Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Maria do Carmo D' Andrade (1859-1916)


Marca d'água

A Virgem da floresta

 


Era uma tarde formosa,
Linda nuvem cor de rosa,
Nos céus o manto estendeu!...
Tudo, tudo me encantava,
Se a natureza mostrava,
Ao poeta que seismava.
Raro dom que Deus lhe deu!...

Vi bella qual uma fada,
Do rio à margem sentada,
Mulher, feitura gentil.
Parecia uma serrana.
Tão casta como Suzana
Meu peito logo se inflama.
Por essa rosa de Abril!...

Tinha branca assetinada,
Da face a tez delicada,
Que o sol do estio não cresta,
Julguei-a um anjo descido,
D’algum céu desconhecido,
E senti-me confundido,
Pela virgem da floresta!...

Perdido de amor por ela,
Não era simples donzela,
Em minha imaginação;
De dar-lie ao menos um beijo,
Eu tive ardente desejo,
Mas tímida voz do pejo,
Censurou meu coração!...

Então chegou-me de leve,
Toquei na mãozinha breve,
Porém a virgem corou!...
Erguendo os olhos brilhantes,
Como estrelas fulgurantes,
Eu fitei-os por instantes,
Mas ela a fronte baixou!...

Eu tive pena da virgem,
Nessa ligeira vertigem,
Que enlutou seu coração...
Com esta mente incendida,
Pediu minha alma sentida,
A’ Deusa triste ofendida,
O anhelado perdão!...

Depois por ela somente.
Passei na terra descrente,
Como vive um solitário,
Entre perfumes, fragrância,
Que arnor! amei-a com ânsia!
Mas esse sonho da infância,
Talhou meu negro sudario!...

Das brancas flores da relva,
Que eu colhia sob a selva,
Coroa linda formava,
E com centelhas na mente,
Nessa impressão innocente,
Com a grinalda tremente,
A alva fronte lhe ornava!...

Assim meiga, encantadora,
Pela imagem seductora,
Jurei-lhe affecto constante,
E ella quasi sorrindo,
Uma vaidade sentindo,
Dava-me então fugindo,
Lampejos de olhar amante!

Como Adão no paraíso,
Ditoso fez-me o sorriso,
Do anjo que Deus formou!...
Que doce vida cu levava,
Quando esse amor vigorava;
Cada dia mais amava,
A Eva que me enganou!..

Um dia, na solidão,
Qual Jacob, santa visão,
Eu tive em sonho agitado,
Era um aviso do céu,
Que na escuma do escarcéu,
Surgiu do seio de Deus,
Tornou-me desventurado!

Desde então vivo maldito,
Gemendo meu peito um grito,
Que repercute no inferno;
Enlutada a branca aurora,
Matou-me a crença de outr’ora,
Proscripto me chamo agora
Cumprindo meu fado eterno.


D’ANDRADE, Maria do Carmo Sene. “A virgem da floresta”. In: O canto do cisne. Rio de Janeiro, RJ: Typographo-editor, 1880, p. 66

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)