Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Padre José de Anchieta (1534-1597)


Marca d'água

Quando, no espírito santo, se recebeu uma relíquia das onze mil virgens

 


Diabo- Temos embargos, donzela,
a serdes dêste lugar.
Não me queiras agravar,
que, com espada e rodela,
vos hei de fazer voltar.

Se lá na batalha do mar
me pisastes,
quando as onze mil juntastes,
que fizestes em Deus crer,
não há agora assim de ser.
Se, então, de mim triunfastes,
hoje vos hei de vencer.

Não tenho contradição
em tôda a Capitania.
Antes, ela, sem porfia,
debaixo de minha mão
se rendeu com alegria.

Cuido que errastes a via
e o sol tomastes mal.
Tornai-vos a Portugal,
que não tendes sol nem dia,
senão a noite infernal

de pecados,
em que os homens, ensopados,
aborrecem sempre a luz.
Se lhes falardes na Cruz,
dar-vos-ão, mui agastados,
no peito, c'um arcabuz.

(Aqui dispara um arcabuz.)

Anjo- Ó peçonhento dragãoe pai de tôda a mentira,
que procuras perdição,
com mui furiosa ira,
contra a humana geração!

Tu, nesta povoação,
não tens mando nem poder,
pois todos pretendem ser,
de todo seu coração,
imigos de Lucifer.

Diabo- Ó que valentes soldados!
Agora me quero rir ! ...
Mal me podem resistü·
os que fracos, com pecados,
não fazem senão cair !

Anjo- Se caem, logo se levantam,
e outros ficam em pé.
Os quais, com armas da fé,
te resistem e te espantam,
porque Deus com êles é.

Que com excessivo
amor lhes manda suas
espôsas
- onze mil virgens formosas-,
cujo contínuo favor
dará palmas gloriosas.

E para te dar maior pena
a tua soberba inchada '
quer que seja derribada
por u'a mulher pequena.

Diabo-Ó que cruel estocada
m'atiraste
quando a mulher nomeaste!
Porque mulher me matou,
mulher meu poder tirou,
e, dando comigo ao traste,
a cabeça me quebrou.

Anjo - Pois agora essa mulher
traz consigo estas mulheres,
que nesta terra hão de ser
as que lhe alcançam poder
para vencer teus poderes.

Diabo- Ai de mim,
desventurado! (Acolhe-se
Satanás.)
Anjo-Ó traidor, aqui
jarás de pés e mãos
amarrado,
pois que perturbas a paz
dêste pueblo sossegado!

Diabo- Ó anjo, deixa-me
já, que tremo desta senhora!
Anjo- Com tanto que te vás
fora e nunca mais tornes cá.
Diabo- Ora seja na má
hora! (Indo-se, diz ao
povo :)

O, deixai-vos
descansar sôbre esta
minha promessa: eu
darei volta, depressa,
a vossas casas cercar
e quebrar-vos a cabeça!

II

Vila- Mais rica me vejo
agora que nunca dantes me vi,
pois que ter-vos mereci,
virgem mártir, por senhora.

O Senhor onipotente
me fêz grande benefício,
dando-me aquela
excelente legião da
esforçada gente
do grande mártir Maurício.

Neste dia
se dobra minha alegria
com vossa vinda,
Senhora. E, pois a
Capitania
hoje tem maior valia,
mais rica me vejo agora.

Com a perpétua
memória de vossa mui
santa vida
e ela morte esclarecida,
com que alcançastes
vitória, morrendo sem
ser vencida,

serei mais
favorecida, pois vindes
morar em mi.
Porque, tendo-vos aqui,
fico mais enriquecida
que nunca dantes me vi.

Da Senhora da Vitória,
"Vitória" sou nomeada.
E, pois sou de vós amada,
d' onze mil virgens na glória
espero ser coroada.

Por vós sou alevantada
mais do que nunca subi,
para que, subindo assi,
não seja mai derrubada,
pois que ter-vos mereci.

Meus filhos ficam
honrados em vos terem por
princesa,
porque, de sua baixeza,
por vós serão levantados
a ver a divina alteza.

Tudo temos,
pois que tendo a vós,
teremos a Deus, que
convosco mora,
e logo, des desta hora,
todos vos reconhecemos,
virgem mártir, por Senhora.
Um companheiro () de São
Mauricio vem ao caminho à
virgem, e diz:

Tôda esta Capitania,
virgem mártir gloriosa,
está cheia d' alegria,
pois recebe, neste dia,
u' a mãe tão piedosa.

Nós somos seus padroeiros,
com tôda nossa legião
dos tebanos cavaleiros,
soldados e companheiros
de Maurício Capitão.

Êle espera já por vós
e tem prestes a pousada
para, com vossa manada,
serdes, como somos nós,
dêste lugar advogada.

Úrsula- Para isso sou mandada.
E com vossa companhia,
faremos mui grossa armada,
com que seja bem guardada
a nossa capitania.

III

Ao entrar da igreja, fala São Mauricio
com São Vital (), e diz:

Maurício- Não bastam fôrças humanas,
não digo para louvar,
mas nem para bem cuidar
as mercês tão soberanas
que, com amor singular,

Deus eterno,
abrindo o peito paterno,
faz a todo êste lugar,
para que possa escapar
do bravo fogo do inferno,
e salvação alcançar.

Ditosa capitania,
que o sumo Pai e Senhor
abraça com tanto amor,
aumentando cada dia
suas graças e favor!

Vital- Ditosa, por certo, é,
se não fôr desconhecida,
ordenando sua vida
de modo que junte a fé
com caridade incendida.

Porque as mercês divinais
então são agradecidas
quando os corações leais
ordenam bem suas vidas
conforme as leis celestiais.

Maurício- Bem dizeis, irmão Vital,
e, por isso, os sabedores
dizem que obras são
amores, com que seu
peito leal
mostram os bons amadores.

Vital- E dêstes, quantos cuidais
que se acham nesta terra?
Maurício- Muitos há, se bem
olhais, que contra os vícios
mortais
andam em perpétua guerra,

e guardando, com cuidado,
a lei de seu Criador,
mostram bem o fino amor
que têm, no peito
encerrado, de Iesu, seu
Salvador.

Vital-- Êstes tais sempre terão
lembrança do benefício
de terem por seu patrão,
com tôda nossa legião,
a vós, Capitão Maurício.

Maurício- Assim têm. E,
por isso, o sumo· bem
lhes manda aquelas
senhoras onze mil
virgens, que vêm
para conosco, também,
serem suas guardadoras.

Vital- Tão gloriosas donzelas
merecem ser mui honradas.

Maurício- E conosco
agasalhadas, pois que são
virgens tão belas, de martírio
coroadas!
Recebendo a virgem, diz:

Úrsula, grande princesa,
do sumo Deus mui
amada,
boa seja a vossa entrada,
grande pastora e cabeça
de tão formosa manada!

Úrsula- Salve, grande Capitão
Maurício, ele Deus querido!
Êste povo é defendido
por vós e vossa legião
e nosso Deus mui servido.

Maurício- Sou dêle agora mandada a
ser vossa companheira.
Defensora e padroeira
desta gente tão honrada,
que segue nossa bandeira.

Nós dêles somos honrados,
êles guardados de nós.
Porque não sejamos sós,
serão agora ajudados
conosco também, de vós.

Úrsula- Se os nossos portuguêses
nos quiserem sempre honrar,
sentirão poucos reveses.
De inglêses e franceses
seguros podem estar.

Vital- Quem levantará pendão
contra seis mil cavaleiros
de nossa forte legião,
e contra o grande esquadrão
ele vossos onze milheiros?

Úrsula- Os três inimigos d' alma
começam a desmaiar.
E, pois tem êste lugar
nome de Vitória, e palma,
sempre deve triunfar.

Vitória- Isso é o que Deus quer.
Guardem êles seu mandado,
que nós teremos cuidado
de guardar e engrandecer
êste nosso povo amado.

Se quereis
aqui ficar, podereis.
Nem tendes melhor lugar
que aquêle santo altar
no qual, conosco, sereis
venerada sem cessar.

Úrsula- Seja assi !
Recolhamo-nos aí,
com nosso senhor Jesus,
por cujo amor padeci,
abraçada com a cruz
em que êle morreu por mi.
Levando-a ao altar, lhe cantam:

Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna espôsa
de Jesus, que é sumo rei.

Naquele lugar estreito
cabereis bem com Jesus,
pois êle, com sua cruz,
vos coube dentro no peito.

Ó virgem de grão respeito,
entrai ad altare Dei,
pois que sois tão digna espôsa
de Jesus, que é sumo rei.”


ANCHIETA, José de. “Quando, no espírito santo, se recebeu uma relíquia das onze mil virgens”. In: Poesias_: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p. 389-397.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)