Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Vinicius de Moraes (1913-1980)


Marca d'água

A que há de vir

 


A que há de vir
Aquela que dormirá comigo todas as luas
É a desejada de minha alma.
Ela me dará o amor do seu coração
E me dará o amor da sua carne.
Ela abandonará pai, mãe, filho, esposo
E virá a mim com os peitos e virá a mim com os lábios Ela é a querida da
minha alma
Que me fará longos carinhos nos olhos
Que me beijará longos beijos nos ouvidos
Que rirá no meu pranto e rirá no meu riso.
Ela só verá minhas alegrias e minhas tristezas Temerá minha cólera e se
aninhará no meu sossego Ela abandonará filho e esposo
Abandonará o mundo e o prazer do mundo
Abandonará Deus e a Igreja de Deus
E virá a mim me olhando de olhos claros
Se oferecendo à minha posse
Rasgando o véu da nudez sem falso pudor
Cheia de uma pureza luminosa.
Ela é a amada sempre nova do meu coração
Ela ficará me olhando calada
Que ela só crerá em mim
Far-me-á a razão suprema das coisas.
Ela é a amada da minha alma triste
É a que dará o peito casto
Onde os meus lábios pousados viverão a vida do seu coração Ela é a minha
poesia e a minha mocidade
É a mulher que se guardou para o amado de sua alma. Que ela sentia vir
porque ia ser dela e ela dele.
Ela é o amor vivendo de si mesmo.
É a que dormirá comigo todas as luas
E a quem eu protegerei contra os males do mundo.
Ela é a anunciada da minha poesia
Que eu sinto vindo a mim com os lábios e com os peitos E que será minha,
só minha, como a força é do forte e a poesia é do poeta.

Rio de Janeiro, 1933


MORAES, Vinicius de. “A que há de vir”.In: Forma e Exegese. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 26.

 


Marca d'água

Ariana, a mulher

 


Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia da montanha em
(torno
O tempo convergiu para a morte e houve uma cessação estranha seguida de
(um debruçar do instante para o outro instante Ante o meu olhar absorto o
relógio avançou e foi como se eu tivesse me (identificado a ele e estivesse
batendo soturnamente a Meia-Noite E na ordem de horror que o silêncio
fazia pulsar como um coração dentro do (ar despojado
Senti que a Natureza tinha entrado invisivelmente através das paredes e se
(plantara aos meus olhos em toda a sua fixidez noturna E que eu estava no
meio dela e à minha volta havia árvores dormindo e flores (desacordadas
pela treva.
Como que a solidão traz a presença invisível de um cadáver – e para mim
era (como se a Natureza estivesse morta
Eu aspirava a sua respiração ácida e pressentia a sua deglutição monstruosa
(mas para mim era como se ela estivesse morta Paralisada e fria,
imensamente erguida em sua sombra imóvel para o céu alto (e sem lua
E nenhum grito, nenhum sussurro de água nos rios correndo, nenhum eco
(nas quebradas ermas
Nenhum desespero nas lianas pendidas, nenhuma fome no muco aflorado
das (plantas carnívoras
Nenhuma voz, nenhum apelo da terra, nenhuma lamentação de folhas, nada.
Em vão eu atirava os braços para as orquídeas insensíveis junto aos lírios
(inermes como velhos falos
Inutilmente corria cego por entre os troncos cujas parasitas eram como a
miséria da vaidade senil dos homens
Nada se movia como se o medo tivesse matado em mim a mocidade e
gelado o (sangue capaz de acordá-los
E já o suor corria do meu corpo e as lágrimas dos meus olhos ao contato
dos (cactos esbarrados na alucinação da fuga
E a loucura dos pés parecia galgar lentamente os membros em busca do
(pensamento
Quando caí no ventre quente de uma campina de vegetação úmida e sobre a
(qual afundei minha carne.
Foi então que compreendi que só em mim havia morte e que tudo estava
(profundamente vivo
Só então vi as folhas caindo, os rios correndo, os troncos pulsando, as flores
(se erguendo
E ouvi os gemidos dos galhos tremendo, dos gineceus se abrindo, das
(borboletas noivas se finando
E tão grande foi a minha dor que angustiosamente abracei a terra como se
(quisesse fecundá-la
Mas ela me lançou fora como se não houvesse força em mim e como se ela
não
(me desejasse
E eu me vi só, nu e só, e era como se a traição tivesse me envelhecido eras.
Tristemente me brotou da alma o branco nome da Amada e eu murmurei (-
Ariana!
E sem pensar caminhei trôpego como a visão do Tempo e murmurava (–
Ariana!
E tudo em mim buscava Ariana e não havia Ariana em nenhuma parte Mas
se Ariana era a floresta, por que não havia de ser Ariana a terra?
Se Ariana era a morte, por que não havia de ser Ariana a vida?
Por que – se tudo era Ariana e só Ariana havia e nada fora de Ariana?
Baixei à terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente
(– Sou eu, Ariana...
Mas eis que um grande pássaro azul desce e canta aos meus ouvidos (– Eu
sou Ariana!
E em todo o céu ficou vibrando como um hino o muito amado nome de
Ariana.
Desesperado me ergui e bradei: Quem és que te devo procurar em toda a
parte (e estás em cada uma?
Espírito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que não serias
uma?
Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me dás uma luz e
(restas longe?
Mas nada me respondeu e eu prossegui na minha peregrinação através da
(campina
E dizia: Sei que tudo é infinito! – e o pio das aves me trazia o grito dos
sertões (desaparecidos
E as pedras do caminho me traziam os abismos e a terra seca a sede na
(fontes.
No entanto, era como se eu fosse a alimária de um anjo que me chicoteava
(– Ariana!
E eu caminhava cheio de castigo e em busca do martírio de Ariana A
branca Amada salva das águas e a quem fora prometido o trono do mundo.
Eis que galgando um monte surgiram luzes e após janelas iluminadas e após
(cabanas iluminadas
E após ruas iluminadas e após lugarejos iluminados como fogos no mato
(noturno
E grandes redes de pescar secavam às portas e se ouvia o bater das forjas.
E perguntei: Pescadores, onde está Ariana? – e eles me mostravam o peixe
Ferreiros, onde está Ariana? – e eles me mostravam o fogo Mulheres, onde
está Ariana? – e elas me mostravam o sexo.
Mas logo se ouviam gritos e danças, e gaitas tocavam e guizos batiam Eu
caminhava, e aos poucos o ruído ia se alongando à medida que eu
(penetrava na savana
No entanto era como se o canto que me chegava entoasse – Ariana!
E pensei: Talvez eu encontre Ariana na Cidade de Ouro – por que não seria
Ariana a mulher perdida?
Por que não seria Ariana a moeda em que o obreiro gravou a efígie de
César?
Por que não seria Ariana a mercadoria do Templo ou a púrpura bordada do
(altar do Templo?
E mergulhei nos subterrâneos e nas torres da Cidade de Ouro mas não
(encontrei Ariana
Às vezes indagava – e um poderoso fariseu me disse irado: – Cão de Deus,
tu (és Ariana!
E talvez porque eu fosse realmente o Cão de Deus, não compreendi a
palavra (do homem rico
Mas Ariana não era a mulher, nem a moeda, nem a mercadoria, nem a
(púrpura
E eu disse comigo: Em todo lugar menos que aqui estará Ariana E
compreendi que só onde cabia Deus cabia Ariana.
Então cantei: Ariana, chicote de Deus castigando Ariana! e disse muitas
(palavras inexistentes
E imitei a voz dos pássaros e espezinhei sobre a urtiga mas não espezinhei
(sobre a cicuta santa
Era como se um raio tivesse me ferido e corresse desatinado dentro de
minhas (entranhas
As mãos em concha, no alto dos morros ou nos vales eu gritava – Ariana!
E muitas vezes o eco ajuntava: Ariana... ana...
E os trovões desdobravam no céu a palavra – Ariana.
E como a uma ordem estranha, as serpentes saíam das tocas e comiam os
(ratos
Os porcos endemoninhados se devoravam, os cisnes tombavam cantando
nos (lagos
E os corvos e abutres caíam feridos por legiões de águias precipitadas E
misteriosamente o joio se separava do trigo nos campos desertos E os
milharais descendo os braços trituravam as formigas no solo E envenenadas
pela terra descomposta as figueiras se tornavam (profundamente secas.
Dentro em pouco todos corriam a mim, homens varões e mulheres
desposadas Umas me diziam: Meu senhor, meu filho morre! e outras eram
cegas e (paralíticas
E os homens me apontavam as plantações estorricadas e as vacas magras.
E eu dizia: Eu sou o enviado do Mal! e imediatamente as crianças morriam
E os cegos se tornavam paralíticos e os paralíticos cegos E as plantações se
tornavam pó que o vento carregava e que sufocava as vacas (magras.
Mas como quisessem me correr eu falava olhando a dor e a maceração dos
(corpos
Não temas, povo escravo! A mim me morreu a alma mais do que o filho e
me (assaltou a indiferença mais do que a lepra
A mim se fez pó e carne mais do que o trigo e se sufocou a poesia mais do
que
(a vaca magra
Mas é preciso! Para que surja a Exaltada, a branca e sereníssinia Ariana A
que é a lepra e a saúde, o pó e o trigo, a poesia e a vaca magra Ariana, a
mulher – a mãe, a filha, a esposa, a noiva, a bem-amada!
E à medida que o nome de Ariana ressoava como um grito de clarim nas
faces (paradas
As crianças se erguiam, os cegos olhavam, os paralíticos andavam
(medrosamente
E nos campos dourados ondulando ao vento, as vacas mugiam para o céu
(claro
E um só clamor saía de todos os peitos e vibrava em todos lábios – Ariana!
E uma só música se estendia sobre as terras e sobre os rios – Ariana!
E um só entendimento iluminava o pensamento dos poetas – Ariana!
Assim, coberto de bênçãos, cheguei a uma floresta e me sentei às suas
bordas (– os regatos cantavam límpidos
Tive o desejo súbito da sombra, da humildade dos galhos e do repouso das
(folhas secas
E me aprofundei na espessura funda cheia de ruídos e onde o mistério
(passava sonhando
E foi como se eu tivesse procurado e sido atendido – vi orquídeas que eram
(camas doces para a fadiga
Vi rosas selvagens cheias de orvalho, de perfume eterno e boas para matar a
(sede
E vi palmas gigantescas que eram leques para afastar o calor da carne.
Descansei – por um momento senti vertiginosamente o húmus fecundo da
(terra
A pureza e a ternura da vida nos lírios altivos como falos A liberdade das
lianas prisioneiras, a serenidade das quedas se despenhando.
E mais do que nunca o nome da Amada me veio e eu murmurei o apelo (–
Eu te amo, Ariana!
E o sono da Amada me desceu aos olhos e eles cerraram a visão de Ariana
E meu coração pôs-se a bater pausadamente doze vezes o sinal cabalístico
de (Ariana…
.................................................................................

Depois um gigantesco relógio se precisou na fixidez do sonho, tomou forma
(e se situou na minha frente, parado sobre a Meia-Noite Vi que estava só e
que era eu mesmo e reconheci velhos objetos amigos.
Mas passando sobre o rosto a mão gelada senti que chorava as puríssimas
(lágrimas de Ariana
E que o meu espírito e o meu coração eram para sempre da branca e
(sereníssima Ariana
No silêncio profundo daquela casa cheia da Montanha em torno.

Rio de Janeiro, 1936


MORAES, Vinicius de. “Ariana, a mulher”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 78.

 


Marca d'água

Esposa

 


Às vezes, nessas noites frias e enevoadas
Onde o silêncio nasce dos ruídos monótonos e mansos
Essa estranha visão de mulher calma
Surgindo do vazio dos meus olhos parados
Vem espiar minha imobilidade.
E ela fica horas longas, horas silenciosas
Somente movendo os olhos serenos no meu rosto Atenta, à espera do sono
que virá e me levará com ele.
Nada diz, nada pensa, apenas olha – e o seu olhar é como a luz De uma
estrela velada pela bruma.
Nada diz. Olha apenas as minhas pálpebras que descem Mas que não
vencem o olhar perdido longe.
Nada pensa. Virá e agasalhará minhas mãos frias Se sentir frias suas mãos.
Quando a porta ranger e a cabecinha de criança Aparecer curiosa e a voz
clara chamá-la num reclamo Ela apontará para mim pondo o dedo nos
lábios Sorrindo de um sorriso misterioso
E se irá num passo leve
Após o beijo leve e roçagante...
Eu só verei a porta que se vai fechando brandamente...
Ela terá ido, a esposa amiga, a esposa que eu nunca terei.
Rio de Janeiro, 1933


MORAES, Vinicius de. “Esposa”.In: O Sentimento do Sublime. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 24

 


Marca d'água

O Camelô do amor

 


O Amor tonifica o cabelo das mulheres
Torna-o vivo e dá-lhe um brilho natural.
Ondulações permanentes? só das do amor. Amai!
Nada melhor que o Amor para as moléstias do couro cabeludo.

O Amor ilumina os olhos das mulheres
Olhos sem cor? Amor! Olhos injetados?
Colírio lágrimas de Amor! Amai mulheres!
O Amor branqueia a córnea, acende a íris, dilata as pupilas cansadas.

O Amor limpa de rugas a fronte das mulheres
Para pés-de-galinha, beijos de Amor. Tende sempre em mente:
O Amor coroa as mulheres de pesados diademas invisíveis
Amai mulheres! A mulher que ama move-se dignamente.

O Amor heleniza o nariz das mulheres
Quando não dá-lhes delicados riques, particularmente nas asas.
Narizes gordurosos, com propensão a cravos, acnes ou espinhas?
Amai, mulheres! esfregando de leve os narizes de encontro ao nariz amado.

Amor horizontal é melhor e não faz mal. Bocas plenas rosadas palpitantes?
Beijos de Amor constantes! mantêm-nas bem lubrificadas.
Se quereis conservar aceso o ardor dos que vos amam
Beijai, mulheres! doce, triste, alegre, violentamente apaixonadas.

Nem Ardens, nem Rubinsteins: morte às pomadas!
Pomadas, cremes, só de amor, amadas!
Pele jovem e macia? amai se possível todo o dia
E ante o esplendor de vossas peles há de ruborizar-se a madrugada.

O Amor estimula extraordinariamente a higiene bucalOs amorosos lavam-se os dentes, dão-se massagens nas gengivas, limpam-se
(as línguas com água e sal
Que é, como todos sabem, o composto químico da saliva
Que conseqüentemente se ativa impedindo a halitose e tornando a carícia
(palatal.


Não sabe aquela que só compra Lifebuoy?
Perdeu o marido e nunca soube como foi.
Sim, lavai-o debaixo de vossas asas, ó anjos, mas nada de exagero:
Uma axila sem cheiro pode levar um homem ao desespero.

Basta de pastas: ó tu que transportas o leite contigo
Bom até a última gota! sou teu amigo ouve o que te digo;
Se amares o sangue funcionará melhor em tuas glândulas mamares
E terás seios autodidatas firmes objetivos singulares.

Chega de plásticas cirúrgicas, radioterapias e outras perfumarias
Vivei e amai ao sol: para aquele que vos ama vossos defeitos são poesia
Nada mais lindo que a feiúra da mulher amada.
Por isso eu sempre digo: qual regulador qual nada!

Regulador? besteira! Amai, mulheres. A verdadeira
Saúde da mulher está em ser boa companheira
Dê e tome, tome e mate, e mate de Amor. A mulher que se preza
Sabe sorrir. Conserve o seu sorriso. Valha o quanto pesa.

Se é de Amor, é bom. Eu sempre digo, e faço figa
Do que me diga não ser melhor que óleo de fígado.
Pois além de excitar o metabolismo basal
Para o simpático é o tônico ideal.
Eis o seu mal, não amar. Daí, decerto, a causa
Dessas palpitações, enxaquecas e náuseas...
O espetáculo começa quando a senhora chega. Espere um instante por favor
E repita comigo, bem devagar: A-M-O-R.

Los Angeles, 20.11.1946


MORAES, Vinicius de. “O Camelô do amor”.In: Poesias coligidas. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 354.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)