Cecília Meireles (1901-1964)
Aparecimento
Os cavalos do Marajá
são de seda bruna, são de seda branca,
e estendem o pescoço com imensa doçura,
e alongam olhos humanos e límpidos,
onde se vê numa luz dourada um mundo submerso.
Os olhos dos cavalos são como rios passando.
Os criados alisavam as crinas dos cavalos
como se fossem tranças de mulheres formosas.
Batiam nos seus flancos com certo ar de cumplicidade
de quem se vai precipitar numa aventura.
Os cavalos de estrela na testa baixavam as pálpebras,
e suas pestanas eram uns toldos franjados, tendas de sombra.
Mas sacudiam as crinas, arqueavam o peito,
fremiam, contidos, expressivos,
como se quisessem falar.
MEIRELES, Cecília. “Cavalariças”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 33.
Coliseu
Cem mil pupilas houve:
— cem mil pupilas fitas na arena.
Os olhos do Imperador, dos patrícios,
dos soldados, da plebe.
Os olhos da mulher formosa que os poetas cantaram.
E os olhos da fera acossada,
do lado oposto.
Os olhos que ainda brilham fulvos,
agora, na eternidade igual de todos.
Cem mil pupilas:
— ilustres, insensatas, ferozes, melancólicas,
vagas, severas, lânguidas...
Cem mil pupilas vêem-se, na poeira da pedra deserta.
Entre corredores e escadas,
o cavo abismo do úmido subsolo
exala os soturnos prazeres da antiguidade:
um vozeiro arcaico vem saindo da sombra,
— ó duras vozes romanas! —
um quente sangue vem golfando,
— ó negro sangue das feras! —
um grande aroma cruel se arredonda nas curvas pedras.
— O surdo nome trêmulo da morte!
(Não cairão jamais estas paredes,
pregadas com este sangue e este rugido,
a garra lensa, a goela arqueada em vácuo,
as cordas do humano pasmo sobre o último estertor...)
Cem mil pupilas ficam aqui,
pregadas nas pedras do tempo,
manchadas de fogo e morte,
no fim do dia trágico,
depois daquela ávida e acesa coincidência
quando convergiram nesta arena de angústia,
que hoje é pó de silêncio,
esboroada solidão.
(As pregas dos vestidos deslizaram, frágeis.
E os sorrisos perderam-se, fúteis.
Sobre o enorme espetáculo, que foi o aroma dos cosméticos?)
MEIRELES, Cecília. “Coliseu”. In: _Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 89.
Havia, na Suíça, a linda menina
Havia, na Suíça, a linda menina
de olhos cristalinos, cabelo trançado,
na sua lojinha muito pequenina,
com prateleiras de pano encarnado,
de pano encarnado e quadriculado.
Chegavam senhores, compravam cigarros,
chegavam senhoras com muitas crianças,
paravam na loja, desciam dos carros,
— quanto chocolate! — a moça de tranças
sorria a serviço de tantas andanças.
Quem é que repara na linda menina
que embrulha e dá troco? — o povo apressado
nem vê sua loja como é pequenina,
como é seu cabelo tão fino e dourado
entre as prateleiras de pano encarnado…
De fora se pede, de dentro se entrega,
só as mãos se cruzam, como em contradanças
— a vida é uma cena apressada e cega,
com homens, mulheres, chocolates, crianças,
dinheiro, balcões, cigarros e tranças…
A vida é uma cena de vagas imagens,
com vozes e gestos para cada lado.
Ninguém vê quem parte para longas viagens,
ninguém vê quem fica num ponto parado,
não há mão nenhuma, nem rosto encantado,
nem voz, nem dinheiro, nem pano encarnado...
1953
MEIRELES, Cecília. “Havia, na Suíça, a linda menina”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 216.
Manhã de Bangalore
Auriceleste manhã com as estrelas diluídas
numa luz nova.
Um suspirar de galos através dos campos,
lá onde invisíveis cabanas acordam,
cinzentas e obscuras,
porém cheias de deuses sob os tetos de palha.
Auriceleste manhã com a brisa da montanha,
a rósea hrisa,
desenhando seus giros de libélula
no horizonte de gaze.
Deslizam bois brancos e enormes
de chifres dourados
— oscilantes cítaras
com borlas vermelhas nas pontas.
As primeiras mulheres assomam à janela do dia,
já cheias de pulseiras e campainhas,
entreabrindo seus véus como cortinas da aurora.
E o caminho vai sendo pontuado
de estrelas douradas,
aqui, ali, além,
no bojo dos vasos de cobre,
os vasos de cobre polido que elas carregam
como coroas.
Ai, frescura de rios matinais,
de panos brancos que ondulam ao sol!
Alegrias de água, sussurros de árvores.
O perfil do primeiro pássaro.
E a bela moça morena, com uma rosa na mão
e os dentes cintilantes.
MEIRELES, Cecília. “Manhã de Bangalore”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 18.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)