Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cecília Meireles (1901-1964)


Marca d'água

Golconda

 


Meu peito é mesmo Golconda:
pássaros estão colhendo
esmeraldas e diamantes
e há caçadores de ronda.

Tumbas de reis e rainhas
vão-se afundando em silêncio
no invencível pó do tempo
dono das saudades minhas.

Cada diamante guardado
é para ladrões inquietos
que partilham as centelhas
do íntegro sol cobiçado.

Ai, que meu peito é Golconda,
com raízes de esmeralda,
com cataratas de luzes
e os assaltantes de ronda.

Cristalino parapeito
da morte! Sombras do mundo,
mãos do roubo, falsos olhos,
passai. — Golconda é o meu peito.


MEIRELES, Cecilia. “Golconda”. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 38.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)