Mário de Andrade (1893-1945)
Tu
Morrente chama esgalga,
mais morta inda no espírito!
Espírito de fidalga,
que vive dum bocejo entre dois galanteios
e de longe em longe uma chávena da treva bem forte
Mulher mais longa
que os pasmos alucinados
das torres de São Bento!
Mulher feita de asfalto e de lamas de várzea,
toda insultos nos olhos,
toda convites nessa boca louca de rubores!
Costureirinha de São Paulo,
italo-franco-luso-brasílico-saxonica,
gosto dos teus ardores crepusculares,
crepusculares e por isso mais ardentes,
bandeirantemente!
Lady Macbeth feita de névoa fina,
pura neblina da manhã!
Mulher que és minha madrasta e minha irmã!
Trituração ascencional dos meus sentidos!
Risco de aeroplano entre Moji e Paris!
Pura neblina da manhã!
Gosto dos teus desejos de crime turco
e das tuas ambições retorcidas como roubos!
Amo-te de pesadelos taciturnos,
Materialização da Canaã do meu Poe!
Never more!
Emílio de Menezes insultou a memória do meu Poe....
Oh! Incendiária dos meus aléns sonoros!
tu és o meu gato preto!
Tu te esmagaste nas paredes do meu sonho!
este sonho medonho!...
E serás sempre, morrente chama esgalga,
meio fidalga, meio barregă,
as alucinações crucificantes
de todas as auroras de meu jardim!
ANDRADE, Mário de. “Tu”. In: Pauliceia desvairada. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 1, p. 102-103.
Burradas
(Tempos da Maria)
(1926)
Porém nunca eu aceitaria
Arranjos como o de Musset…
Eu pisaria sobre minha mãe e minha irmã desonradas,
Como ela passaria junto dos filhos
Sem mesmo se rir pra esses desconhecidos chorando…
Olharíamos conscientes a raiva dos homens,
O desespero invejoso dos homens não nos atingiria mais,
E vivendo junto de tudo, na solidão mais formidável,
Com cinismo guaçu, com cinismo de heroísmo,
Nós realizaríamos o amor.
Nos insultariam com todos os aviltamentos menos um,
Ninguém nos chamaria de covardes,
Porque seríamos os seres mais desinfelizes que vida criou,
Porém nós realizaríamos o amor!
Não teríamos um risinho sequer na boca ardendo,
Em nosso êxtase não avoaria um passarinho de alegria,
Uma aragem de prazer não brisaria em nosso encantoinconcebível,
Nem uma gota de gozo orvalharia nossa vertigem sublime,
Porque nós somos como o verão do Brasil...
Seríamos a magrém, uma ensolarada magrém incomparável,
Seríamos amantes e serenos, e seríamos severamente castos,
Porém nós realizaríamos o amor!...
Libertos da Terra, dos homens e das virtudes dos homens,
Libertos da felicidade e das infelicidades conhecidas,
Livres! livres de tudo e esquecidos de Deus, Senhor nosso,
Nós não seríamos mais livres!
Não teríamos a liberdade de aceitar um sacrifício,
Não teríamos a liberdade de nos agasalharmos na dor,
Diabos fatalizados pelo sol de verão que alumia edecreta a verdade das coisas,
Nós não seríamos mais livres!...
Porém nós realizaríamos o nosso amor!
ANDRADE, Mário de. “Burradas”. In: Poesia inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 111-112.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)
Revisão de Thais Regina Ribeiro Neves (PIBIC/UFPA)