D. Duarte e Donzilha
<<Eu não procuro igreja,
Nem rosario p’ra rezar;
Só procur o lugar
Onde Dom Duarte está.
<<Deus vos salve, rainha,
Rainha em seu lugar.»
-Deus vos salve, princeza,
Princeza de Portugal. >>
- O que me quereis, princeza,
Que rio novas quereis me dar?
«É o amor de Dom Duarte
Que inda espero lograr.
- Dom Duarte não está em easa,
Anda n'alçada real.
« Mandai levantar bandeira
Para dar um bom signal.
Palavras ão eram ditas,
Dom Duarte na porta estava:
-O que me quereis, princeza,
Que novas quereis me dar?
<<É o amor de Dom Duarte
Qu’inda espero lograr.
-No tempo que eu vos queria,
Me juravam a matar:
Mas hoje que sou casado
Tenho filhos a criar
-Dai-me licença, senhora,
Dai-me licença real
P'ra dar um beijo em Donzilha
Qu'ella finada já está.
«Dai-lhe quatro, dai-lhe cinco,
Dai-lhe quantos vós poder;
Não tendes mais que beiar
A quem já finada está.
A cova de Donzilha
Foi na porta principal;
A cova de Dom Duarte
Foi lá no pé do altar.
Na cova de Donzilha
Foi um pé de sicupira;
Na cova de Dom Duarte
Nasceu em pé de collar.
Foram crescendo, crescendo,
Cresciam ambos igual;
Lá em riba das galinhas
Lá se foram abraçar.
A viuva que viu isto,
Logo mandou decolar;
Si haviam brotar leite,
Brotaram sangue real
ROMÉRO, Sylvio (org.) “D. Duarte e Donzilha”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 7-9.