Motte
O mar Tirreno fendia
A náo de Ulysses doloso,
E no horizonte nubloso
Pouco a pouco se e condia:
Circe, que em fúrias ardia,
Brada as im, do hesperio porto:
« Ulysse , do Averno aberto,
«Do meu mal não has de rir-te,
« Que hei de buscar-te, e punir-te
« Ainda depois de morto.
Eis, que viva negra pomba,
Em lume de teixo abraza,
E de cem mochos, que empraza
Faz a Recate impia hecatomba;
Súbito ao longe rebomba
Rouco, horroroso trovão,
Zune furioso tufão
As ondas a fúria augmentam,
Lavas, e Espectros rebentam
Debaixo do frio chão.
Nesta luta furibunda,
A não sem leme, sem mastros,
Ora topeta nos astros,
Ora no abysmo se afunda:
De novo a Maga ira unda
Diz; Teu mal seja infinito;
« Morre, infame! e no cocyto,
« Para terror dos malvados,
« Na lista dos condenados
« Acharás teu nome escripto.
Jove, que a scena devisa,
Quer salvar o heróe valente;
- Basta - grita, e de repente
Cessa o vento, o mar se alisa;
A deusa que se horrorisa,
« Se é justo, diz, se é razão
« Que fique impune a traição,
Sacro Jove ao menos finda
« Estas chamas, que ardem inda
« Dentro do meu coração. »
BASTOS, Santa Rita. “Motte”. In: FILHO, Mello Morais (org.). Parnaso Brasileiro. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1885. v. 1. p. 413-414.