Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Padre José de Anchieta (1534-1597)


Marca d'água

O pelote domingueiro

 

Já furtaram o moleiro
o pelote domingueiro.

Se lho furtaram ou não,
bem nos pêsa a nós com isso!
Perdeu-se, com muito viço, o pobre moleiro Adão.
Lucifer, um mau
ladrão, lhe roubou todo
o dinheiro, co' o pelote
domingueiro!

Sem ter dêle compaixão,
lhe furtaram o pelote.
Des que o viram sem
capote, não curaram
dêle, não.
Chora agora, com
razão, o coitado do
moleiro,
sem pelote domingueiro!

Êle, deram-lho de graça,
porque "Graça" se
chamava e com êle
passeava,
mui galante, pela praça.
Mas furtaram-lhe, à
ramaça, ao pobre do
moleiro,
o pelote domingueiro.

Era homem muito honrado,
quando logo lho vestiram.
Mas depois que lho
despiram, ficou vil e
desprezado.
Ó que sêda ! E que
brocado perdeste, pobre
moleiro, em perder teu
domingueiro!

Se quiseras moer trigo
do divino
mandamento,
dentro ao teu
entendimento não
passaras tal perigo.
Pois quiseste ser amigo
de ladrão tão sorrateiro,
andarás sem domingueiro.

Mui formoso trigo tinha,
que era a humana natureza,
mas moeu-o tão
depressa, que fêz muito
má farinha.
E por isso, tão azinha
apanharam ao moleiro
seu pelote domingueiro.

Era u'a peça, a mais fina
de tôdas quantas tivera.
S'êle bem o defendera,
não jogaram de rapina.
A cobra ladra e malina,
com inveja do moleiro,
apanhou-lhe o domingueiro.

Tinha um monte de botões
em o quarto dianteiro,
que lhe deram sem
dinheiro, que são os
divinos dões.
Por menos de dois tostões,
foi o parvo do moleiro
a vender tal domingueiro!

Era feito de tal sorte
que tôda a casa vestia.
Em nenhum modo podia
furtar-se, senão por morte.
Foi morrer embora forte pecando,
o pobre moleiro,
e ficou sem domingueiro.

Os pobretes cachopinhos
ficaram mortos de frio,
quando o pai, com desvario,
deu na lama de focinho
Cercou todos os caminhos
o ladrão, com seu bicheiro,
e rapou-lhe o domingueiro.

A mulher que lhe foi dada,
cuidando furtar maquias,
com debates e porfias
foi da graça maquiada.
Ela nua e esbulhada,
fêz furtar ao moleiro
o seu rico domingueiro.

Tôda bêbada do vinho
da soberba, que tomou,
o moleiro derrubou
no limiar do moinho.
Acudiu o seu vizinho
Satanás, muito matreiro,
e rapou-lhe o domingueiro.

Êle muito namorado
da soberba e inchação,
cuidou ter melhor gabão
e ser tido por letrado.
Mas achou-se salteado
o mofino elo moleiro,
sem pelote domingueiro.

Pareceu-lhe mui galante
a cachopa embonecada
e que em ser sua namorada,
seria a Deus semelhante.
Seu pai se lhe pôs diante
e, sem dote e sem dinheiro,
lhe rapou seu domingueiro.

Parvo, por que te perdias
por tão feia regateira?
Cuidavas que era moleira,
que furtava bem maquias?
Não houveste o que querias,
com ficar, por derradeiro,
sem teu rico domingueiro.

Sua falsa gentileza
convidava-te a subir.
Tu quiseste consentir
e trepar muito depressa.
Deram-te pela cabeça
com um trocho de
salgueiro ...
E perdeste o domingueiro.

Quanto mais para ela olhavas,
parecia-te melhor,
e perdido por seu amor,
de ninguém te precatavas.
À porta, por onde entravas,
te esperou seu companheiro,
que rapou teu domingueiro.

Êle soube-se ajudar
da mulher, tua parceira,
e fêz dela alcoviteira,
para em breve te enganar.
Tu, sem mais considerar,
lhe creste, parvo moleiro,
e perdeste o domingueiro.

Negros foram teus amores
pois tão negro te deixaram
e o pelote te levaram
sem te dar nenhuns penhôres
senão fadigas e dôres,
que terás, triste moleiro,
pois perdeste o domingueiro.

Maochas qual ficaria
o moleiro desastrado,
sem pelote tão honrado,
que tanto preço valia,
como é certo que diria:
"Que farás, ora, moleiro,
sem pelote domingueiro?"

O pelote foi-lhe dado
para o domingo somente,
com que vivesse contente,
sem fadiga e sem cuidado.
Agora, mui trabalhado,
geme o triste do moleiro
sem pelote domingueiro.

Com o pelote faltar,
cessarão tôdas as festas.
Foi contado com as bestas,
para sempre trabalhar.
S'isto bem quisera olhar,
o coitado do moleiro
não perdera o domingueiro.

Êle como se viu tal,
escondeu-se de seu amo,
encobrindo-se c'um ramo
debaixo d'um figueiral,
porque o ladrão infernal,
nos ramos d'um macieiro
lhe rapou seu domingueiro.

Seu amo foi espancá-lo
com a raiva que houve dêle,
e coberto com u'a pele,
fora de casa lançá-lo.
Não quis de todo matá-lo,
esperando que o moleiro
cobraria o domingueiro.

Já tornaram ao moleiro
o pelote domingueiro.

O diabo lhe furtou
o pelote por enganos.
Mas, depois de muitos anos,
um seu neto lho tornou.
Por isso, carne tomou
de uma filha do moleiro,
por pelote domingueiro.

Por querer ser mais subido,
não fêz conta do pelote.
O seu neto, sem capote,
Jaz nas palhas, encolhido,
para ser restituído
ao pobre do moleiro
seu pelote domingueiro.

Quais vestido aparecer
em pelote de somana,
porque vem, com carne humana,
a trabalhos padecer
e no feno se envolver,
para tornar ao moleiro
seu pelote domingueiro.

Êle, por se desmandar,
do pelote foi roubado.
O neto, d' além mandado,
vem o furto restaurar.
Há-se de circuncidar
porque é neto do moleiro,
por tornar-lhe o domingueiro.

Ditoso fôste em achar,
pobre moleiro, tal filha,
que com nova maravilha
tal neto te foi gerar,
que do pano do tear
de tua filha, moleiro,
te tornou teu domingueiro.

Ó que boa tecedeira,
que tão fino pano urdiu,
com que a culpa se cobriu
do moleiro e da moleira!
Com ficar a tela inteira,
fêz que ao pobre do moleiro
se tornasse o domingueiro.

Esta soube bem moer
o trigo celestial,
em seu peito virginal,
ao tempo do conceber,
escolhendo escrava ser,
por que ao soberbo moleiro
se tornasse o domingueiro.

Para o saio ser perdido,
a mulher foi medianeira.
Mulher foi também terceira,
para ser restituído.
Fica agora enobrecido
o ditoso do moleiro
com tão rico domingueiro

De graça lhe foi tornado,
mas custou muito dinheiro
ao neto, que foi terceiro,
para ser desempenhado.
Foi mui caro resgatado
(ditoso de ti, moleiro!)
teu pelote domingueiro.

Trinta e três anos andou,
sem temer nenhum perigo,
moendo-se como trigo,
até que o desempenhou.
Com seu sangue, resgatou
para o pobre do moleiro,
o pelote domingueiro.

É-vos êle debruado
com sêda de muitas côres,
que são os golpes e dôres
com que agora foi comprado.
Fica muito mais honrado
que dantes, o atafoneiro,
com tão fino domingueiro.

Se tinha muitos botões
o saio, na dianteira,
tem agora, na traseira,
mais de cinco mil cordões
-os açoites e vergões
com que o neto do moleiro
fêz tornar o domingueiro.

Traz cinco botões somente,
mais formosos que os primeiros,
que são os cinco agulheiros,
que fêz a maldita gente
em o corpo do inocente,
para tornar-se ao moleiro
tão galante domingueiro.

Moleiro bem escançado,
que tal ventura tiveste
(pois o saio, que perdeste,
de graça te foi tornado),
se não fôra o enforcado,
puderas dizer, moleiro:
"Fogo viste, domingueiro".

Nem te bastara poupar
as maquias do moinho,
nem deixar de beber vinho,
nem seis meses jejuar,
para poder ajuntar
tanta soma de dinheiro,
que comprasses domingueiro.

Nem bastaram petições
em que foram bem compostas,
nem que levaras às costas,
muitos sacos d'aflições.
Só as dôres e orações
dêste teu neto, moleiro,
ganharam o domingueiro.

A êle foi concedido
e por isso nu nasceu,
e depois, quando cresceu,
foi de púrpura vestido
e na cruz todo moído,
porque tu, pobre moleiro,
cobrasses teu domingueiro.

Já'gora podes sair
com pelote damascado,
d' alt' a baixo pespontado,
que a todos pode cobrir.
Já podes bailar e rir
e dar voltas em terreiro,
com tão fresco domingueiro.

Bem podes sempre trazê-lo
em domingo e dia santo,
e em somana, sem quebranto
que t'hajam ele dar por êlo,
bem cingido com ourela.
De justiça, bom moleiro,
guardarás teu domingueiro.

As moças já podem ter
amores de teu pelote,
e vestir-se tal chiote,
se formosas querem ser.
Já podem tôdas dizer:
"Viva o neto do moleiro,
que nos deu tal domingueiro!

Viva o segundo Adão,
que "Jesus" por nome tem!
Viva Jesus, nosso bem,
Jesus, nosso capitão!
Hoje, na circuncisão,
se tornou Jesus moleiro
por tornar o domingueiro.”

 

ANCHIETA, José de. “ O pelote domingueiro”. In: Poesias: manuscrito do século XVI, em português, castelhano, latim e  tupi. Transcrições, trad. e notas M. de L. de Paula Martins. São Paulo: Comissão do IV  Centenário da Cidade, 1954. p. 399-408.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC-UFPA)