coração.
Toda a gente ia passear
Lá no largo da Cadeia
Mas porém se espera um preso
Pra estreia da correição.

Agora o filho entra tarde.
Dona Rita sossegada
Costura, pesponta meias
Enquanto sono não vem.
Só de pensar na cadeia
Dona Rita dorme bem.

Foi então que numa festa
Já quase de-manhãzinha
O filho de dona Rita
Botou seis tiros no peito
De outro moço, rival dele
Nuns negócios de paixão.

Estrearam a correição.
Dona Rita não foi ver.

Definha que não definha,
Durou uns pares de meses,
Afinal veio a morrer.

Falam também que de-noite
O carcereiro rondando
Escuta pelo caminho
O choro de dona Rita
Gemendo devagarzinho…

Mas isso de assombração
Só quem vê é que acredita…


ANDRADE, Mário de. “Moda da cadeia de Porto Alegre”. In: Clã do Jabuti. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 277-279.

 

Poemas da negra

 


                    I

Não sei por que espírito antigo
Ficamos assim impossíveis…

A lua chapeia os mangues
Donde sai um favor de silêncio
E de maré.
És uma sombra que apalpo
Que nem um cortejo de castas rainhas.
Meus olhos vadiam nas lágrimas.
Te vejo coberta de estrelas,
Coberta de estrelas,
Meu amor!

Tua calma agrava o silêncio dos mangues.


ANDRADE, Mário de. “I”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 343.

 

Poemas da negra

 


            III

Você é tão suave,
Vossos lábios suaves
Vagam no meu rosto,
Fecham meu olhar.

Sol-posto.

É a escureza suave
Que vem de você,
Que se dissolve em mim.

Que sono…

Eu imaginava
Duros vossos lábios,
Mas você me ensina
A volta ao bem.


ANDRADE, Mário de. “III”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 345.

 

Poemas da negra

 


           IV

Estou com medo…
Teu beijo é tão beijo,
Tua inocência é dura,
Feita de camélias.

Ôh, meu amor,
Nós não somos iguais!
Tu me proíbes
Beber água após…

Eu volto à calma
E não te vejo mais.


ANDRADE, Mário de. “IV”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 346.

 

Poemas da negra

 


                             V

Lá longe no sul,
Lá nos pés da Argentina,
Marulham temíveis os mares gelados,
Não posso fazer mesmo um gesto!

Tu me adivinhas, meu amor,
Porém não queres ser escrava!

Flores!
Apaixonadamente meus braços desgalham-se,
Flores!
Flores amarelas do pau-d’arco secular!
Eu me desgalho sobre teu corpo manso,
As flores estão caindo sobre teu corpo manso,
Te cobrirei de flores amarelas!

Apaixonadamente
Eu me defenderei!


ANDRADE, Mário de. “V”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 347.

 

Poemas da negra

 


                VI

Quando
Minha mão se alastra
Em vosso grande corpo,
Você estremece um pouco.

É como o negrume da noite
Quando a estrela Vênus
Vence o véu da tarde
E brilha enfim.

Nossos corpos são finos,
São muito compridos…
Minha mão relumeia
Cada vez mais sobre você.

E nós partimos adorados
Nos turbilhões da estrela Vênus!…


ANDRADE, Mário de. “VI”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 348.

 

Poemas da negra

 


                                  VIII

Nega em teu ser primário a insistência das coisas,
Me livra do caminho.

Colho mancheias de meus olhares,
Meu pensamento assombra mundos novos,
E eu desejava estar contigo…

Há vida por demais neste silêncio nosso!
Eu próprio exalo fluidos leves
Que condensam-se em torno…
Me sinto fatigantemente eterno!

Ah, meu amor,
Não é minha amplidão que me desencaminha,
Mas a virtuosidade…


ANDRADE, Mário de. “VIII”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 349.

 

Poemas da negra

 


                      IX

Na zona da mata o canavial novo
É um descanso verde que faz bem;
É uma suavidade pousar a vista
Na manteiga e no pelo dos ratos;
No mais matinal perfume francês
A gente domina uma dedicação;
Apertando os dedos no barro mole
Ele escorre e foge,
E o corpo estremece que é um prazer…

Mas você é grave sem comparação.


ANDRADE, Mário de. “IX”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 351.

 

Poemas da negra

 


                          X

Há o mutismo exaltado dos astros,
Um som redondo enorme que não para mais.
Os duros vulcões ensanguentam a noite,
A gente se esquece no jogo das brisas,
A jurema perde as folhas derradeiras
Sobre Mestre Carlos que morreu.
Dir-se-ia que os ursos
Mexem na sombra do mato…
A escureza cai sobre abelhas perdidas.
Um potro galopa.
Ponteia uma viola
De sertão.

Nós estamos de pé,
Nós nos enlaçamos,
Somos tão puros,
Tão verdadeiros…
Ôh, meu amor!
O mangue vai refletir os corpos enlaçados!
Nossas mãos já partem no jogo das brisas,
Nossos lábios se cristalizam em sal!
Nós não somos mais nós!
Nós estamos de pé!
Nós nos amamos!


ANDRADE, Mário de. “X”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 352.

 

Poemas da negra

 


                     XI

Ai momentos de físico amor,
Ai reentrâncias de corpo…
Meus lábios são que nem destroços
Que o mar acalanta em sossego.

A luz do candeeiro te aprova,
E… não sou eu, é a luz aninhada em teu corpo
Que ao som dos coqueiros do vento
Farfalha no ar os adjetivos


ANDRADE, Mário de. “XI”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 353.

 

Poemas da negra

 


              XII

Lembrança boa,
Carrego comigo tua mão.

O calor exausto
Oprime estas ruas
Que nem a tua boca pesada.
As igrejas oscilam
Por cima dos homens de branco,
E as sombras despencam inúteis
Das botinas, passo a passo.

O que me esconde
É o momento suave
Com que as casas velhas
São róseas, morenas,
Na beira do rio.

Dir-se-ia que há madressilvas
No cais antigo…
Me sinto suavíssimo de madressilvas
Na beira do rio.


ANDRADE, Mário de. “XII”. In: “Poemas da negra”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 354.

 

As bodas montevideanas

 

(15 de janeiro de 1928)


Todas as coisas estarão boazinhas porque são indiferentes…
Vocês chegaram até o ponto da alegria…
Pra que matutar mais?

“– Pois que a gente se quer bem, tanto! que o corpo
Consegue ficar na espera tempo longo de conversa,
Não venham nos avisar que é Buenos Aires lá fora,
Que é Buenos Aires com toda a magnitude firme dela!
Não venham nos avisar que até o garçom olha pra nós…

Não venham não! E que ninguém não venha mais!
Diz, pássaro, diz outra vez como foi que você veio parar aqui!
Diz tudo, e diz principalmente outra vez, pássaro!
Repete, não faz mal, repete o caso, colhereira chiquitita do Brasil!…
Será mesmo que a gente se escuta falando?
Diz, pássaro! Que a voz de você ameigue as coisas que muito já sei,
Enquanto os nossos olhos entram fundo no invisível de nós dois,
Pra que matutar mais!…”

“– Ah, flores duma outra idade e marchas nupciais, véus de noiva…
Amanhã cedo iremos a Montevidéu casar…

Tem mais comodidade lá na Lei, até divórcio nos reserva,
E nós iremos a Montevidéu só pra casar…
Pra que matutar mais, viva o Uruguai!
Nem bem chegando lá vou no cabeleireiro consertar as sobrancelhas, stou medonha,
E você bota a gravata listrada que dei pra você.
Nos casaremos alinhados.
Flores de laranjeira não, bobagem! mas… que tal umas laranjas?
Umas laranjas bem geladas, bem ácidas pro jantar… Vai ser bom!”

Ah, flores duma outra idade e marchas nupciais, véus de noiva,
Até vocês podem cair sobre eles, os noivos aceitarão tudo!
A terra enorme em todos os seus gritos que ranja na marcha nupcial!
A burundanga dos ventos de poeira, pampeiros, noroestes, sulões,
Cheirosos, se tecendo em véu de noiva sobre o pássaro,
E a florada meridional das estrelas despencando em sol sobre eles!…
Aceitam tudo porque já não é mais hora de enxergar.
E que o quarto de hotel, Montevidéu, a Terra, o mundo,
Sejam pequenos ou grandes, qual! de nada saberão mais!

Canta, som complacente de minha voz, a louvação nupcial com entusiasmo!
Canta por ti, canta apostando!
Canta, que o canto nupcial é torcida também, torce pra eles!
A equipe nova seguiu andarilha,
Torce pra que eles cheguem juntos no destino!
Torce, ri contente, grita que embora não ouçam-te o grito,
O som irá dinamizar o ardor dos jogadores!
Dinamiza! Dá força, dá ritmo, porque o jogo bem torcido
É comovente, mais movimentado e bem de esporte leal!
Abaixo os profissionais!

Canta num som mui alto, casta e desnecessária!
Desabaladamente, feito boba, canta e recanta muito,
Eles estão no jogo e já não podem cantar mais!
Torce, torce e grita boba-alegre comovida sem sentido!
Para eles vai ser a vitória ou a derrota no jogo, despeito ou completamento,
Porém pra ti, voz minha, resta o canto de esporte vital, acima dos resultados!
Canta alegre na torcida, voz de poeta!
Canta sem ter razão pra estar alegre!
Dois seres sem temor, sem matutar se uniram, dois a mais!
Não tens razão especial não pra estar alegre, voz de poeta?
Pois canta assim mesmo ignorando a razão que te leva,
Mas canta sempre! Canta empolgada à violência da Terra,
A violência dos seres que através das civilizações aflitivas,
Inda enxergam o Sol na abertura dos dias
E bailam sobre os vulcões!


ANDRADE, Mário de. “As bodas montevideanas”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 367-369.

 

Manhã

 

(18 de março de 1928)


jardim estava em rosa ao pé do sol
E o ventinho de mato que viera do Jaraguá,
Deixando por tudo uma presença de água,
Banzava gozado na manhã praciana.

Tudo limpo que nem toada de flauta.
A gente se quisesse beijava o chão sem formiga,
A boca roçava mesmo na paisagem de cristal.

Um silêncio nortista, muito claro!
As sombras se agarravam no folhedo das árvores
Talqualmente preguiças pesadas.
O sol sentava nos bancos tomando banho-de-luz.

Tinha um sossego tão antigo no jardim,
Uma fresca tão de mão lavada com limão,
Era tão marupiara e descansante
Que desejei… Mulher não desejei não, desejei…
Se eu tivesse a meu lado ali passeando
Suponhamos Lenine, Carlos Prestes, Gandhi, um desses!…

Na doçura da manhã quase acabada
Eu lhes falava cordialmente: – Se abanquem um bocadinho.
E havia de contar pra eles os nomes dos nossos peixes,
Ou descrevia Ouro Preto, a entrada de Vitória, Marajó,
Coisa assim, que pusesse um disfarce de festa
No pensamento dessas tempestades de homens.


ANDRADE, Mário de. “Manhã”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 377-378.

 

Momento

 

(16 de setembro de 1928)


Deve haver aqui perto uma roseira florindo,
Não sei… sinto por mim uma harmonia,
Um pouco da imparcialidade que a fadiga traz consigo.

Olho pra minhas mãos. E uma ternura perigosa
Me faz passar a boca sobre elas, roçando,
(De certo é alguma rosa…)
Numa ternura que não é mais perigosa não, é piedade paciente.
As rosas… Os milhões de rosas paulistanas…
Já tanto que enxerguei minhas mãos trabalhando,
E tapearem por brinquedo umas costas de amigo,
Se entregarem pra inimigo, erguerem dinheiro do chão…
Uma feita meus dedos pousaram nuns lábios,
Nesse momento eu quis ser cego!
Ela não quis beijar a ponta dos meus dedos,
Beijou as mãos, apaixonadamente, em submissão…
Ela beijou o pó das minhas mãos…
O mesmo pó que já desce na rosa nem bem ela se abre.
Deve haver aqui perto uma roseira florindo…

Que harmonia por mim… Que parecença com jardim…
O meu corpo está são… Minha alma foi-se embora…
E me deixou.


ANDRADE, Mário de. “Momento”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 379-380.

 

Canto do mal-de-amor

 

(1924)


Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor.
Senti que vinha… Seus braços
Era fatal me chamavam,
Parti… Cheio de vontade
E já não tenho vontade,
Percorro a noite, percorro
A noite com mal-de-amor…

É tarde já… Zero grau.
Hesito mais, indeciso…
Meus irmãos desaparecem
Nos corredores com luz
Donde saltam na calçada
Muitos palhaços de riso,
Até rio… Vaia o jazz.
Caminho pela cidade
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo com mal-de-amor
Sofrendo. A frase não para
No meio: com mal-de-amor.
Ironia do contraste,
Militares linhas retas,
Praças claustros seculares
Nunca amaste! nunca amaste!
Névoa filha-de-Maria,
Névoa fria… vida fria…

Não vale a pena ficar
Torturando a minha carne
Com o cilício da esperança,
Arrasto gozos perdidos,
Vim buscar os corredores
Os corredores com luz,
E o eco desses braços nus
Resvalando no céu baixo,
Atordoando os meus ouvidos,
Corro cambaleio azoinam
Meu corpo corpos rangentes,
Estalidos de desejos,
Beijos, ecos estridentes
De braços nus me chamando,
Eu quero! eu quero… Seus braços
Teus abraços boca pele
seios olhos seios dentes
Corro. O eco explode já perto
Muito, perto muito, forte,
Vejo perfume de fome
Muito forte, muito perto,
Agora… Ela me abre os braços
Viro a esquina, estendo os braços,
Meus abraços nos espaços,
Rua reta, rua reta,
Rua reta, que deserto!…
Os lampiões bem regulares
Com um só olho. São ciclopes.
São eunucos dum harém,
Odalisca, o lampião pisca,
Não tem mais nada ninguém…
O sino cai sobre mim.

São três horas já… Percorro
A noite com mal-de-amor…
Pedaços de minha carne
Pelos punhais das esquinas
Vão ficando, vou caminho
Sigo… amor… Sei que não morro,
Vou sigo caminho… é tarde…
É mais adiante! Na esquina!…
Já sei que não é… Aquela
Janela sempre acordada,
É uma puta me chamando,
Dez milréis, mercadoria,
Alfândega, porto de Santos
Oceano Atlântico, grande
Mar monótono monótono,
As ondas que vão e vêm,
Os cadáveres dos naufrágios
Serão jogados na areia…
E há praias muito bonitas
Com palmeiras guaranis…
As invenções de Alencar
Ficaram muito inferiores
A esses oásis das praias
Tão verdes, tão verdes, tão,
Tão horrível solidão!…
E o mar ondula e desmaia,
Depois me empurra é fatal
O mar me empurra pra areia
Sou atirado na praia
Das palmeiras, minha rua…

Minha rua das Palmeiras…
Vou sigo caminho… Longe
Meu quarto… quarto vazio…

Um vago marulhar de ondas
Sai dos meus ouvidos… O eco
Morreu. Um marulhar de ondas…

A miragem se dispersa.

Os braços nem chamam mais…

Sangue da aurora… O padeiro
Passou.
Última esquina.
Perto
O olho frio do meu quarto…
Nem não tenho carne mais…
Carne mais… Sigo. Caminho…
Destroços de ossos batendo…

Triste triste do andarilho
Carregando para o quarto
Os lábios secos. Inúteis…


ANDRADE, Mário de. “Canto do mal-de-amor”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 403-406.

 

Melodia moura

 

(1928)


Quando as casas baixarem de preço
Lá na cidade, Laura Moura,
Uma delas será sua sem favor.
Será num bairro bem central,
Pra que o nosso mistério engane mais.

Quando as casas baixarem de preço,
Você há-de ter a vossa, Laura Moura,
Lá na cidade em que trabalho…
Há-de ser bom, pousando o rosto em vosso colo,
Me entediar feito um dono,
Mal escutando as mágoas de você.

Laura Moura viverá bem sossegada,
Me servindo,
Toda puxada pelo Piauí.
Num longing quase bom,
Comendo alimentos comprados,
Laura Moura falará de Teresina
E das boiadas e dos boiadeiros
E da polvadeira seca do Piauí.

Quando as casas baixarem de preço,
Laura Moura, prenda minha,
Uma delas será sua sem favor.
Lá fora a bulha da cidade
Disfarçará nosso prazer…
E a gente, numa rede maranhense,
Ao som dum jazz bem blue,
Balancearemos no calor da noite,
Sonhando com o sertão.


ANDRADE, Mário de. “Melodia moura”. In: Remate de males. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 418-419.

 

Esse homem que vai sozinho

 


Esse homem que vai sozinho
Por estas praças, por estas ruas,
Tem consigo um segredo enorme,
É um homem.

Essa mulher igual às outras
Por estas ruas, por estas praças,
Traz uma surpresa cruel,
É uma mulher.

A mulher encontra o homem,
Fazem ar de riso, e trocam de mão,
A surpresa e o segredo aumentam
Violentos.

Mas a sombra do insofrido
Guarda o mistério na escuridão.
A morte ronda com sua foice.
Em verdade, é noite.


ANDRADE, Mário de. “Esse homem que vai sozinho”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 497.

 

Tua imagem se apaga em certos bairros

 


Tua imagem se apaga em certos bairros,
Mas tua dor rasga nos ares,
Não me deixa dormir.

Ôh, Gilda, Oneida, Tarsila, me fechem a boca,
Tapem meus olhos e meus ouvidos,
Para que a glória do insofrido
Volte a cantar Minas Gerais!

A tua dor se dispersa nos ares,
Mas tua imagem suando ao dia inútil
Me impede até de chorar.

Eu vou-me embora, vou-me embora,
Fazer weekend em Santo Amaro,
Repartir em vãs alegrias
Meu desejo vão de esquecer!

Só isso levas, coração.


ANDRADE, Mário de. “Tua imagem se apaga em certos bairros”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 503.

 

Na rua Barão de Itapetininga

 


Na rua Barão de Itapetininga
O meu coração não sabe de si,
Não se vê moça que não seja linda,
Minha namorada não passeia aqui.

Na rua Barão de Itapetininga
Minha aspiração não aguenta mais,
A tarde caindo, a vida foi longa,
Mas a esperança já está no cais.

Na rua Barão de Itapetininga
Minha devoção quebra duma vez,
Porque a mulher que eu amo está longe,
É… a princesa do império chinês.

Na rua Barão de Itapetininga
Noite de São João qualquer mês terá,
Em mil labaredas de fogo e sangue
Bandeira ardente tremulará.

Na rua Barão de Itapetininga
Minha namorada vem passear.


ANDRADE, Mário de. “Na rua Barão de Itapetininga”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 505.

 

Beijos mais beijos

 


Beijos mais beijos,
Milhões de beijos preferidos,
Venho de amores com a minha amada,
Insaciáveis.

Rosas mais rosas,
Milhões de rosas paulistanas,
Venho de sustos com a minha amiga,
Implacáveis.

Luzes mais luzes,
Luzes perdidas na garoa,
Trago tristezas no peito vivo,
Implacáveis.

Ideais, ideais,
Ideais raivosos do insofrido,
Trago verdades novas na boca,
Insaciáveis.

Jornais, jornais,
Notícias que enchem e esvaziam,
– Me dá uma bomba sem retardamento,
Implacável!

Horas mais horas,
Rio do meu mistério esquivo,
– Me dá violetas pelos meus dedos
Insaciáveis…


ANDRADE, Mário de. “Beijos mais beijos”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 506.

 

Agora eu quero cantar

 


Agora eu quero cantar
Uma história muito triste
Que nunca ninguém cantou,
A triste história de Pedro,
Que acabou qual principiou.

Não houve acalanto. Apenas
Um guincho fraco no quarto
Alugado. O pai falou,
Enquanto a mãe se limpava:
– É Pedro. E Pedro ficou.
Ela tinha o que fazer,
Ele inda mais, e outro nome
Ali ninguém procurou,
Não pensaram em Alcibíades,
Floriscópio, Ciro, Adrasto,
Quedê tempo pra inventar!
– É Pedro. E Pedro ficou.

Pedrinho engatinhou logo
Mas muito tarde falou;
Ninguém falava com ele,
Quando chorava era surra
E aprendeu a emudecer.
Falou tarde, brincou pouco,
Em breve a mãe ajudou.
Nesse trabalho insuspeito
Passou o dia, e nem bem
A noite escura chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.

Por trás do quarto alugado
Tinha uma serra muito alta
Que Pedro nunca notou,
Mas num dia desses, não
Se sabe porque, Pedrinho
Para a serra se voltou:
– Havia de ter, decerto,
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.

Sineta que fere ouvido,
Vida nova anunciou;
Que medo ficar sozinho,
Sem pai, mesmo longínquo, sem
Mãe, mesmo ralhando, tanta
Piazada, ele sem ninguém…

Pedro foi para um cantinho,
Escondeu o olho e chorou.
Mas depois foi divertido,
Aliás prazer misturado,
Feito de comparação.
O menino roupa-nova
Pegava tudo o que a mestra
Dizia, ele não pegou!
Porque!… Mas depois de muito
Custo, a coisa melhorou.

Ele gostava era da
História Natural, os
Bichos, as plantas, os pássaros,
Tudo entrava fácil na
Cabecinha mal penteada,
Tudo Pedro decorou.
Havia de saber tudo!
Se dedicar! descobrir!
Mas já estava bem grandinho
E o pai da escola o tirou.
Ah que dia desgraçado!
E quando a noite chegou,
Como única resposta
Um sono bruto o prostrou.

Por trás da escola de Pedro
Tinha uma serra bem alta
Que o menino nunca olhou;
Logo no dia seguinte
Quando a oficina parou,

Machucado, sujo, exausto,
Pedrinho a escola rondou.
E eis que de repente, não
Se sabe porque, Pedrinho
Para a serra se voltou:
– Havia de ter por certo
Outra vida bem mais linda
Por trás da serra! pensou.

Vida que foi de trabalho,
Vida que o dia espalhou,
Adeus, bela natureza,
Adeus, bichos, adeus, flores,
Tudo o rapaz, obrigado
Pela oficina, largou.
Perdeu alguns dentes e antes,
Pouco antes de fazer quinze
Anos, na boca da máquina
Um dedo Pedro deixou.
Mas depois de mês e pico
Ao trabalho ele voltou,
E quando em frente da máquina,
Pensam que teve ódio? Não!
Pedro sentiu alegria!
A máquina era ele! a máquina
Era o que a vida lhe dava!
E Pedro tudo perdoou.

Foi pensando, foi pensando,
E pensou que mais pensou,
Teve uma ideia, veio outra,

Andou falando sozinho,
Não dormiu, fez experiência,
E um ano depois, num grito,
Louca alegria de amor,
A máquina aperfeiçoou.
O patrão veio amigável
E Pedro galardoou,
Pôs ele noutro trabalho,
Subiu um pouco o ordenado:
– Aperfeiçoe esta máquina,
Caro Pedro! e se afastou.

Era um cacareco de
Máquina! e lá, bem na frente,
Bela, puxa vida! bela,
A primeira namorada
De Pedro, nas mãos dum outro,
Bela, mais bela que nunca,
Se mexendo trabalhou
O dia inteiro. Nem bem
A noite negra chegou,
O rapaz desiludido
Um sono bruto prostrou.

Por trás da fábrica havia
Uma serra bem mais baixa
Que Pedro nunca enxergou,
Porém no dia seguinte

Chegando pra trabalhar,
Não se sabe porque, Pedro
Para a serra se voltou:
– Havia de ter, decerto,
Uma vida bem mais linda
Por trás da serra, pensou.

Ôh, segunda namorada,
Flor de abril! cabelo crespo,
Mão de princesa, corpinho
De vaca nova… Era vaca.
Aquele riso que faz
Que ri, nunca me enganou…
Caiu nos braços de quem?
Caiu nos braços de todos,
Caiu na vida e acabou.

Com a terceira namorada,
Na primeira roupa preta,
Pedro de preto casou.
E logo vieram os filhos,
Vieram doenças… Veio a vida
Que tudo, tudo aplainou.
Nada de horrível, não pensem,
Nenhuma desgraça ilustre
Nem dores maravilhosas,
Dessas que orgulham a gente,
Fazendo cegos vaidosos,

Tísicos excepcionais,
Ou formando Aleijadinhos,
Beethovens e heróis assim:
Pedro apenas trabalhou.
Ganhou mais, foi subindinho,
Um pão de terra comprou.
Um pão apenas, três quartos
E cozinha, num subúrbio
Que tudo dificultou.
Menos tempo, mais despesa,
Terra fraca, alguma pera,
Emprego lá na cidade,
Escola pra filho, ofício
Pra filho, um num choque de
Trem, inválido ficou.

– Sono! único bem da vida!…

Foi essa frase sem força,
Sem História Natural,
Sem máquina, sem patente
De invenção, que por derradeiro
Pedro na vida inventou.
E quando remoendo a frase,
A noite preta chegou,
Pedro, Pedrinho, José,
Francisco, e nunca Alcibíades,
Um sono bruto anulou.

Por trás da morada nova
Não tinha serra nenhuma,

Nem morro tinha, era um plano
Devastado e sem valor,
Mas um dia desses, sempre
Igual ao que ontem passou,
Pedro, João, Manduca, não
Se sabe porque, Antônio
Para o plano se voltou:
– Talvez houvesse, quem sabe,
Uma vida bem mais calma
Além do plano, pensou.

Havia, Pedro, era a morte,
Era a noite mais escura,
Era o grande sono imenso;
Havia, desgraçado, havia
Sim, burro, idiota, besta,
Havia sim, animal,
Bicho, escravo sem história,
Só da História Natural!…

Por trás do túmulo dele
Tinha outro túmulo… Igual.


ANDRADE, Mário de. “Agora eu quero cantar”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 513-520.

 

Entre o vidrilho das estrelas dúbias

 


Entre o vidrilho das estrelas dúbias,
Luisito, voas na guerra italiana…
És minuto e depois minuto, e inteiro
O corpo novo se retesa
Na contensão dos esforços finais.

Cada momento de tua vida é um fim final.

Dentro da luz do sol das mil cores,
Luisito, voas no teu avião de combate,
E és único. Tão só! Estás tão destinadamente abandonado
Num céu de tocaia, tecido a fogo e destruição.

Cada gesto, cada vontade tua é destruição…

Pousado na terra sem sono,
Dormes envolto num cenário insatisfeito,
E tudo o que é não é: teu lar, tuas namoradas,
Teus estudos e a promessa não cumprida.

Luisito! tens um sabor de promessa falhada!

Em pleno olho sem pálpebras dás morte,
Armado de morte, cercado de morte, amante da morte,
Voas e há somente morte em ti.
Como te fizeram antigo, Luisito, que pena!
Quando voltares, se voltares, jamais te perguntarei nada,
Jamais direi, jamais direi, ficarei mudo, mudo,
Jamais sequer me perguntarei o que sinto…

Mas como te fizeram antigo, meu Luisito!
Rajadas de sinos, rajadas de bandeiras, músicas e danças:
Tudo será esquecido na alegria,
Tudo será futuro em busca do homem novo.
Mas eu sei que em tua face não culpada
Estará inscrita a lágrima que eu choro.

Ah, que ninguém nos deixe aos dois sozinhos
Neste nosso lar familial!
Quem são os dois inimigos que se cumprimentam formalizados?
Por que escurece a sala o friúme dum rancor?
Como te fizeram antigo, meu Luisito, que pena!
Como te medalharam de passados horríveis!
Não poderei perdoar quando estiver comigo!
Não deverás perdoar pra que sejas perfeito!

A porta vai bater fechando sem adeus.
E alguém, não serei eu, não serás tu, alguém,
Alguém que se quebrou em dois irremediavelmente,
Soluçará: – Que pena…


ANDRADE, Mário de. “Entre o vidrilho das estrelas dúbias”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 527-528.

 

Nunca estará sozinho

 


Nunca estará sozinho.
A estação cinquentenária
Abre a paisagem ferroviária,
Graciano vem comigo.

Nunca estará sozinho.
É tanta luz formosa,
Tanto verde, tanto cor-de-rosa,
Anita vem comigo.

Nunca estará sozinho,
Artigas ali na Escola,
Sargentos, Yan? Me pede esmola
O rancor do inimigo.

Todo o Nordeste canta,
Zé Bento vem comigo,
Confissões na garganta,
Nunca estará sozinho.

A ponte das Bandeiras
Indaga das remotas
Zonas, imaturas zonas,
Meu sinal do Amazonas…

Nunca estará sozinho!
Nem há noite que o salve
Da angústia que o dissolve
Em amigos e inimigos.


ANDRADE, Mário de. “Nunca estará sozinho”. In: Lira paulistana. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 529-530.

 

Soneto

 


Tanta lágrima hei já, senhora minha,
Derramado dos olhos sofredores,
Que se foram com elas meus ardores
E a ânsia de amar que de teus dons me vinha.

Todo o pranto chorei. Todo o que eu tinha,
Caiu-me ao peito cheio de esplendores,
E em vez de aí formar terras melhores,
Tornou minha alma sáfara e maninha.

E foi tal o chorar por mim vertido,
E tais as dores, tantas as tristezas
Que me arrancou do peito vossa graça,

Que de muito perder, tudo hei perdido!
Não vejo mais surpresas nas surpresas
E nem chorar sei mais, por mor desgraça!


ANDRADE, Mário de. “Soneto”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 82.

 

Écloga

 

(Imitado de Alberto de Oliveira)


Tirsis, enquanto Melibeu procura
Esgarrado caprídeo, sonolento
Deita-se à sombra de pinhal e o vento
Escuta, olhando os cirros pela altura.

Chega porém das vargens Nise pura,
Que o tem preso a seus pés, e ele, sedento
De amor, mais o de sonhos lesto armento
Guarda, que esse, de capros, na planura.

Passa-lhe a ninfa ao lado. Ele então muda
O olhar para essa frol de primavera,
E diz, vendo-lhe os lábios e o regaço:

– Ai, se eu pusesse, em vez de à frauta ruda,
Minha boca na tua, não tivera
Então escuro o engenho, e o corpo lasso.


ANDRADE, Mário de. “Écloga”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 83.

 

Eterna presença

 


Este feliz desejo de abraçar-te,
Pois que tão longe tu de mim estás,
Faz com que te imagine em toda a parte
Visão, trazendo-me ventura e paz.

Vejo-te em sonho, sonho de beijar-te;
Vejo-te sombra, vou correndo atrás;
Vejo-te nua, oh branco lírio de arte,
Coroando-me a existência de rapaz…

E com ver-te e sonhar-te, esta lembrança
Geratriz, esta mágica saudade,
Dá-me a ilusão de que chegaste enfim;

Sinto alegrias de quem pede e alcança
E a enganadora força de, em verdade,
Ter-te, longe de mim, juntinho a mim.


ANDRADE, Mário de. “Eterna presença”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 97.

 

Mais burradas

 

(Tempo da Maria)


Se você se apoiasse um momento em meu peito, Maria,
Eu havia de me inclinar um pouquinho pra frente,
Sobre você meus olhos úmidos haviam de chover chuvas de brilhos,
Que nem os ramos do ingazeiro na praia curta dos corgos…

Eu não havia de falar nenhuma das palavras que hoje falo,
Na certa que minha boca estaria rindo esse riso entre-aberto,
Esse riso sem bulha nenhuma dos espantos bem-aventurados...
Maria, nas alturas muito grandes como a do Corcovado,
Quando a gente enxerga lá embaixo as cidades ao sol,
Bem se sabe que vida, que palpitação estridente anda lá...
Porém a gente não escuta nada e a cidade rebrilha esticada na luz...
Eu ficava junto de você que nem a cidade enxergada de longe no sol...
Porém você havia de sentir a bulha do meu sangue, o galope do meu pensamento,
Todo o meu ser esticando estalando na paixão, multiplicado...
Amo você com a luta-pela-vida das cidades!
Você perceberia tudo isso e havia de me olhar se dando mais…

Pois meus braços haviam de suspender o peso de você, por gosto,
Mas só por gosto não, pela fatalidade procurada,
E então seria o momento da sombra chegar...
Eu enlaçaria você de supetão no meu amor que tem a escureza da noite,
E longo, lento, brilhante, úmido, maravilhado,
Nasceria apagando tudo, devorando tudo e nos esquecendo da Terra,
O beijo desta boca apaixonada...


ANDRADE, Mário de. “Mais burradas”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 113-114.

 

Ela é como o verão…

 

(Tempo da Maria)

(1926)


Ela é como o verão, e na escureza calma dos olhos dela
Relampeiam os entusiasmos sossegados da plenitude,
Eu a vejo de pedra, bem rija, de-pé,
Dura, no perfil duro, resplandecente sobre toda a criação.

Duro, reto, com a cabeça escondida nos pés dela,
Vejo um homem de bruços, abatido no chão.
Ele esconde naqueles pés imóveis os olhos sem sono
Porém não sabe mais chorar, esturricado pela insolação.

Careço que ela não tenha um gesto de piedade,
Careço que ela não chore de misericórdia,
Que não tenha uma palavrinha de consolação.
Porque tudo voltaria em reflorescimento novo,
Eu lhe falaria novamente os nossos insultos passados,
E seria insuportável a volta da humilhação.

Ela é como o verão...
Pois que seja a magrém, uma ensolarada magrém incomparável...
Careço que tudo pare, tudo seque, tudo morra em meu verão!
Careço que ela fique de pedra, bem rija, de-pé,
Dura, no perfil duro, resplandecendo sobre toda a criação!


ANDRADE, Mário de. “Ela é como o verão”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 115.

 

Poema de amiga

 

(9 de agosto de 1929)


Teus olhos, flor de casa,
São que nem mariposas
Brincando nesta Remington.
Eu temo que um dos tipos
Batendo sobre a folha
Machuque as mariposas.

Não gosto da lembrança
Que me persegue às vezes
De algum detalhe teu;
Vejamos, flor de casa,
Teus olhos são inúteis
Para eu pensar em ti!

Os olhos que eu te penso
E com que, flor de casa,
Me podes alumiar,
São bem olhos amigos
Que viverão comigo
Sem rir e sem chorar.


ANDRADE, Mário de. “Poema de amiga”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 119.

 

Felizes

 


Em orações febris ela pedia
Que Deus pusesse um fim a seus tormentos.
À noite confiava, aos céus e aos ventos,
A mágoa de viver sem alegria.

Mas ninguém escutava tais lamentos:
Aquele a quem amava lhe sorria
Com desprezo, tornando mais sombria
A vida de suplícios incruentos.

Neste duro martírio comovente,
Um desastre da Light atinge a bela,
Que logo indenizada do acidente,

Não mais chorou, em ânsias, à janela...
É coxa, mas é rica e ele consente,
Só por piedade, em se casar com ela.


ANDRADE, Mário de. “Felizes”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 131.

 

Dez quadrinhas

 


Alma que passas ao lado,
Peito tão triste como eu,
Não bate em ti, ansiado,
O amor que responde ao meu?...

Quando tu passas ligeira,
Sozinha e alegre a cantar,
Eu que choro a vida inteira,
Eu rio em vez de chorar.

O amor deixa n’alma louca
Uma lembrança amargosa;
Caju, que é fruta gostosa
Deixa um aperto na boca.

Eu peno todas as dores
Com este amor que Deus me deu;
Quem achou os seus amores
A si mesmo se perdeu.

Amor é barquinho esguio
Surcando as águas do mar,
– O mar não é como o rio
Que é fácil de atravessar.

Fossem todas as desgraças,
Dessas que acabam com prantos,
E oh vida que vais tão lenta,
Serias cheia de encantos.

Todos olhava em solteira,
Em noiva, só o escolhido;
Hoje, casada e caseira,
Não olha nem o marido.

Menina de fita e renda
Na janela a namorar,
Não é casa posta à venda,
É casa por alugar.

Tantas dores me dominam,
Tantas mágoas tenho tido,
Que até meus risos terminam
Numa espécie de gemido.

Por trás da cerca uma estrada,
Por trás da estrada um ipê,
Por trás do ipê outra cerca,
Por trás da cerca... você.


ANDRADE, Mário de. “Dez quadrinhas”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 102-103.

 

Acalanto de descorajado

 


Amor deixa na alma louca
Uma lembrança amargosa.
Caju que é fruta gostosa
Deixa um aperto na boca.

Já tive uma outra Maria,
Uma e uma duas são.
Ambas de igual cortesia,
A outra me amando, esta não.

A outra me adorou sofrendo,
Esta eu adoro a sofrer...
Foi melhor não mais a ver...
Mas sem a ver a estou vendo!

Maria, que amo no sonho,
E que reamo acordado!
Dei todo o tempo que tenho
Pra amar e não ser amado!...

Amor é barquinho esguio
Sulcando as águas do mar...
O mar não é como o rio
Que é fácil de atravessar.


ANDRADE, Mário de. “Acalanto de descorajado”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 207-208.

 

Os teus olhos distribuem

 


Os teus olhos distribuem
o que não existe aos meus:
As luzes que os meus possuem
São as migalhas dos teus.

Quem gasta no amor vinte anos
Menos amou, na alegria,
Do que quem ama um só dia
E morre de desenganos.

Teu sorriso é um jardineiro
Meu coração é um jardim;
Saudade! imenso canteiro
Que eu trago dentro de mim.

A semente dos teus olhos
Caiu no meu coração,
Deu uma árvore de abrolhos
e deu uma fruta – a paixão.

Quis plantar uma limeira,
O vento roubou-me o grão.
Teus sorrisos, feiticeira,
Roubaram-me o coração.

Quando tu passas ligeira,
Sozinha e alegre, a cantar,
Eu, que choro a vida inteira,
Eu rio em vez de chorar.

O amor é um barquinho esguio
Sulcando as ondas do mar;
— O amor não é como o rio
Que é fácil de atravessar.

Eu já chorei muitas vezes
Sem que a lágrima brotasse:
Os meus males não são nuvens
Que se esgotem pela face.


ANDRADE, Mário de. “Os teus olhos distribuem”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 214-215.

 

VII

 

[Losango cáqui]


Meus dedos passearão, quantas vezes ainda!
no fogo benigno de teus cabelos.
Apertando-te o rosto em minhas mãos
eu te olharei, silenciosamente.
Hoje, não sei, talvez miragem,
dos teus olhos um transatlântico partiu…

Em vão odeio a simultaneidade.
O japonês da crítica voltou.
Amanhã, que será?
Um cais.
E torres de cidades estrangeiras
Grandes, quadrados armazéns
O famoso Jardim Zoológico
Auf Wiedersehen!...
Bem vês! O poeta é uma criança. Li numa revista que o “famoso Jardim Zoológico” não
existe mais,depois da guerra...
Mas é em vão que o repito!
Longamente esta ideia martela sobre mim.
Vê-lo-ei em ti, quando te olhar!
Porque desde hoje teus olhos não foram mais olhossomente.
Comecei a folhear o álbum de fotografias.
E quando ainda soluçares, afogada nos meus braços,
querida!
não serás mais do que um Bedaecker.

Já estou na seara das imagens!...
No entanto é mês outubro?...
Os cafeeiros em flor, nos seus vestidos de noivado...
Milhões de insetos a trocar alianças...
E eu na colheita!
Esta risada curta...
É que o amor, para mim, dá frutas temporãs.

Dir-se-ia que estou triste?
Por que esta lassitude?

É muito tarde já.
A terra dorme escondendo o rosto no braço peludo da noite.

Deve estar agradável nos antípodas!
Dia de muito sol.
Toda gente trabalha.
Os jornais a sair.
Haverá jornais nos antípodas?
Talvez algum poeta esteja a ver num magazine asfotografias do Jardim Zoológico…

Meu sono onde estará?
Só uma pequena angústia me responde.
Sou um telegrama recém-chegado
Assina-se o recibo estremecendo.
Hesita-se.
A ironia da gorjeta ao portador.

Se queres ser moderno
abre teu telegrama!
E a alegria?
Ora alegrias, alegrias!...
Mudar de preconceito apenas.
E a farsa continua.

Minha adorada, meu amor, não te amo mais!


ANDRADE, Mário de. “VII”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 235-237.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)
Revisão de Thais Regina Ribeiro Neves (PIBIC/UFPA)