Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)


Marca d'água

Romance de primas e primos

 


A prima nasce para o primo.
O casamento foi marcado
no ato mesmo da concepção.
Entre os primos, é eleito o primo
que melhor convém ao tratado.
Sem exclusão dos demais primos
perfilados todos à espera
de chamado se a vida muda.

Assim nascem todas as primas,
destinadas a matrimônio
do outro lado da mesma rua.
Os sobradões se comunicam
em passarela de interesses
da vasta empresa de família
que abrange bois, terras, apólices,
paióis de milho e tradição.

Serão multíparas as primas
a primos árdegos unidas.
À noite, no maior recato,
apagado o lampião, arquejos
e repugnâncias abafadas
contribuirão para a grandeza
do eterno tronco familial,
bem mais precioso que as pessoas.

De filhos, netos e bisnetos
o futuro já foi traçado
em firmes letras de escritura:
O país serrano pertença
a primos, primas e mais primos
encomendados com sapiência
pelo conselho soberano
de tios primos entre si.

Para lá dos cerros, a Terra
há de curvar-se ao poderio
deste grupo à sombra de Deus
— o deus especial das terras
dos rebanhos e dos princípios
particulares que dominam
a fortaleza atijolada
em mescla de sangue e dinheiro.

Mas um dia as primas se enervam
de nascer assim programadas
para um fim geral sem prazer.
Já os primos se desencantam
desta sorte a que estão jungidos.
E uma estampa de herói de filme,
outra estampa de estrela nórdica
acicatam insônias púberes.

Eis que aportam rapazes louros,
de um louro claro que deslustra
o banal moreno dos primos.
Vêm a negócios, mas reparam
numas primas ajaneladas
dispostas a romper a lei
da missão sem gosto e sem graça
de funcionárias da família.

Por sua vez os primos ardem
de voraz, incontido ardor
pela equilibrista do circo
e suas nervosas, elásticas
pernas que jamais uma prima
lhes mostrara, se é que possuíra
joias tais sob as circunspectas
multissaias e plurianáguas.

Outro assunto, meses a fio,
não conhece o burgo serrano
senão este, de estarrecer:
Entre as primas, a mais prendada
fugiu com o mais louro moço
entre os ádvenas moços louros
e seu primo compromissado
lá se foi, saltimbanco errático.

A partir de então — adivinha-se —
desimpedidos os primos
de escolher o par a seu gosto,
cada qual atira seus olhos
no rumo sem fim da aventura,
e de seculares raízes,
riquezas, títulos e taras,
nada resta — e ri-se o Diabo.


ANDRADE, Carlos Drummond de. “Romance de primas e primos”. In: Boitempo III: “Esquecer para lembrar”. In: Nova Reunião: 23 Livros de Poesia. São Paulo: Companhia das Letras: 2015, p. 719.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)