Raul Bopp (1898-1984)
Meu Alcazar
Meu Alcazar favorito,
que eu guardo em sonhos fechado,
fica na serra, cravado
no alto de um monolito.
No meu harém inaudito
estão noventa e nove escravas.
Cada qual é uma princesa
de estranhíssima beleza
em poligâmico delito.
Rondam indolentemente...
Trocam passos na alameda,
cheias de tédio, pisando
sobre tapetes de seda.
Vem uma... Esta é a mais querida.
Seus passos lentos escuto.
Toda de preto vestida
como um poema fechado
num envelope de luto.
De olheiras, pestanas pretas,
na mágoa que o olhar trazia,
matou a flor da alegria
numa cova de violetas.
E essa que está de pijama,
pelas essências que toma,
embebedou-se de aroma
estirada numa cama.
Chega a turca alta e franzina
numa indolência otomana.
Toma um banho de piscina.
Todo o corpo se ilumina
num fulgor de porcelana.
A gente ao vê-la se enleva.
Seus olhos de estranhos brilhos
são dois pedaços de treva
presos à sombra dos cílios.
E esta, figura esguia,
guarda um olhar machucado.
No seu corpo amolentado,
a flor dos seios, rija e fria,
murcha à espera de um pecado.
De olheiras de rosa murcha,
erra os seus passos à toa.
Com seu vago olhar tristonho
parece a mãe-d’água do sonho
boiando numa lagoa.
Dei-lhe a maior das estimas
em meus desejos dispersos.
Fiz românticas baladas
emoldurando-a de rimas.
Foi a noiva dos meus versos.
Fumo. E se inicia a ronda,
como visagem que passa.
Passam as minhas princesas
tenuizadas na fumaça.
Minhas visões aparecem
misturadas com o luar.
Lá fora a lua perdida
vai caindo devagar,
como uma garça ferida
se desplumando pelo ar.
BOPP, Raul. “Meu Alcazar”.In: Versos Antigos (1916-1930). In: Poesia Completa de Raul Bopp. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2014, p. 83.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)