Vinicius de Moraes (1913-1980)
A brusca poesia da mulher amada
Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede
lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é
(como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo A mulher
amada é como o lago dormindo no cerro perdido Mas quem é essa
misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?
Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida
(dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos
(transfigurados...
Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.
Rio de Janeiro, 1938
MORAES, Vinicius de. “A brusca poesia da mulher amada”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 96.
A mulher que passa
A mulher que passa
Meu Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pêlos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me sacias
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quando te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?
Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida?
Para o que sofro não ser desgraça?
Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!
No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!
Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que bóia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.
MORAES, Vinicius de. “A mulher que passa”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 93.
A perdida esperança
De posse deste amor que é, no entanto, impossível
Este amor esperado e antigo como as pedras
Eu encouraçarei o meu corpo impassível
E à minha volta erguerei um alto muro de pedras.
E enquanto perdurar tua ausência, que é eterna
Por isso que és mulher, mesmo sendo só minha
Eu viverei trancado em mim como no inferno
Queimando minha carne até sua própria cinza.
Mas permanecerei imutável e austero
Certo de que, de amor, sei o que ninguém soube
Como uma estátua prisioneira de um castelo
A mirar sempre além do tempo que lhe coube.
E isento ficarei das antigas amadas
Que, pela Lua cheia, em rápidas sortidas
Ainda vêm me atirar flechas envenenadas
Para depois beber-me o sangue das feridas.
E assim serei intacto, e assim serei tranqüilo
E assim não sofrerei da angústia de revê-las
Quando, tristes e fiéis como lobas no cio
Se puserem a rondar meu castelo de estrelas.
E muito crescerei em alta melancolia
Todo o canto meu, como o de Orfeu pregresso
Será tão claro, de uma tão simples poesia
Que há de pacificar as feras do deserto.
Farto de saber ler, saberei ver nos astros
A brilharem no azul da abóbada no Oriente
E beijarei a terra, a caminhar de rastros
Quando a Lua no céu contar teu rosto ausente.
Eu te protegerei contra o Íncubo
Que te espreita por trás da Aurora acorrentada
E contra a legião dos monstros do Poente
Que te querem matar, ó impossível amada!
Paris, 1957
MORAES, Vinicius de. “A perdida esperança”.In: Poesias coligidas. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 359.
A que há de vir
A que há de vir
Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.
Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios Ela é a querida da
minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas Temerá minha cólera e se
aninhará no meu sossego Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração Ela é a minha
poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma Que ela sentia vir
porque ia ser dela e ela dele.
Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.
Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos E que será minha,
só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “A que há de vir”.In: Forma e Exegese. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 26.
Alba
Alba, no canteiro dos lírios estão caídas as pétalas de uma rosa cor de
sangue Que tristeza esta vida, minha amiga…
Lembras-te quando vínhamos na tarde roxa e eles jaziam puros E houve um
grande amor no nosso coração pela morte distante?
Ontem, Alba, sofri porque vi subitamente a nódoa rubra entre a carne pálida
(ferida
Eu vinha passando tão calmo, Alba, tão longe da angústia, tão suavizado
Quando a visão daquela flor gloriosa matando a serenidade dos lírios entrou
(em mim
E eu senti correr em meu corpo palpitações desordenadas de luxúria.
Eu sofri, minha amiga, porque aquela rosa me trouxe a lembrança do teu
sexo (que eu não via
Sob a lívida pureza da tua pele aveludada e calma Eu sofri porque de
repente senti o vento e vi que estava nu e ardente E porque era teu corpo
dormindo que existia diante de meus olhos.
Como poderias me perdoar, minha amiga, se soubesses que me aproximei
da (flor como um perdido
E a tive desfolhada entre minhas mãos nervosas e senti escorrer de mim o
sêmen da minha volúpia?
Ela está lá, Alba, sobre o canteiro dos lírios, desfeita e cor de sangue Que
destino nas coisas, minha amiga!
Lembras-te, quando eram só os lírios altos e puros?
Hoje eles continuam misteriosamente vivendo, altos e trêmulos Mas a
pureza fugiu dos lírios como o último suspiro dos moribundos Ficaram
apenas as pétalas da rosa, vivas e rubras como a tua lembrança Ficou o
vento que soprou nas minhas faces e a terra que eu segurei nas (minhas
mãos.
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “Alba”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 60.
Ariana, a mulher
Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia da montanha em
(torno
O tempo convergiu para a morte e houve uma cessação estranha seguida de
(um debruçar do instante para o outro instante Ante o meu olhar absorto o
relógio avançou e foi como se eu tivesse me (identificado a ele e estivesse
batendo soturnamente a Meia-Noite E na ordem de horror que o silêncio
fazia pulsar como um coração dentro do (ar despojado
Senti que a Natureza tinha entrado invisivelmente através das paredes e se
(plantara aos meus olhos em toda a sua fixidez noturna E que eu estava no
meio dela e à minha volta havia árvores dormindo e flores (desacordadas
pela treva.
Como que a solidão traz a presença invisível de um cadáver – e para mim
era (como se a Natureza estivesse morta
Eu aspirava a sua respiração ácida e pressentia a sua deglutição monstruosa
(mas para mim era como se ela estivesse morta Paralisada e fria,
imensamente erguida em sua sombra imóvel para o céu alto (e sem lua
E nenhum grito, nenhum sussurro de água nos rios correndo, nenhum eco
(nas quebradas ermas
Nenhum desespero nas lianas pendidas, nenhuma fome no muco aflorado
das (plantas carnívoras
Nenhuma voz, nenhum apelo da terra, nenhuma lamentação de folhas, nada.
Em vão eu atirava os braços para as orquídeas insensíveis junto aos lírios
(inermes como velhos falos
Inutilmente corria cego por entre os troncos cujas parasitas eram como a
miséria da vaidade senil dos homens
Nada se movia como se o medo tivesse matado em mim a mocidade e
gelado o (sangue capaz de acordá-los
E já o suor corria do meu corpo e as lágrimas dos meus olhos ao contato
dos (cactos esbarrados na alucinação da fuga
E a loucura dos pés parecia galgar lentamente os membros em busca do
(pensamento
Quando caí no ventre quente de uma campina de vegetação úmida e sobre a
(qual afundei minha carne.
Foi então que compreendi que só em mim havia morte e que tudo estava
(profundamente vivo
Só então vi as folhas caindo, os rios correndo, os troncos pulsando, as flores
(se erguendo
E ouvi os gemidos dos galhos tremendo, dos gineceus se abrindo, das
(borboletas noivas se finando
E tão grande foi a minha dor que angustiosamente abracei a terra como se
(quisesse fecundá-la
Mas ela me lançou fora como se não houvesse força em mim e como se ela
não
(me desejasse
E eu me vi só, nu e só, e era como se a traição tivesse me envelhecido eras.
Tristemente me brotou da alma o branco nome da Amada e eu murmurei (-
Ariana!
E sem pensar caminhei trôpego como a visão do Tempo e murmurava (–
Ariana!
E tudo em mim buscava Ariana e não havia Ariana em nenhuma parte Mas
se Ariana era a floresta, por que não havia de ser Ariana a terra?
Se Ariana era a morte, por que não havia de ser Ariana a vida?
Por que – se tudo era Ariana e só Ariana havia e nada fora de Ariana?
Baixei à terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente
(– Sou eu, Ariana...
Mas eis que um grande pássaro azul desce e canta aos meus ouvidos (– Eu
sou Ariana!
E em todo o céu ficou vibrando como um hino o muito amado nome de
Ariana.
Desesperado me ergui e bradei: Quem és que te devo procurar em toda a
parte (e estás em cada uma?
Espírito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que não serias
uma?
Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me dás uma luz e
(restas longe?
Mas nada me respondeu e eu prossegui na minha peregrinação através da
(campina
E dizia: Sei que tudo é infinito! – e o pio das aves me trazia o grito dos
sertões (desaparecidos
E as pedras do caminho me traziam os abismos e a terra seca a sede na
(fontes.
No entanto, era como se eu fosse a alimária de um anjo que me chicoteava
(– Ariana!
E eu caminhava cheio de castigo e em busca do martírio de Ariana A
branca Amada salva das águas e a quem fora prometido o trono do mundo.
Eis que galgando um monte surgiram luzes e após janelas iluminadas e após
(cabanas iluminadas
E após ruas iluminadas e após lugarejos iluminados como fogos no mato
(noturno
E grandes redes de pescar secavam às portas e se ouvia o bater das forjas.
E perguntei: Pescadores, onde está Ariana? – e eles me mostravam o peixe
Ferreiros, onde está Ariana? – e eles me mostravam o fogo Mulheres, onde
está Ariana? – e elas me mostravam o sexo.
Mas logo se ouviam gritos e danças, e gaitas tocavam e guizos batiam Eu
caminhava, e aos poucos o ruído ia se alongando à medida que eu
(penetrava na savana
No entanto era como se o canto que me chegava entoasse – Ariana!
E pensei: Talvez eu encontre Ariana na Cidade de Ouro – por que não seria
Ariana a mulher perdida?
Por que não seria Ariana a moeda em que o obreiro gravou a efígie de
César?
Por que não seria Ariana a mercadoria do Templo ou a púrpura bordada do
(altar do Templo?
E mergulhei nos subterrâneos e nas torres da Cidade de Ouro mas não
(encontrei Ariana
Às vezes indagava – e um poderoso fariseu me disse irado: – Cão de Deus,
tu (és Ariana!
E talvez porque eu fosse realmente o Cão de Deus, não compreendi a
palavra (do homem rico
Mas Ariana não era a mulher, nem a moeda, nem a mercadoria, nem a
(púrpura
E eu disse comigo: Em todo lugar menos que aqui estará Ariana E
compreendi que só onde cabia Deus cabia Ariana.
Então cantei: Ariana, chicote de Deus castigando Ariana! e disse muitas
(palavras inexistentes
E imitei a voz dos pássaros e espezinhei sobre a urtiga mas não espezinhei
(sobre a cicuta santa
Era como se um raio tivesse me ferido e corresse desatinado dentro de
minhas (entranhas
As mãos em concha, no alto dos morros ou nos vales eu gritava – Ariana!
E muitas vezes o eco ajuntava: Ariana... ana...
E os trovões desdobravam no céu a palavra – Ariana.
E como a uma ordem estranha, as serpentes saíam das tocas e comiam os
(ratos
Os porcos endemoninhados se devoravam, os cisnes tombavam cantando
nos (lagos
E os corvos e abutres caíam feridos por legiões de águias precipitadas E
misteriosamente o joio se separava do trigo nos campos desertos E os
milharais descendo os braços trituravam as formigas no solo E envenenadas
pela terra descomposta as figueiras se tornavam (profundamente secas.
Dentro em pouco todos corriam a mim, homens varões e mulheres
desposadas Umas me diziam: Meu senhor, meu filho morre! e outras eram
cegas e (paralíticas
E os homens me apontavam as plantações estorricadas e as vacas magras.
E eu dizia: Eu sou o enviado do Mal! e imediatamente as crianças morriam
E os cegos se tornavam paralíticos e os paralíticos cegos E as plantações se
tornavam pó que o vento carregava e que sufocava as vacas (magras.
Mas como quisessem me correr eu falava olhando a dor e a maceração dos
(corpos
Não temas, povo escravo! A mim me morreu a alma mais do que o filho e
me (assaltou a indiferença mais do que a lepra
A mim se fez pó e carne mais do que o trigo e se sufocou a poesia mais do
que
(a vaca magra
Mas é preciso! Para que surja a Exaltada, a branca e sereníssinia Ariana A
que é a lepra e a saúde, o pó e o trigo, a poesia e a vaca magra Ariana, a
mulher – a mãe, a filha, a esposa, a noiva, a bem-amada!
E à medida que o nome de Ariana ressoava como um grito de clarim nas
faces (paradas
As crianças se erguiam, os cegos olhavam, os paralíticos andavam
(medrosamente
E nos campos dourados ondulando ao vento, as vacas mugiam para o céu
(claro
E um só clamor saía de todos os peitos e vibrava em todos lábios – Ariana!
E uma só música se estendia sobre as terras e sobre os rios – Ariana!
E um só entendimento iluminava o pensamento dos poetas – Ariana!
Assim, coberto de bênçãos, cheguei a uma floresta e me sentei às suas
bordas (– os regatos cantavam límpidos
Tive o desejo súbito da sombra, da humildade dos galhos e do repouso das
(folhas secas
E me aprofundei na espessura funda cheia de ruídos e onde o mistério
(passava sonhando
E foi como se eu tivesse procurado e sido atendido – vi orquídeas que eram
(camas doces para a fadiga
Vi rosas selvagens cheias de orvalho, de perfume eterno e boas para matar a
(sede
E vi palmas gigantescas que eram leques para afastar o calor da carne.
Descansei – por um momento senti vertiginosamente o húmus fecundo da
(terra
A pureza e a ternura da vida nos lírios altivos como falos A liberdade das
lianas prisioneiras, a serenidade das quedas se despenhando.
E mais do que nunca o nome da Amada me veio e eu murmurei o apelo (–
Eu te amo, Ariana!
E o sono da Amada me desceu aos olhos e eles cerraram a visão de Ariana
E meu coração pôs-se a bater pausadamente doze vezes o sinal cabalístico
de (Ariana…
.................................................................................
Depois um gigantesco relógio se precisou na fixidez do sonho, tomou forma
(e se situou na minha frente, parado sobre a Meia-Noite Vi que estava só e
que era eu mesmo e reconheci velhos objetos amigos.
Mas passando sobre o rosto a mão gelada senti que chorava as puríssimas
(lágrimas de Ariana
E que o meu espírito e o meu coração eram para sempre da branca e
(sereníssima Ariana
No silêncio profundo daquela casa cheia da Montanha em torno.
Rio de Janeiro, 1936
MORAES, Vinicius de. “Ariana, a mulher”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 78.
Ausência
Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo
(da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Rio de Janeiro, 1935
MORAES, Vinicius de. “Ausência”.In: O Sentimento do Sublime. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 49.
Esperava ansioso o instante…
Esperava ansioso o instante
De defender-te de alguém
E então meu passo mais forte
Dizia: quero falar-te
E o teu, mais brando, dizia:
Se queres destruir... vem.
Eu ficava. E te seguia
Pelo deserto da praia
Até avistar a casa
Pequena e branca da esquina.
Entravas. Por um momento
Esperavas que eu passasse
Para o olhar de boa-noite
E o olhar de até-amanhã.
Uma noite... não passaste.
Esperei-te ansioso, inquieto
Mas não vieste. Por quê?
Foste embora? Procuraste
O amor de algum outro passo
Que em vez de seguir-te sempre
Andasse sempre ao teu lado?
Eu ando agora sozinho
Na praia longa e deserta
Eu ando agora sozinho
Por que fugiste? Por quê?
Ao meu passo solitário
Triste e incerto como nunca
Só responde a voz das ondas
Que se esfacelam na areia.
Branca mulher de olhos claros
Minha alma ainda te deseja
Traze ao meu passo cansado
A alegria do teu passo
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “Esperava ansioso o instante…”.In: Forma e Exegese. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 20.
Esposa
Às vezes, nessas noites frias e enevoadas
Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
Essa estranha visão de mulher calma
Surgindo do vazio dos meus olhos parados
Vem espiar minha imobilidade.
E ela fica horas longas, horas silenciosas
Somente movendo os olhos serenos no meu rosto Atenta, à espera do sono
que virá e me levará com ele.
Nada diz, nada pensa, apenas olha – e o seu olhar é como a luz De uma
estrela velada pela bruma.
Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem Mas que não
vencem o olhar perdido longe.
Nada pensa. Virá e agasalhará minhas mãos frias Se sentir frias suas mãos.
Quando a porta ranger e a cabecinha de criança Aparecer curiosa e a voz
clara chamá-la num reclamo Ela apontará para mim pondo o dedo nos
lábios Sorrindo de um sorriso misterioso
E se irá num passo leve
Após o beijo leve e roçagante...
Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente...
Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.
Rio de Janeiro, 1933
Ilha do Governador
Esse ruído dentro do mar invisível são barcos passando Esse ei-ou que ficou
nos meus ouvidos são os pescadores esquecidos Eles vêm remando sob o
peso de grandes mágoas Vêm de longe e murmurando desaparecem no
escuro quieto.
De onde chega essa voz que canta a juventude calma?
De onde sai esse som de piano antigo sonhando a "Berceuse"?
Por que vieram as grandes carroças entornando cal no barro molhado?
Os olhos de Susana eram doces mas Eli tinha seios bonitos Eu sofria junto
de Suzana – ela era a contemplação das tardes longas Eli era o beijo ardente
sobre a areia úmida.
Eu me admirava horas e horas no espelho.
Um dia mandei: "Susana, esquece-me, não sou digno de ti – sempre teu…"
Depois, eu e Eli fomos andando… – ela tremia no meu braço Eu tremia no
braço dela, os seios dela tremiam A noite tremia nos ei-ou dos pescadores…
Meus amigos se chamavam Mário e Quincas, eram humildes, não sabiam
Com eles aprendi a rachar lenha e ir buscar conchas sonoras no mar fundo
Comigo eles aprenderam a conquistar as jovens praianas tímidas e risonhas.
Eu mostrava meus sonetos aos meus amigos – eles mostravam os grandes
(olhos abertos
E gratos me traziam mangas maduras roubadas nos caminhos.
Um dia eu li Alexandre Dumas e esqueci os meus amigos.
Depois recebi um saco de mangas
Toda a afeição da ausência…
Como não lembrar essas noites cheias de mar batendo?
Como não lembrar Susana e Eli?
Como esquecer os amigos pobres?
Eles são essa memória que é sempre sofrimento Vêm da noite inquieta que
agora me cobre.
São o olhar de Clara e o beijo de Carmem
São os novos amigos, os que roubaram luz e me trouxeram.
Como esquecer isso que foi a primeira angústia Se o murmúrio do mar está
sempre nos meus ouvidos Se o barco que eu não via é a vida passando
Se o ei-ou dos pescadores é o gemido de angústia de todas as noites?
Rio de Janeiro, 1935
O poeta
O poeta
A vida do poeta tem um ritmo diferente
É um contínuo de dor angustiante.
O poeta é o destinado do sofrimento
Do sofrimento que lhe clareia a visão de beleza E a sua alma é uma parcela
do infinito distante O infinito que ninguém sonda e ninguém compreende.
Ele é o etemo errante dos caminhos
Que vai, pisando a terra e olhando o céu
Preso pelos extremos intangíveis
Clareando como um raio de sol a paisagem da vida.
O poeta tem o coração claro das aves
E a sensibilidade das crianças.
O poeta chora.
Chora de manso, com lágrimas doces, com lágrimas tristes Olhando o
espaço imenso da sua alma.
O poeta sorri.
Sorri à vida e à beleza e à amizade
Sorri com a sua mocidade a todas as mulheres que passam.
O poeta é bom.
Ele ama as mulheres castas e as mulheres impuras Sua alma as compreende
na luz e na lama
Ele é cheio de amor para as coisas da vida
E é cheio de respeito para as coisas da morte.
O poeta não teme a morte.
Seu espírito penetra a sua visão silenciosa
E a sua alma de artista possui-a cheia de um novo mistério.
A sua poesia é a razão da sua existência
Ela o faz puro e grande e nobre
E o consola da dor e o consola da angústia.
A vida do poeta tem um ritmo diferente
Ela o conduz errante pelos caminhos, pisando a terra e olhando o céu Preso,
eternamente preso pelos extremos intangíveis.
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “O poeta”.In: O Sentimento do Sublime. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 17.
Quietação”
No espaço claro e longo
O silêncio é como uma penetração de olhares calmos...
Eu sinto tudo pousado dentro da noite
E chega até mim um lamento contínuo de árvores curvas.
Como desesperados de melancolia
Uivam na estrada cães cheios de lua.
O silêncio pesado que desce
Curva todas as coisas religiosamente
E o murmúrio que sobe é como uma oração da noite…
Eu penso em ti.
Minha boca cicia longamente o teu nome
E eu busco sentir no ar o aroma morno da tua carne.
Vejo-te ainda na visão que te precisou no espaço
Ouvindo de olhos dolentes as palavras de amor que eu te dizia
Fora do tempo, fora da vida, na cessação suprema do instante
Ouvindo, junta de mim, a angústia apaixonada da minha voz
Num desfalecimento.
Pelo espaço claro e longo
Vibra a luz branca das estrelas.
Nem uma aragem, tudo parado, tudo silêncio
Tudo imensamente repousado.
E eu cheio de tristeza, sozinho, parado
Pensando em ti.
Rio de Janeiro, 1933
MORAES, Vinicius de. “Quietação”.In: O Sentimento do Sublime. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 23.
Romanza
Branca mulher de olhos claros
De olhar branco e luminoso
Que tinhas luz nas pupilas
E luz nos cabelos louros
Onde levou-te o destino
Que te afastou para longe
Da minha vista sem vida
Da minha vida sem vista?
Andavas sempre sozinha
Sem cão, sem homem, sem Deus
Eu te seguia sozinho
Sem cão, sem mulher, sem Deus
Eras a imagem de um sonho
A imagem de um sonho eu era
Ambos levando a tristeza
Dos que andam em busca do sonho.
Ias sempre, sempre andando
E eu ia sempre seguindo
Pisando na tua sombra
Vendo-a às vezes se afastar
Nem sabias quem eu era
Não te assustavam meus passos
Tu sempre andando na frente
Eu sempre atrás caminhando.
Toda a noite em minha casa
Passavas na caminhada
Eu te esperava e seguia
Na proteção do meu passo
E após o curto caminho
Da praia de ponta a ponta
Entravas na tua casa
E eu ia, na caminhada.
Eu te amei, mulher serena
Amei teu vulto distante
Amei teu passo elegante
E a tua beleza clara
Na noite que sempre vinha
Mas sempre custava tanto
Eu via a hora suprema
Das horas da minha vida.
Eu te seguia e sonhava
Sonhava que te seguia
MORAES, Vinicius de. “Romanza”.In: Forma e Exegese. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 19.
Soneto da rosa tardia
Como uma jovem rosa, a minha amada...
Morena, linda, esgalga, penumbrosa
Parece a flor colhida, ainda orvalhada
Justo no instante de tornar-se rosa.
Ah, porque não a deixas intocada
Poeta, tu que és pai, na misteriosa
Fragrância do seu ser, feito de cada
Coisa tão frágil que perfaz a rosa…
Mas (diz-me a Voz) por que deixá-la em haste
Agora que ela é rosa comovida
De ser na tua vida o que buscaste
Tão dolorosamente pela vida?
Ela é rosa, poeta... assim se chama...
Sente bem seu perfume... Ela te ama...
Rio de Janeiro, 07.1963
MORAES, Vinicius de. “Soneto da rosa tardia”.In: A lua de Montevidéu. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 323.
Soneto de carta e mensagem
Soneto de carta e mensagem
"Sim, depois de tanto tempo volto a ti
Sinto-me exausta e sou mulher e te amo
Dentro de mim há frutos, há aves, há tempestades E apenas em ti há espaço
para as consolação
"Sim, meus seios vazios me mortificam – e nas noites Eles têm ânsias de
semente que sente germinar seu broto Ah, meu amado! é sobre ti que eu me
debruço
E é como se me debruçasse sobre o infinito !
"Pesa-me, no entanto, o medo de que me tenhas esquecido Ai de mim! que
farei sem o meu homem, sem o meu esposo Que rios não me levarão de
esterilidade e de tristeza?
"Mulher, para onde caminharei senão para a sombra Se tu, oh meu
companheiro, não me fecundares E não esparzires do teu grão a terra pálida
dos lírios?..."
Rio de Janeiro, 1938
MORAES, Vinicius de. “Soneto de carta e mensagem”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 103.
Soneto de contrição
Eu te amo, Maria, eu te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.
Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.
Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calma...
E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.
Rio de Janeiro, 1938
MORAES, Vinicius de. “Soneto de contrição”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 100.
Soneto de devoção
Essa mulher que se arremessa, fria
E lúbrica aos meus braços, e nos seios
Me arrebata e me beija e balbucia
Versos, votos de amor e nomes feios.
Essa mulher, flor de melancolia
Que se ri dos meus pálidos receios
A única entre todas a quem dei
Os carinhos que nunca a outra daria.
Essa mulher que a cada amor proclama
A miséria e a grandeza de quem ama
E guarda a marca dos meus dentes nela.
Essa mulher é um mundo! – uma cadela
Talvez... – mas na moldura de uma cama
Nunca mulher nenhuma foi tão bela!
Rio de Janeiro, 1938
MORAES, Vinicius de. “Soneto de devoção”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 106.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)