Crime na Calle Relator
“Achas que matei minha avó?
O doutor à noite me disse:
ela não passa desta noite;
melhor para ela, tranquilize-se.
À meia-noite ela acordou;
não de todo, a sede somente;
e pediu: Dáme pronto, hijita,
una poquita de aguardiente.
Eu tinha só dezesseis anos;
só, em casa com a irmã pequena:
como poder não atender
a ordem da avó de noventa?
Já vi gente ressuscitar
com simples gole de cachaça
e arrancarse por bulerías
gente da mais encorujada.
E mais: se o doutor já dissera
que da noite não passaria,
por que negar uma vontade
que a um condenado se faria?
Fui a esse bar do Pumarejo
quase esquina de San Luís;
comprei de fiado uma garrafa
de aguardente (cazalla e anis)
que lhe dei cuidadosamente
como uma poção de farmácia,
medida, como uma poção,
como não se mede a cachaça;
que lhe dei com colher de chá
como remédio de farmácia:
Hijita, bebí lo bastante,
disse com ar de comungada.
Logo então voltou a dormir
sorrindo em si como beata,
um semissorriso de gracias
aos santos óleos da garrafa.
De manhã acordou já morta,
e, embora fria e de madeira,
tinha defunta o riso ainda
que a aguardente lhe acendera.”
MELO NETO, João Cabral de. “Crime na Calle Relator”. In: Poesia Completa. Organização de Antônio Carlos Secchin. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2020, p. 812.