Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Vinicius de Moraes (1913-1980)


Marca d'água

A brusca poesia da mulher amada (III)

 

 

A Nelita


Minha mãe, alisa de minha fronte todas as cicatrizes do passado
Minha irmã, conta-me histórias da infância em que que eu haja sido herói
(sem mácula
Meu irmão, verifica-me a pressão, o colesterol, a turvação do timol, a
(bilirrubina
Maria, prepara-me uma dieta baixa em calorias, preciso perder cinco quilos
Chamem-me a massagista, o florista, o amigo fiel para as confidências
E comprem bastante papel; quero todas as minhas esferográficas
Alinhadas sobre a mesa, as pontas prestes à poesia.
Eis que se anuncia de modo sumamente grave
A vinda da mulher amada, de cuja fragrância já me chega o rastro.
É ela uma menina, parece de plumas
E seu canto inaudível acompanha desde muito a migração dos ventos
Empós meu canto. É ela uma menina.
Como um jovem pássaro, uma súbita e lenta dançarina
Que para mim caminha em pontas, os braços suplicantes
Do meu amor em solidão. Sim, eis que os arautos
Da descrença começam a encapuçar-se em negros mantos
Para cantar seus réquiens e os falsos profetas
A ganhar rapidamente os logradouros para gritar suas mentiras.
Mas nada a detém; ela avança, rigorosa
Em rodopios nítidos
Criando vácuos onde morrem as aves.
Seu corpo, pouco a pouco
Abre-se em pétalas... Ei-la que vem vindo
Como uma escura rosa voltejante
Surgida de um jardim imenso em trevas.
Ela vem vindo... Desnudai-me, aversos!
Lavai-me, chuvas! Enxugai-me, ventos!
Alvoroçai-me, auroras nascituras!
Eis que chega de longe, como a estrela
De longe, como o tempo
A minha amada última!

Rio de Janeiro, 1963


MORAES, Vinicius de. “A brusca poesia da mulher amada (III)”.In: A lua de Montevidéu. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 322.

 


Marca d'água

Ariana, a mulher

 


Quando, aquela noite, na sala deserta daquela casa cheia da montanha em
(torno
O tempo convergiu para a morte e houve uma cessação estranha seguida de
(um debruçar do instante para o outro instante Ante o meu olhar absorto o
relógio avançou e foi como se eu tivesse me (identificado a ele e estivesse
batendo soturnamente a Meia-Noite E na ordem de horror que o silêncio
fazia pulsar como um coração dentro do (ar despojado
Senti que a Natureza tinha entrado invisivelmente através das paredes e se
(plantara aos meus olhos em toda a sua fixidez noturna E que eu estava no
meio dela e à minha volta havia árvores dormindo e flores (desacordadas
pela treva.
Como que a solidão traz a presença invisível de um cadáver – e para mim
era (como se a Natureza estivesse morta
Eu aspirava a sua respiração ácida e pressentia a sua deglutição monstruosa
(mas para mim era como se ela estivesse morta Paralisada e fria,
imensamente erguida em sua sombra imóvel para o céu alto (e sem lua
E nenhum grito, nenhum sussurro de água nos rios correndo, nenhum eco
(nas quebradas ermas
Nenhum desespero nas lianas pendidas, nenhuma fome no muco aflorado
das (plantas carnívoras
Nenhuma voz, nenhum apelo da terra, nenhuma lamentação de folhas, nada.
Em vão eu atirava os braços para as orquídeas insensíveis junto aos lírios
(inermes como velhos falos
Inutilmente corria cego por entre os troncos cujas parasitas eram como a
miséria da vaidade senil dos homens
Nada se movia como se o medo tivesse matado em mim a mocidade e
gelado o (sangue capaz de acordá-los
E já o suor corria do meu corpo e as lágrimas dos meus olhos ao contato
dos (cactos esbarrados na alucinação da fuga
E a loucura dos pés parecia galgar lentamente os membros em busca do
(pensamento
Quando caí no ventre quente de uma campina de vegetação úmida e sobre a
(qual afundei minha carne.
Foi então que compreendi que só em mim havia morte e que tudo estava
(profundamente vivo
Só então vi as folhas caindo, os rios correndo, os troncos pulsando, as flores
(se erguendo
E ouvi os gemidos dos galhos tremendo, dos gineceus se abrindo, das
(borboletas noivas se finando
E tão grande foi a minha dor que angustiosamente abracei a terra como se
(quisesse fecundá-la
Mas ela me lançou fora como se não houvesse força em mim e como se ela
não
(me desejasse
E eu me vi só, nu e só, e era como se a traição tivesse me envelhecido eras.
Tristemente me brotou da alma o branco nome da Amada e eu murmurei (-
Ariana!
E sem pensar caminhei trôpego como a visão do Tempo e murmurava (–
Ariana!
E tudo em mim buscava Ariana e não havia Ariana em nenhuma parte Mas
se Ariana era a floresta, por que não havia de ser Ariana a terra?
Se Ariana era a morte, por que não havia de ser Ariana a vida?
Por que – se tudo era Ariana e só Ariana havia e nada fora de Ariana?
Baixei à terra de joelhos e a boca colada ao seu seio disse muito docemente
(– Sou eu, Ariana...
Mas eis que um grande pássaro azul desce e canta aos meus ouvidos (– Eu
sou Ariana!
E em todo o céu ficou vibrando como um hino o muito amado nome de
Ariana.
Desesperado me ergui e bradei: Quem és que te devo procurar em toda a
parte (e estás em cada uma?
Espírito, carne, vida, sofrimento, serenidade, morte, por que não serias
uma?
Por que me persegues e me foges e por que me cegas se me dás uma luz e
(restas longe?
Mas nada me respondeu e eu prossegui na minha peregrinação através da
(campina
E dizia: Sei que tudo é infinito! – e o pio das aves me trazia o grito dos
sertões (desaparecidos
E as pedras do caminho me traziam os abismos e a terra seca a sede na
(fontes.
No entanto, era como se eu fosse a alimária de um anjo que me chicoteava
(– Ariana!
E eu caminhava cheio de castigo e em busca do martírio de Ariana A
branca Amada salva das águas e a quem fora prometido o trono do mundo.
Eis que galgando um monte surgiram luzes e após janelas iluminadas e após
(cabanas iluminadas
E após ruas iluminadas e após lugarejos iluminados como fogos no mato
(noturno
E grandes redes de pescar secavam às portas e se ouvia o bater das forjas.
E perguntei: Pescadores, onde está Ariana? – e eles me mostravam o peixe
Ferreiros, onde está Ariana? – e eles me mostravam o fogo Mulheres, onde
está Ariana? – e elas me mostravam o sexo.
Mas logo se ouviam gritos e danças, e gaitas tocavam e guizos batiam Eu
caminhava, e aos poucos o ruído ia se alongando à medida que eu
(penetrava na savana
No entanto era como se o canto que me chegava entoasse – Ariana!
E pensei: Talvez eu encontre Ariana na Cidade de Ouro – por que não seria
Ariana a mulher perdida?
Por que não seria Ariana a moeda em que o obreiro gravou a efígie de
César?
Por que não seria Ariana a mercadoria do Templo ou a púrpura bordada do
(altar do Templo?
E mergulhei nos subterrâneos e nas torres da Cidade de Ouro mas não
(encontrei Ariana
Às vezes indagava – e um poderoso fariseu me disse irado: – Cão de Deus,
tu (és Ariana!
E talvez porque eu fosse realmente o Cão de Deus, não compreendi a
palavra (do homem rico
Mas Ariana não era a mulher, nem a moeda, nem a mercadoria, nem a
(púrpura
E eu disse comigo: Em todo lugar menos que aqui estará Ariana E
compreendi que só onde cabia Deus cabia Ariana.
Então cantei: Ariana, chicote de Deus castigando Ariana! e disse muitas
(palavras inexistentes
E imitei a voz dos pássaros e espezinhei sobre a urtiga mas não espezinhei
(sobre a cicuta santa
Era como se um raio tivesse me ferido e corresse desatinado dentro de
minhas (entranhas
As mãos em concha, no alto dos morros ou nos vales eu gritava – Ariana!
E muitas vezes o eco ajuntava: Ariana... ana...
E os trovões desdobravam no céu a palavra – Ariana.
E como a uma ordem estranha, as serpentes saíam das tocas e comiam os
(ratos
Os porcos endemoninhados se devoravam, os cisnes tombavam cantando
nos (lagos
E os corvos e abutres caíam feridos por legiões de águias precipitadas E
misteriosamente o joio se separava do trigo nos campos desertos E os
milharais descendo os braços trituravam as formigas no solo E envenenadas
pela terra descomposta as figueiras se tornavam (profundamente secas.
Dentro em pouco todos corriam a mim, homens varões e mulheres
desposadas Umas me diziam: Meu senhor, meu filho morre! e outras eram
cegas e (paralíticas
E os homens me apontavam as plantações estorricadas e as vacas magras.
E eu dizia: Eu sou o enviado do Mal! e imediatamente as crianças morriam
E os cegos se tornavam paralíticos e os paralíticos cegos E as plantações se
tornavam pó que o vento carregava e que sufocava as vacas (magras.
Mas como quisessem me correr eu falava olhando a dor e a maceração dos
(corpos
Não temas, povo escravo! A mim me morreu a alma mais do que o filho e
me (assaltou a indiferença mais do que a lepra
A mim se fez pó e carne mais do que o trigo e se sufocou a poesia mais do
que
(a vaca magra
Mas é preciso! Para que surja a Exaltada, a branca e sereníssinia Ariana A
que é a lepra e a saúde, o pó e o trigo, a poesia e a vaca magra Ariana, a
mulher – a mãe, a filha, a esposa, a noiva, a bem-amada!
E à medida que o nome de Ariana ressoava como um grito de clarim nas
faces (paradas
As crianças se erguiam, os cegos olhavam, os paralíticos andavam
(medrosamente
E nos campos dourados ondulando ao vento, as vacas mugiam para o céu
(claro
E um só clamor saía de todos os peitos e vibrava em todos lábios – Ariana!
E uma só música se estendia sobre as terras e sobre os rios – Ariana!
E um só entendimento iluminava o pensamento dos poetas – Ariana!
Assim, coberto de bênçãos, cheguei a uma floresta e me sentei às suas
bordas (– os regatos cantavam límpidos
Tive o desejo súbito da sombra, da humildade dos galhos e do repouso das
(folhas secas
E me aprofundei na espessura funda cheia de ruídos e onde o mistério
(passava sonhando
E foi como se eu tivesse procurado e sido atendido – vi orquídeas que eram
(camas doces para a fadiga
Vi rosas selvagens cheias de orvalho, de perfume eterno e boas para matar a
(sede
E vi palmas gigantescas que eram leques para afastar o calor da carne.
Descansei – por um momento senti vertiginosamente o húmus fecundo da
(terra
A pureza e a ternura da vida nos lírios altivos como falos A liberdade das
lianas prisioneiras, a serenidade das quedas se despenhando.
E mais do que nunca o nome da Amada me veio e eu murmurei o apelo (–
Eu te amo, Ariana!
E o sono da Amada me desceu aos olhos e eles cerraram a visão de Ariana
E meu coração pôs-se a bater pausadamente doze vezes o sinal cabalístico
de (Ariana…
.................................................................................
Depois um gigantesco relógio se precisou na fixidez do sonho, tomou forma
(e se situou na minha frente, parado sobre a Meia-Noite Vi que estava só e
que era eu mesmo e reconheci velhos objetos amigos.
Mas passando sobre o rosto a mão gelada senti que chorava as puríssimas
(lágrimas de Ariana
E que o meu espírito e o meu coração eram para sempre da branca e
(sereníssima Ariana
No silêncio profundo daquela casa cheia da Montanha em torno.

Rio de Janeiro, 1936


MORAES, Vinicius de. “Ariana, a mulher”. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 78.

 


Marca d'água

Lamento ouvido não sei onde

 


Lamento ouvido não sei onde
Minha mãe, toma cuidado
Não zanga assim com meu pai
Um dia ele vai-se embora
E não volta nunca mais.
O mau filho à casa torna
Mãe... nem carece tornar
Mas pai que larga a família
Pra que desgraça não vai!

Rio de Janeiro, 1938


MORAES, Vinicius de. “Lamento ouvido não sei onde” In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 105.

 


Marca d'água

Minha mãe

 


Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.
Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: – Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.

Rio de Janeiro, 1933


MORAES, Vinicius de. “Minha mãe”.In: Forma e Exegese. In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 32.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)