Padre José de Anchieta (1534-1537)
A santa Inês
Cordeirinha linda,
como folga o povo
porque vossa vinda
lhe dá lume novo!
Cordeirinha santa,
de Iesu querida,
vossa santa vinda
o diabo espanta.
Por isso vos canta,
com prazer, o povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Nossa culpa escura
fugirá depressa,
pois vossa cabeça
vem com luz tão pura.
Vossa formosura
honra é do povo,
porque vossa vinda
lhe dá lume novo.
Virginal cabeça
pola fé cortada,
com vossa chegada,
já ninguém pereça.
Vinde mui depressa
ajudar o povo,
pois com vossa vinda
lhe dais lume novo.
Vós sois, cordeirinho
de Iesu formoso,
mas o vosso espôso
já vos fêz rainha.
Também padeirinha
sois de nosso povo,
pois, com vossa
vinda, lhe dais
lume novo.
II
Não é d'Alentejo
êste vosso trigo,
mas Jesus amigo
é vosso desejo.
Morro porque vejo
que êste nosso povo
não anda faminto
dêste trigo novo.
Santa padeirinha,
morta com cutelo,
sem nenhum farelo
é vossa farinha.
Ela é mezinha
com que sara o
povo, que, com
vossa vinda, terá
trigo novo.
O pão que amassastes
dentro em vosso peito,
é o amor perfeito
com que a Deus
amastes Cantam:
Dêste vos fartastes
dêste dais ao povo:
porque deixe o
velho polo trigo
novo.
Não se vende em praça
êste pão de vida,
porque é comida
que se dá de graça.
Ó preciosa massa!
Ó que pão tão novo
que, com vossa vinda,
quer Deus dar ao povo!
Ó que doce bolo,
que se chama graça!
Quem sem êle passa
é mui grande tolo.
Homem sem miolo,
qualquer dêste povo,
que não é faminto
dêste pão tão novo!
II
Cantam:
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna
espôsa de Iesu, que é
sumo rei.
Debaixo do sacramento,
em forma de pão de
trigo,
vos espera, como amigo,
com grande contentamento.
Ali tendes vosso assento.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna
espôsa de Iesu, que é
sumo rei.
Naquele lugar estreito
cabereis bem com Jesus,
pois êle, com sua cruz,
vos coube dentro no peito,
Ó virgem de grão respeito.
Entrai ad altare Dei,
virgem mártir mui formosa,
pois que sois tão digna espôsa de
Iesu, que é sumo rei.”
ANCHIETA, José de. “A santa Inês”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV Centenário da Cidade, 1954. p.381-384.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)