Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Tomás Antônio Gonzaga (1744-1810)


Marca d'água

Lyra III

 


Leu-se-me enfim a sentença
Pela desgraça firmada;
Adeus, Marília, adorada,
Vil desterro vou soffrer.
Ausente de ti Marília,
Que farei? Irei morrer.

Que vá para longes terras,
Intimarem-me eu ouvi;
E a pena que então enti,
Justos céo, não sei dizer.
Ausente de ti, Marília,
Que farei? Irei morrer.

Mil penas estou sentindo
Dentro n'alma; e por negaça
Me está dizendo a desgraça,
Que nunca mais t'hei de vêr.
Ausente de ti, Marília,
Que farei? Irei morrer.

Por deixar os pátrios lares,
Não me fere o sentimento;
Porém suspiro e lamento
Por tão cedo te perder.
Ausente de ti, Marília,
Que farei? Irei morrer.

Não são as horas que perco,
Quem motiva a minha dôr
Mas sim vêr que o meu amor
Tal fim havia de ter.
Ausente de ti, Marília,
Que farei? Irei morrer.


GONZAGA, Thomas Antonio. “Lyra III”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 142-143.

 


Marca d'água

Lyra V

 

Já, já me vai, Marília branquejando
Louro cabello que circula a testa;
Este mesmo que alveja, vai cahindo,
E pouco já me resta.

As faces vão perdendo as vivas côres
E vão-se sobre os ossos enrugando
Vai fugindo a viveza dos meus olhos;
Tudo se vai mudando.

Se quero levantar-me, as costas vergam
As forças dos meus membros já se gastam
Vou a dar pela casa uns curtos passos,
Pesam-me os pés e arrastam.

Se algum dia me vires desta sorte,
Vê que assim me não pôz a mão dos annos
Os trabalhos, Marília, os sentimentos,
Fazem os mesmos danos.

Mal te vir, me dará em poucos dias
A minha mocidade o doce gosto
Verás burnir-se a pelle, e o corpo encher-se,
Voltar a côr ao rosto.

No calmoso verão as plantas secam
Na primavera, que os mortaes encanta,
Apenas cahe do céo o fresco orvalho,
Secca logo a planta.

A doença deforma a quem padece
Mas logo que a doença faz seu termo,
Torna, Marilia, a ser quem era d'antes
O definhado enfermo.

Suppõe-me qual doente ou qual a planta,
No meio da desgraça que me altera:
Eu também te suponho qual saude,
Ou qual a primavera.

Se dão esses teus meigos, vivos olhos
Aos mesmos astros luz e vida ás flores,
Que efeitos não farão a quem por elles
Sempre morreu de amores?


GONZAGA, Thomas Antonio. “Lyra V”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 139-140.

 


Marca d'água

Lyra XXIV

 


Que diversas que são, Marília, as horas,
Que passo na masmorra imunda e feia.
Dessas horas felices já passadas
Na tua pátria aldeia!

Então eu me ajuntava com Glauceste
E á sombra de alto cédro na campina
Eu versos, te compunha, e elle os compunha
A sua cara Eulina.

Cada qual o seu canto aos ares leva
De exceder um ao outro qualquer trata;
O écho agora diz: Marília terna;
E logo: Eulina ingrata.

Deixam os mesmos satyros as grutas
Um para nós ligeiro move os passos
Ouve-nos de mai perto e faz a flauta
Co'os pés em mil pedaços.

- Dirceu, clama um pastor, ah bem merece
Da candida Marilia a formosura!
- E aonde, clama o outro, quer Eulina
Achar maior ventura?

Nem um pastor cuidava do rebanho,
Em quanto em nós durava esta porfia.
E ella, ó minha amada, só findava
Ao acabar-se o dia.

A noite te escrevia na cabana
Os versos que de tarde havia feito
Mal t'os dava e os lias, os guardavas
o casto e branco peito.

Beijando os dedos dessa mão formosa,
Banhados com as lágrimas do gôsto,
Jurava não cantar mais outras graças,
Que as graças do teu rosto.

Ainda não quebrei o juramento,
Eu agora, Marília, não as canto
Mas inda vale mais que os doces versos
A voz do triste pranto.


GONZAGA, Thomas Antonio. “Lyra XXIV”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 144-145.

 


Marca d'água

Lyra XXV

 


Por morto; Marília,
Aqui me reputo:
Mil vezes escuto
O som do arrastado
E duro grilhão
Mas ah que não treme,
Não treme de susto
O meu coração!

A chave lá sôa
Na porta segura:
Lá abre-se a escura,
Infame masmorra
Da minha prisão.
Mas ah que não treme,
Não treme de susto
O meu coração.

Já o Torres se assenta;
Carrega-me o rosto;
Do crime suposto
Com mil artifícios

Indaga a razão;
Mas ah que não treme,
Não treme de susto
O meu coração.

Eu vejo, Marília,
A mil inocentes,
Nas cruzes pendentes
Por falso delictos,
Que os homens lhes dão;
Mas ah que não treme,
Não treme de susto
O meu coração.

Se penso que posso
Perder o gozar-te,
E a gloria de dar-te
Abraços honestos,
E beijos na mão;

Marilia, já treme,
Já treme de susto
O meu coração.

Repara, Marilia,
O quanto é mais forte
Ainda que a morte,
N'um peito exforçado,
De amor a paixão;
Marilia, já treme,
Já treme de susto
O meu coração.


GONZAGA, Thomas Antonio. “Lyra XXV”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 145-146.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)