Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Auta de Souza (1876-1901)


Marca d'água

Mater

A meus irmãos

Ó, Santa, ó minha mãe, meu sol primeiro!
LUIZ MURAT


Minha mãe! meu amor! Por que voaste, rindo,
Para o país azul e santo da quimera?
Minha mãe! minha mãe !Se o Céu é sempre lindo,
Aqui também há sol, também há primavera…

Depois que te partiste e os seus pobres filhinhos,
Pequeninos e sós, deixaste na orfandade,
Ficamos a chorar -implumes passarinhos! —
Que os pássaros também soluçam de saudade.

Pobres aves sem ninho, andamos à procura
Doninho de teu seio imaculado e amigo,
Criancinha sem berço, em busca de um abrigo
No berço de tu'alma alabastrina e pura.

Não nos deixe sofrer. Outrora,quando aflita
Tu nos via chorar — os risos de tu'alma! —
Soluçavas também e a tua mão bendita,
Nos enxugando o pranto, o transformava em calma,

“Teu seio, é minha mãe, era a corrente mansa,
Sempre serena e doce no seu gemer eterno,
Onde boiava, a rir, nossa alma de criança
No mimoso batel do coração materno.

Como era bom dormir na curva do teu braço,
Sonhando adormecer ouvindo-te cantar...
Como era bom dormir, ó mãe, em teu regaço,
Dourando-nos o sono a luz de teu olhar.

Angicos — 1896


SOUZA, Auta de. “Mater”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 51.

 


Marca d'água

A Morte de Helena

“Eu não quero morrer”, dizia a pobre Helena,
E a fronte, a soluçar, caiu no travesseiro...
(Ai! Recordava assim à pálida açucena
Ou, do galho pender, a flor do jasmineiro!)

“Não me deixem morrer assim na Primavera:
Esconde-me no seio, ó minha mãe querida!
A morte como é triste! E o noivo que me espera
Há de chamar por mim... Quem restitui-me a vida?”

E se pôs a chorar: mas, chegando o delírio,
Esqueceu-se da morte e começou a rir...
Pobre noiva do Amor! Pobre folha de lírio!
Ela os olhos cerrou, como quem vai dormir,

Misérrima criança! estava ali bem perto
A morte, a se abeirar de seu leito sagrado,
Para arrastar-lhe o corpo ao túmulo deserto,
Onde não brilha'o Sol e nem o Riso amado.

E, quando despertou daquele doce encanto,
Conheceu que morria e, cheia de pavor,
Suplicou a Jesus, por seu martírio santo,
Que a deixasse na terra ao pé de seu amor.

“Mas, sei que parto sempre; acrescentou chorando.
“Mostrou-se-me da crença o doloroso véu...
Minha mãe vem comigo, a noite vem chegando
E eu talvez possa errar o caminho do Céu!”

E nessa mesma noite escura, tenebrosa,
Deixou a doce Helena a terra, pobre goivo
Mas tinha para ungir-lhe a campa lutuosa
Uma prece de mãe e as lágrimas do noivo.

Angicos — 1896.


SOUZA, Auta de. “A Morte de Helena”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 104.

 


Marca d'água

Adoração dos Reis Magos

Jesus sorri. Que ternura,
Que doce favo de luz
Vejo brilhar na candura
De seus dois olhos azuis!

Chegam os Magos. De joelhos,
Cheios de unção e de amor,
Beija o pezinho vermelho
Do pequenino Senhor.

Trazem-lhe mesmo um tesouro
Lembrando glória e tormento:
Caçoilas de incenso é ouro
É a mirra do sofrimento.

Ó reis do Grande Oriente,
Por que lembrastes, então
À mãe do louro inocente
A dor sem fim da Paixão?

Não vedes que a Virgem chora
Olhando a mirra cruel?
É que ela se lembra agora
Da esponja embebida em fel.

Talvez não vísseis o lindo
Bando gentil de pastores
Que o rodearam sorrindo,
Mas só lhe trouxeram flores!


SOUZA, Auta de. “Adoração dos Reis Magos”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 226

 


Marca d'água

Morta

A Jabel Beltrão


Dos braços da mãe querida
Desceu Laura à sepultura:
Morreu na manhã da vida,
Criancinha ainda é tão pura!

Não viu desabrochar-lhe n'alma
A aurora dos quinze anos;
Fugiu inocente e calma
Do mundo cheio de enganos.

Temeu, pobre mariposa!
O encanto louco das brasas,
Pois, na friez de uma lousa,
O arcanjo não queima as asas.

De todo o choroso dia
Só nos resta na lembrança,
Como visão fugidia
Daquela virgem criança:

Um caixãozinho funéreo;
— Abismo de nossas dores —
Conduzido ao cemitério
Como uma cesta de flores.


SOUZA, Auta de. “Morta”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 93.

 


Marca d'água

Regina Martyrum

Lírio do Céu, sagrada criatura,
Mãe das crianças e dos pecadores,
Alma divina como a luz e as flores
Das virgens castas a mais casta e pura;

Do Azul imenso, dessa imensa altura
Para onde voam nossas grandes dores,
Desce os teus olhos cheios de fulgores
Sobre os meus olhos cheios de amargura!

Nador sem termo pela negra estrada
Vou caminhando, a sós, desatinada,
— Ai! Pobre cega sem amparo ou guia! -

Sê tua mão que me conduza ao porto.
Ó doce mãe da luz é do conforto.
Ilumina o terror desta agonia!


SOUZA, Auta de. “Regina Martyrum”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 208.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)