Fênix Marroquina
O garagista, meio louco,
enchia o tanque do carro
falando na noiva ausente,
uma noiva imaginária
num lugar ensolarado
para os lados de Marrocos.
Muitas pulseiras e jarros de metal amarelo.
O garagista, meio louco,
todos os dias deixava
no tanque de gasolina
essa mulher deleitosa,
tâmara, coral, tambores,
que ia conosco fechada
pelos caminhos da França,
evaporando-se ao longo
da vasta quilometragem.
Jardins de palmeiras, canções noturnas, palavras mornas.
O garagista, meio louco,
de manhã recomeçava
a encher o tanque do carro,
a falar na noiva ausente,
seus cabelos e pulseiras,
seus jarros, coral, tambores,
tâmara, palmeiras, noites
— e ia conosco o fantasma
evaporando-se pelas
estradas louras da França…
la a fênix marroquina,
fênix morta e renascida:
buzina de alaúdes baços, lanternas de olhos magrebinos.
Paris, 1953
MEIRELES, Cecília. “Fênix Marroquina”. In: Sonhos (1950-1963). In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, v. 2, p. 215.