Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Maria do Carmo D' Andrade (1859-1915)


Marca d'água

Noiva

 


Recitada em dia nupcial da autora

Esta coroa de nevadas flores,
Que em minha fronte colocou-me os céus
E’ o emblema do amor sagrado,
Puro, divino que inspirou-me Deus!

Oh! eu me lembro que terei saudades,
Do lar paterno no viver de gozo;
Porém me exalto, contemplando sempre.
Tão meigo ao lado meu querido esposo!

Recebam amigas, um adeus perenne,
Que o peito expande n’um ardor febril;
Em outra senda já caminho agora,
Cheia minh’alma de esperanças mil!

Dos sonhos virgens, das visões douradas,
Eu me despeço, bendizendo a sorte;
Ideal não tenho, mas conservo a crença,
Voltando amores ao gazil consorte!

Mãe extremosa, nessa dextra santa,
Deixa meu lábio conchegar-se então:
Quero beijá-la!... divinais afectos,
De teus carinhos separar-me vão!...

O véu de noiva virginal e puro,
Eu deposito n'um terrestre altar;
E sobre a terra viverei contente,
Com amizade de quem hei-de amar!...

Irmãs amadas, nem um pranto vertam,
Por mim que à outro Já pertenço agora;
Na vida cumpro meu dever sublime,
Fitando os raios de uma nova. aurora!...

A branca veste de mulher do templo,
Fugaz já sinto dormitar além;
Adeus vos digo, pueris venturas,
E Deus responde compassivo: Amém.


D’ANDRADE, Maria do Carmo Sene. “Noiva”. In: O canto do cisne. Rio de Janeiro, RJ: Typographo-editor, 1880, p. 45.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)