Auta de Souza (1876-1901)
A Morte de Helena
“Eu não quero morrer”, dizia a pobre Helena,
E a fronte, a soluçar, caiu no travesseiro...
(Ai! Recordava assim à pálida açucena
Ou, do galho a pender, a flor do jasmineiro!)
“Não me deixem morrer assim na Primavera:
Esconde-me no seio, ó minha mãe querida!
A morte como é triste! E o noivo que me espera
Há de chamar por mim... Quem restitui-me a vida?”
E se pôs a chorar: mas, chegando o delírio,
Esqueceu-se da morte e começou a rir...
Pobre noiva do Amor! Pobre folha de lírio!
Ela os olhos cerrou, como quem vai dormir,
Misérrima criança! estava ali bem perto
A morte, a se abeirar de seu leito sagrado,
Para arrastar-lhe o corpo ao túmulo deserto,
Onde não brilha'o Sol e nem o Riso amado.
E, quando despertou daquele doce encanto,
Conheceu que morria e, cheia de pavor,
Suplicou a Jesus, por seu martírio santo,
Que a deixasse na terra ao pé de seu amor.
“Mas, sei que parto sempre; acrescentou chorando.
“Mostrou-se-me da crença o doloroso véu...
Minha mãe vem comigo, a noite vem chegando
E eu talvez possa errar o caminho do Céu!”
E nessa mesma noite escura, tenebrosa,
Deixou a doce Helena a terra, pobre goivo
Mas tinha para ungir-lhe a campa lutuosa
Uma prece de mãe e as lágrimas do noivo.
Angicos — 1896.
SOUZA, Auta de. “A Morte de Helena”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 104.
Adeus
“Espera, eu voltarei” Ele dizia.
(Quanto era triste o seu olhar tão doce!)
Chorosa é terna a fala lhe tremia
Como se a corda de algum'harpa fosse.
E ela, a pálida noiva estremecida,
Fitou no amado os grandes olhos seus,
E murmurou, baixinho e comovida,
Quase a chorar é muito a medo: Adeus!
SOUZA, Auta de. “Adeus”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 222.
Flor do Campo
A meu irmão Eloy
Moça ingênua e formosa,
Ó doce filha do sertão agreste!
O teu olhar celeste
Tem o fulgor da noite luminosa,
Guarda a mesma doçura
O mesmo encanto feito de esperanças
Dos olhos das crianças,
Ninho de sonho e ninho de ternura.
A luz do Paraíso,
Quando a Alegria tua boca enflora, -
Resplende como a aurora
Na graça-virginal de um teu sorriso.
És inocente e boa
Como a quimera que em teu seio canta
Tens a beleza santa
Da pomba amiga que no Espaço voa.
Jamais alguém te disse
Que tens o rosto branco como o gelo,
A Noite no cabelo
E o sorriso tão cheio de meiguice.
Por isso ainda é mais bela
A tua fronte cândida e tranquila,
E o fogo que cintila
No teu olhar é como o de uma estrela
Angélica é suave,
É tua voz que as almas adormece,
Um ciciar de prece,
Embalando a saudade de alguma ave.
Hoje tu'alma ignora
Toda a magia deste rosto puro;
Mas, olha, no futuro
Lembrar-te-ás do que não vês agora,
E então, com que saudade
Recordarás esse passado morto
Em triste desconforto,
Chorando os sonhos da primeira idade.
Ó lindo malmequer,
Anjo que vives a sonhar com Deus...
Por os olhos nos meus é
Ouve bem sério o que te vou dizer;
Um dia, talvez cedo,
Teu coração palpitará inquieto
E transbordando afeto,
Há de afagar um íntimo segredo.
Para tu'alma honesta
Ó Céu inteiro, iluminado, ó flor!
Com a luz de um puro amor
Há de brilhar como uma Igreja em festa.
E assim, risonha e calma,
Conduzirá ao porto da aliança,
Na barca da Esperança,
Como um troféu, o noivo de tu'alma.
E Deus há de baixar
Sobre estas duas mãos que o padre estreita,
A bênção mais perfeita,
O seu mais doce e mais divino olhar.
Feliz, muito feliz,
A tua vida correrá de manso
No plácido remanso
De quem adora o Céu e o Céu Bendiz.
Depois, do Paraíso,
Jesus há de enviar-te uma filhinha,
Formosa criancinha
Que embalarás cantando num sorriso.
Ela há de ser bonita
E boa como tu, anjo terrestre,
Ó linda flor silvestre,
Minha singela e casta margarida!
E após anos e anos,
Quando ela ficar moça e no teu rosto,
A sombra do sol-posto
For desdobrando o manto dos enganos,
Num dia de verão,
Sentado à porta, à hora do descanso
Sorrindo bem de manso,
Há de dizer, pegando-te na mão,
O velho esposo amigo:
— Repara como é linda a nossa filha!
Seu riso como brilha!
Eras assim quando casei contigo.
E tu hás de evocar,
Entre saudades trêmulas e ais,
Aquele tempo que não volta mais!
E no gracioso olhar
De tua filha os olhos mergulhando,
Deixarás a tu'alma ir Autuando
Sobre a onda bendita
Daquele mar puríssimo e dolente…
E, então, murmurarás saudosamente:
Ah! Como fui bonita!
Alto da Saudade
SOUZA, Auta de. “Flor do Campo”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 164.
Tudo Passa
I
Aquela moça graciosa e bela
Que passa sempre de vestido escuro
E traz nos lábios um sorriso puro,
Triste e formoso como os olhos dela…
Diz que sua alma tímida é singela
Já não tem coração: que o mundo impuro
Para sempre o matou... é o seu futuro
Foi-se num sonho, desmaiada estrela.
Ela não sabe que o desgosto passa
Nem que do orvalho a abençoada graça
Faz reviver à planta que emurchece.
Flávia! Nas almas juvenis, formosas,
Berço sagrado de jasmins e rosas,
O coração não morre: ele adormece…
II
O coração não morre: ele adormece...
E antes morresse o coração traído,
Mulher que choras teu amor perdido,
Amor primeiro que não mais se esquece!
Quando tu vais rezar, quando anoitece,
Beijas as contas do colar partido;
E o coração num trêmulo gemido
Vem perturbar a paz de tua prece.
Reza baixinho, ó noiva desolada!
E quando, à tarde, pela mesma estrada
Chorando fores esse imenso amor…
Geme de manso, juriti dolente!
Vais acordar o coração doente…
Não o despertes para nova dor.
SOUZA, Auta de. “Tudo passa”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 205.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)