Augustos dos Anjos (1884-1914)
Ricordanza della mia gioventú
A minha ama de leite, Guilhermina
Furtava as moedas que o Doutor me dava.
Sinhá-Mocinha, minha Mãe, ralhava . . .
Via naquilo a minha própria ruína!
Minha ama, então, hipócrita, afetava
Susceptibilidades de menina:
— Não, não fôra ella! — » E maldizia a sina,
Que ela absolutamente não furtava.
Vejo, entretanto, agora, em minha cama,
Que a mim somente cabe o furto feito.
Tu só furtaste a moeda, o ouro que brilha
Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,
Eu furtei mais, porque furtei o peito
Que dava leite para a tua filha!
ANJOS, Augusto dos. “Ricordanza della mia gioventú”. In: Eu (Poesias Completas). Paraíba do Norte - PB: SCP, 1920, p. 133.
Mater
Como a chrysalida emergindo do ovo
Para que o campo flórido a concentre,
Assim, oh! Mãe, sujo de sangue, um novo
Ser, entre dores, te emergiu do ventre !
E puseste-lhe, haurindo amplo deleite,
No lábio róseo a grande teta farta
—Fecunda fonte desse mesmo leite
Que amamentou os éphebos de Sparta.
Com que avidez ele essa fonte suga!
Ninguém mais com a Beleza está de acordo,
Do que essa pequenina sanguessuga,
Bebendo a vida no teu seio gordo!
Pois, quanto a mim, sem pretensões, comparo,
Essas humanas coisas pequeninas
A um biscuit de quilate muito raro
Exposto ahi, à amostra, nas vitrinas.
Mas o ramo fragílimo e venusto
Que hoje nas débeis gêmulas se esboça,
Há de crescer, há de tornar-se arbusto
E álamo altivo de ramagem grossa.
Clara, a atmosphera se encherá de aromas,
O Sol virá das épocas sadias . . .
E o antigo leão, que te esgotou as pomas.
Há de beijar-te as mãos todos os dias !
Quando chegar depois tua velhice
Batida pelos bárbaros invernos.
Relembrarás chorando o que eu te disse,
A sombra dos sycómoros eternos !
ANJOS, Augusto dos. “Mater”. In: Eu (Poesias Completas). Paraíba do Norte - PB: SCP, 1920, p. 171.
Meretriz
A rua dos destinos desgraçados
Faz medo. O Vício estruge. Ouvem-se os brados
Da dominação carnal . . . Lúbrica, á lua,
Na sodomia das mais negras bôdas
Desarticula-se, em choreas doudas,
Uma mulher completamente nua !
I
E a meretriz que, de cabelos ruivos.
Bramando, ébria e lasciva, hórridos uivos
Na mesma esteira pública, recebe,
Entre farraparias e esplendores,
O erethismo das classes superiores
E o orgasmo bastardissimo da plebe!
E’ ella que, aliando, à luz do olhar protervo,
O indumento vilíssimo do servo
Ao brilho da augustal toga pretexta,
Sente, alta noite, em contorções sombrias,
Na vacuidade das entranhas frias
O esgotamento intrínseco da besta!
E ella que, hirta, a arquivar credos desfeitos,
Com as mãos chagadas, espremendo os peitos,
Reduzidos, por fim, a ambulas molles,
Soffre em cada molécula a angústia alta
De haver secado, como o steppe, à falta
Da água creadora que alimenta as proles!
E ella que, arremessada sobre o rude
Despenhadeiro da decrepitude,
Na vizinhança aziaga dos ossuários
Representa, através os meus sentidos,
A escuridão dos gineceus fallidos
E a desgraça de todos os ovários!
Irrita-se-lhe a carne à meia noite.
Espicaça-a a ignomínia, excita-a o açoite
Do incêndio que lhe inflama a língua espúria.
E a mulher, funcionária dos instintos,
Com a roupa amarfanhada e os beiços tintos.
Gane instintivamente de luxúria!
Navio para o qual todos os portos
Estão fechados, urna de ovos mortos,
Chão de onde uma só planta não rebenta,
Eil-a, de bruços, bebida de gozo
Saciando o geotropismo pavoroso
De unir o corpo à terra famulenta !
Nesse espoliamento repugnante
O esqueleto irritado da bacchante
Estrala… Lembra o ruído harto azorrague
A vergastar ásperos dorsos grossos.
E é aterradora essa alegria de ossos
Pedindo ao sensualismo que os esmague!
E o pseudo regozijo dos eunucos
Por natureza, dos que são cardíacos
Desde que a Mãe-comum lhes deu início
E a dor profunda da incapacidade
Que, pela própria hereditariedade
A lei da seleção disfarça em Vício!
E o júbilo apparente da alma quasi
A eclipsar-se, no horror da orquídea fase
Esterilizadora de órgãos... E o hymno
Da matéria incapaz, filha do inferno.
Pagando com volúpia o crime eterno
De não ter sido fiel ao seu destino !
E o Desespero que se faz bramido
De anhelo animalíssimo incontido,
Mais que a vaga incoercível na água oceania
E a Carne que, já morta essencialmente,
Para a Finalidade Transcendente
Gera o prodígio anímico da Insania!
Nas frias antecâmaras do Nada
O fantasma da fêmea castigada,
Passa agora ao clarão da lua accesa
E é stu corpo expiatório, alvo e desnudo
A Synthese eucharisticade tudo
Que não se realizou na Natureza !
Antigamente, aos tácitos apelos
Das suas carnes e dos seus cabellos,
Na óptica abreviatura de um reflexo,
Fulgia, em cada humana nebulosa,
Toda a sensualidade tempestuosa
Dos appetites barbaros do Sexo!
O atavismo das raças sibaritas,
Creando concupiscências infinitas
Como eviterno lobo insatisfeito;
Na homofagia hedionda que o consome,
Vinha saciar a millenaria fome
Dentro das abundâncias do seu leito!
Toda a libidinagem dos mormaços
Americanos fluía-lhe dos braços,
Irradiava-se-lhe, hídrica, das veias
E em torrencialidades quentes e húmidas.
Gorda a escorrer-lhe das artérias túmidas
Lembrava um transbordar de aniphoras cheias
A hora da morte acende-lhe o intelecto
E á húmida habitação do vício abjecto
Afluem milhões de sois, rubros, radiando
Resíduos memoriais tornam-se luzes
Fazem-se ideias e ela vê as cruzes
Do seu martirológio miserando !
Inícios atrofiados de ethica, ancia
De perfeição, sonhos de culminância.
Libertos da ancestral modorra calma,
Saem da infância embrionária e erguem-se, adultos,
Lançando a sombra horrível dos seus vultos
Sobre a noite fechada daquela alma!
E o sub levantamento collectivo
De um mundo inteiro que aparece vivo,
Numa scenographia de diorama,
Que, momentaneamente luz fecunda,
Brilha na prostituta moribunda
Como a phosphorescence sobre a lama !
E a visita alarmante do que outrora
Na abundância prosperina da aurora,
Poderá progredir, talvez, de certo.
Mas que, adstrito a inferior plasma inconsútil,
Ficou rolando, como aborto inutil,
Como o.... do deserto !
Vede! A prostituiçâo'ophidia aziaga -
Cujo tóxico instilla a infâmia, e a estraga
Na delinquência . . . impune,
Agafrou-se-lhe aos seios impudicos
Como o abraço mortífero do Ficus
Sugando a seiva da árvore a que se une !
Enroscou-lhe aos abraços com tal gosto,
Mordeu-lhe a bocca e o rosto
Ser meretriz depois do túmulo ! A alma
Roubada a hirta quietude da urbe calma
Onde se extinguem todos os escolhos :
E, condenada, ao trágico dictame,
Oferecer-se á bicharia infame
Com a terra do sepulcro a encher-lhe os olhos!
Sentir a lingna aluir-se-lhe na bocca
E com a cabeça sem cabelos, ôca .
Na horrorosa avulsão da forma nivea
Dizer ainda palavras de lascívia
ANJOS, Augusto dos. “Meretriz”. In: Outras Poesias. In: Eu (Poesias Completas). Paraíba do Norte - PB: SCP, 1920,p. 215
Sonetos
I
A meu pai doente
Para onde fores, Pai, para onde fores,
Irei também, trilhando as mesmas ruas
Tu, para amenizar as dores tuas,
Eu, para amenizar as minhas dores !
Que coisa triste! O campo tão sem flores,
E eu tão sem crença e as árvores tão nuas,
E tu, gemendo, e o horror de nossas duas
Mágoas crescendo e se fazendo horrores!
Magoaram-te, meu Pai?! Que mão sombria,
Indiferente aos mil tormentos teus
De assim magoar-te sem pesar havia?!
— Seria a mão de Deus ?! Mas Deus enfim
É bom, é justo, e, sendo justo. Deus,
Deus não havia de magoar-te assim !
II
A meu pai morto
Madrugada de Treze de Janeiro.
Rezo, sonhando, o ofício da agonia.
Meu pai nessa hora junto a mim morria
Sem um gemido, assim como um cordeiro!
E eu nem lhe ouvi o alento derradeiro!
Quando acordei, cuidei que ele dormia,
E disse à minha Mãe que me dizia:
Acorda-o! deixa-o, Mãe, dormir primeiro!
E saí para ver a Natureza!
Em tudo o mesmo abismo de beleza,
Nem uma névoa no estrelado véu…
Mas pareceu-me, entre as estrelas flóreas,
Como elas, num carro azul de glórias,
Ver a alma de meu Pai subindo ao céu!
III
Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.
Em seus lábios que os meus lábios osculam
Microorganismos fúnebres pullulam
Numa fermentação gorda de cidra.
Duras leis as que os homens e a hórrida hidra
A uma só lei biológica vinculam,
E a marcha das moléculas regulam,
Com a invariabilidade da clepsidra !...
Pôdre meu Pae. E a mão que enchi de beijos
Roída toda de bichos, como os queijos
Sobre a mesa de orgânicos festins I . . .
Amo meu Pai na atômica desordem
Entre as boccas necróphagas que o mordem
E a terra infecta que lhe cobre os rins !
ANJOS, Augusto dos. “Sonetos”. In: Eu (Poesias Completas). Paraíba do Norte - PB: SCP, 1920, p. 151.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)