Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Ruy Barata (1920-1990)


Marca d'água

Lá fora está o amor que nos espera

 


Esta noite como ficar prisioneiro dos teus braços,
ó aparecida amada do princípio da vida?
Como escutarei as palavras de amor que dirás enlanguecida
quando lá fora anda a grande e misteriosa noite das perdidas?

Lá fora o amor que nos espera,
lá fora está noite plena que me soube amoroso,
lá andam os companheiros que se embriagam líricos e confidentes,
lá estão as mulheres que chegaram e desapareceram sob as luzes da
cidade desconhecida.

Ó amada, quisera partir para a noite como quem caminha para o mar,
quisera partir ébrio de gozo, de emoções desconhecidas,
cantando, cantando como os boêmios embriagados,
e encher o mundo com o meu cântico de fraternidade.

Quisera partir para longe do amor que me prometes,
longe da oração que dirás transfigurada, pois Maura está perdida.
Maura, a mais dedicada das filhas do Senhor.

De novo partir romântico e transcendente,
de novo sentir a mensagem dos mundos perdidos,
do cheiro das árvores que acordarão molhadas de sereno.
De novo, ó tímido, ó louco, esperar impaciente a volta das estrelas,
com a mesma ânsia de quem espera as amantes,
com o mesmo enlevo do poeta antigo.

Ó noites distantes, ó noites misericordiosas, noites de Maura,
Olinda morta, Heloisa florindo em frente aos cutiteiros,
noites de paz, de fé, de quietude,
noites em que eu abrigava o amor de todas as mulheres.
Noites de sonho, noites de música velada,
noites de perfumes decadentes,
noites em que o amor era o mistério e o rio era a esperança.

Noites pálidas, trêmulas estrelas nos céus primaveris,
halos de luz bailando no meu corpo pela rua sonolenta da cidade feliz.
Ó, como vos anseio, em vós me vejo partindo iluminado,
os companheiros ruidosos,
os velhos adivinhando em nossos olhos os desejos,
tristes flores de uma terra nunca vista.

Noites de junho, chuvas de janeiro,
amor de Fernanda no mês de Maria,
Natal festivo, sinos das capelas,
quando eu ia transfigurado pelas velas
levar a prece ao virginal Menino.

Ó, como vos sinto mais perto e emotivas,
como vos lembro tão límpidas e claras,
e como vos desejaria agora sobre os meus olhos adormecidos
tão cheio de vós, tão ansiosos das revelações.

Ó amada, não me deixes esquecido no amor tranquilo das alcovas,
não deixes meu canto parar nas janelas fechadas
como as preces dos que vão morrer.

Eu quero a noite,
a noite calma dos passos soturnos,
a noite boêmia dos subúrbios distantes,
a noite lírica dos que não têm amantes,
a noite miserável dos cães vagabundos.


BARATA, Ruy Guilherme. “Lá fora está o amor que nos espera”.In Anjos dos Abismos. In: Anjos dos Abismos e outras linhas. Belém: Secult-PA, 2021, p. 25

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)