Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Oswald de Andrade (1890-1954)

 


Marca d'água

Poemas da Colonização

 


a transação

O fazendeiro criara filhos
Escravos escravas
Nos terreiros de pitangas e jabuticabas
Mas um dia trocou
O ouro da carne preta e musculosa
As gabirobas e os coqueiros
Os monjolos e os bois
Por terras imaginárias
Onde nasceria a lavoura verde do café

fazenda antiga

O Narciso marceneiro
Que sabia fazer moinhos e mesas
E mais o Casimiro da cozinha
Que aprendera no Rio
E o Ambrósio. que atacou Seu Jura de faca
E suicidou-se
As dezenove pretinhas grávidas

negro fugido

O Jerônimo estava numa outra fazenda
Socando pilão na cozinha
Entraram
Grudaram nele
O pilão tombou
Ele tropeçou
E caiu
Montaram nele

o recruta

O noivo da moça
Foi para a guerra
E prometeu se morresse
Vir escutar ela tocar piano
Mas ficou para sempre no Paraguai

caso

A mulatinha morreu
E apareceu
Berrando no moinho
Socando pilão

o gramático

Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou

o medroso

A assombração apagou a candeia
Depois no escuro veio com a mão
Pertinho dele
Ver se o coração ainda batia

cena

O canivete voou
E o negro comprado na cadeia

Estatelou de costas
E bateu coa cabeça na pedra

o capoeira

— Qué apanbá sordado?
— O quê?
— Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada

medo da senhora

A escrava pegou a filhinha nascida
Nas costas
E se atirou no Paraíba
Para que a criança não fosse judiada

levante

Contam que houve uma porção de enforcados
E as caveiras espetadas nos postes
Da fazenda desabitada
Miavam de noite
No vento do mato

a roça

Os cem negros da fazenda
comiam feijão e angu
Abóbora chicória e cambuquira
Pegavam uma roda de carro
Nos braços

azorrague

-- Chegai Peredoa !
Amarrados na escada
A chibata preparava os cortes
Para a salmoura

relicário

No baile da Corte
Foi o Conde d*Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Sumi
Pinga de Parati
Fumo de Baependi
É come bebê pitá e caí

senhor feudal

Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia


ANDRADE, Oswald de. “Poemas da Colonização”. In: Pau Brasil. In: Obras completas por Oswald de Andrade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1971-11.v, p. 92.

 


Marca d'água

Maturidade

 


O Sr. e a Sra. Amadeu
Participam a V. Exa.
O feliz nascimento
De sua filha
Gilberta


ANDRADE, Oswald de. “Maturidade”. In: Primeiro caderno do alumno de Poesia Oswald de Andrade. In: Obras completas por Oswald de Andrade. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1971-11.v. 7, p. 161.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)