Lyra
Analia meiga, e formosa,
Prototypo de beleza,
É mui difícil empreza
Teus encantos memorar.
Mas eu quero ao som da Lyra
Sempre os teu dotes cantar.
Tens da fresca madrugada
A pura, doce alegria,
E tens o sorrir do dia
No de Flora ameno lar.
Feliz o mortal que póde
Sempre os teus dotes cantar!
Não brilha Diana tanto,
Nem Vênus é tão formosa:
Por ti amor faz zelosa
A mãi mil suspiros dar.
Amor, ó bella, me manda
Sempre os teus dotes cantar.
Dos teus olhos amor tira
Com que passa os corações;
Mais que os seus rijos farpões
Fazem a vida exhalar.
Quero, apezar deste risco,
Sempre os teus dotes cantar
Em teu collo, altar de amor,
Assomam mimosas piras
Nellas se frustam as iras,
Os zelos n'um leve olhar.
Ah! Quem dera á vista dellas
Sempre os teus dotes cantar!
Não dês, minha lyra, um passo
Mais descendo ... Temerário,
Vê que de amor o sacrario
Não se pode perscrutar.
Dá que eu possa, bella Analia,
Sempre os teus dotes cantar.
ALVARENGA, Manoel Ignacio da Silva. “Lyra”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 383-384.