Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Jorge de Lima (1893-1953)

 


Marca d'água

Xangô

 


Num sujo mocambo dos "Quatro Recantos",
quibundos, cafusos, cabindas, mozamhos
mandingam xangó.
Oxum! Oxalá. Ó! Ê!

Dois feios calungas - oxala e taió rodeados de contas.
no centro o Oxum !
O xum ! Oxalá. Ô! Ê!

Caboclos, mulatos, negrinhas membrudas,
aos tombos gemendo, cantando, rodando,
mexendo os quadris e as mamas hojudas,
retumbam o tantan ...
O xum! Oxalá. Ô! Ê!

Sinhó e Sinhá num meis ou dois meis se
há de casá
Mano e mana! Credo manco !

No centro o Oxum !

Dois feios bonecos na rede bem bamba 1
Ioió e laiá !
Minhas almas
santas benditas
aquelas sao
do mesmo Senhor ;
todas duas
todas três
todas seis
e todas nove !
Santo Onofre
São Gurdim
São Pagao
Anjo Custódio
Monserrate
Amen
Oxum!

No sujo mocambo a dança batuca.
Rescende o fartum dos sangues cabindas.
Batendo com os pés, tremendo com as ancas,
volteia sem roupas
com o santo Oxum-Nila
a preta mais nova.
Oxum! Ó! Ê!

Redobram o tan-tan, incensam maconha !
Oxalá sorri ...
E a preta mais nova com as pernas tremendo,
no cramo um zum-zum,
no ventre um chamego
de cabra no cio ... Ê! Ê!

Redobram o tan-tan.
Ogum taiá-ie !
Me pega ioio !

o santo Ogum-Chila redobra o feitiço.
Oxalá sorri.
Os olhos da preta parecem dois rombos
na pele retinta.
Mas chega o momento: Xango sai do nicho
de contas redondas,
se encarna no corpo dos negros fetiches ...
A negra mais nova se espoja no chao.
Acóde o mocambo,
Xango tinha entrado no ventre bojudo,
subira pro cranio da negra mais nova.
Num canto da sala
Oxalá sorri.

Afeu Sáo Afangangá
Caculo
Pitomba
Gambá-marundú

Gttrdim
Santo Onofre
Custodio
Ogum.
Minhas almas
santas benditas
aquelas sao
do mesmo Senhor
todas duas
todas três
todas nove
o mal seja nela
São Marcos, são Manos
com o signo de Salonúio
com Ogum Chila na mão
com três cruzes no surrão
S. Cosme! S. Damwo !
Credo
Oxum-Nila
Amen.


LIMA, Jorge de. “Xangô”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 96.

 


Marca d'água

Mulher Proletária

 


Mulher proletária - única fábrica
que o operário tem, (fábrica de filhos)
tu
na tua superprodução de máquina humana
forneces anjos para o Senhor Jesus,
forneces braços para o senhor burguês.

Mulher proletária,
o operário, teu proprietário
há-de ver, há-de ver:
a tua produção,
a tua superprodução,
ao contrário das máquinas burguesas
salvar teu proprietário.


LIMA, Jorge de. “Mulher Proletária”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 203.

 


Marca d'água

Canção de Davi na Janela

 


A mulher de Urias estava tomando banho.
Eu vi a mulher de Urias.
Peitos mais belos eu nunca vi.
Quebrei a cítara, versos não faço,
eu ví a mulher de Urias,
peitos mais belos nunca hei de ver.
A mulher de Urias estava tomando banho
em frente ao meu palácio.
Queira a mulher de Urias,
Nunca vi corpo mais belo.
Quebrei a cítara, salmos nao faço,
trono não quero guerras paraí.
Só quero a mulher de Urias.
Peitos mais belos eu nunca vi.
Se oIho as nuvens, se desço à terra
vejo os dois peitos.
A mulher de Urias estava tomando banho
no riozinho que passa
em frente de meu palácio:
eu ví a mulher de Urias.
Nao sou mais poeta,
troco meu trono.
pelos dois peitos.
Se olho o mundo vejo os dois peitos.
Se olho o céu vejo os dois peitos.
Não sou mais reí, versos não faço.
Trono não quero.
Só quero a mulher de Urias.


LIMA, Jorge de. “Canção de Davi na Janela”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 307.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)