Variante do Rio Grande
-Meu bemzinho, diga, diga,
Por tua boca confessa
Si algum dia tu tiveste
Amor que mais eu quizesse .
Mas confesso que não tive
Quem mais trabalho me desse.
«Si mais trabalho lhe dei,
Por tua mão procuraste,
Que de casa de meus paes
Bem raivosa me tiraste.
Si raivosa te tirei,
Por me vêr perseguido,
Quantas e quantas vezes
Bem me tenho arrependido !
- ·Porque te arrependes, ingrata,
Tendo eu um gênio doce?
Prouvera que eu fosse amoroso,
Não andavas tão desgostosa.
Que desgostosa vossé vive,
Vivendo d'esta sorte;
Te prometto lealdade,
Lealdade até á morte.
« Pois eu sinto e sentirei,
Sinto mil ingratidões ;
Sinto ser uma dôna
E roubada dos ladrões.
Eu dos ladrões nunca fui,
E de juro de não ser,
Enquanto viver sujeita
Debaixo de seu poder.
- Debaixo de meu poder
Foi que tiveste valia;
Que sahindo para fóra
Acabaes a fidalguia.
«Fidalguia sempre tive,
Que d'isto me hei de gabar,
Que com gente d'outra esphera
Não me hei-de misturar.
-Misturar hei-de por força,
Que isto vem de geração;
Que as meninas d’estes tempos
Não se dão à estimação.
«Estimação não se dão
Aquellas que são pobres ;
Que uma rica como eu
Só procura gente nobre.
-Gente nobre hei de por força,
Que isto vem por festejar ;
Que o peor é dar-lhe um couce,
E o melhor vem a ficar.
Já sei que queres dizer .. .
Queres dominar o meu corpo,
Isto me daes a entender.
ROMERO, Sylvio (org.). “Variante do Rio Grande”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p.130-131.