Padre Antônio Pereira de Souza Caldas (1762-1814)
Ode sobre o amor
Não foram, caro Souza, as lyras de ouro
De Orpheo, e de Amphion, que os leões bravos,
E os indomitos tigres amansando,
As cidades fundaram.
Embora finjam mentirosos vates,
Que as torcidas raízes desprendendo
As árvores annosas, que os penedos,
Apoz elles correram,
Tú, só tu, puro amor, despir podeste
De estúpida bruteza a humana espécie;
Só tu soubeste unir em firmes laços
Os dispersos humanos.
Sem ti insociáveis viviriam,
Nas escarpadas serras, embrenhados
Ou nos sombrios verde-negros bosque
Em pasmada tristeza.
As fugitivas horas passariam,
Em languido lethargo submergidos,
Té que o pungente estímulo da fome
Lhes espantasse o somno.
Os singellos prazeres da amizade,
Prazeres suavissimus, só dados
Aos peitos generosos, e sensíveis,
Provar não poderiam.
As ciências, as artes sepultadas,
No seio da ignorância ainda jazeram
Que inerte, e frouxo a nada se atrevera
Um peito enregelado.
As bellas Marcias, as gentis Lycores,
Em vão dos vivos olhos fuzilaram
Acesos raios, com que audaz fulmina
Rebeldes esquivanças.
Suas vermelhas engraçadas bocas,
Em vão, meigos sorrisos soltariam,
Tingindo as juvenis mimosas faces
De pudibundas rosas.
Anhelantes suspiros, brandas queixas,
Ternos agrado, carinhosos gestos,
Nada mover os peitos poderia
Dos animados troncos.
Dos risos, e das graças rodeada,
Vênus com farta mão não derramára
Em seus rústicos leitos brandas flores,
Flores que tu só colhes.
O gosto de abraçar a cara esposa,
De se ver renascer nos doces filhos,
De educar cidadãos, nutrir virtudes,
Coitados! não sentiram.
Vira-se em breve, co' o volver dos anos,
Ermo de novo, o povoado mundo,
Té que do seio da fecunda terra
Outros homens brotassem.
Ah! crê-me, Souza, amor, amor, somente
A vasta natureza vivifica:
Amor nossos prazeres todos gera,
Nossos males adoça.
O soldado animoso, que se arroja
Com brio denodado a expôr a vida,
Em defensa da pátria ameaçada
De inimigas phalanges;
Depois de haver sofrido longas marchas
Por áridos sertões, por frias serras,
Arrastrando cansado os cavos bronzes
Nas pesadas carretas
Depois de ouvir. nas horridas, batalhas,
Troando a furiosa atilheria
Pelos ares silvar os ferreos globos
Que a morte envolta levam;
Depois de ver os rápidos ginetes
Atropelando os fulminados corpos.
Dos cahidos guerreiros, que em vão pedem
Vingança ou piedade,
Entre os braços da tímida donzela,
Que amor lhe prometera, prompto esquece
As passadas fadigas, os horrores
Da guerra sanguinosa,
O mísero cultor, que industrioso
Do fertil seio da benigna terra
Faz abrolhar os preciosos frutos,
Que a vida nos sustentam.
Ou já sofra no frígido janeiro
Emquanto o arado rege, os finos sopros
Com que lhe tolhe os calejados dedos
O gelado nordeste;
Ou já supporte no calmoso estio
Do abrazado Suão o ardente bafo,
Cuidoso, o louro trigo debulhando
Nas pulvereas eiras;
Apenas desenvolve o denso manto
Sobre a face da terra a noite amiga.
Se o repouso procura aos lassos membros
Na rustica morada,
Vendo a fiel consorte, que saudosa
Ao encontro lhe sahe, e o caro filho,
Que largando da mãi o doce peito
Lhe estende os tenros braços,
Em ternura suavíssimo desfeito
Que o casto amor no coração Lhe entorna,
Contente já de sua humilde sorte
Bemdiz a Providência.
Assim, ó Souza, na fiel balança,
Onde a razão os bens, e os male pesa,
Se vê que, sem amor; a vida humana
Seria insuportável.
CALDAS, Antonio Pereira de Souza. “Ode sobre o amor”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 339-343.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)