Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Raimundo Correa (1859-1911)


Marca d'água

A Vênus de Vienna

 


Quando — Ó deusa pagã, cujo esplendor fulmina —
De Ignoto artista a mão, á rija entranha dura
Do marmor, te arrancou a estátua peregrina,
Nele fixou também, perpetua, a formosura;

Nele a imagem talhou, immortal e profunda,
Onde descobre o olhar, em lubrica vertigem,
A amante despiadada e a mulher-mãe fecunda,
Fonte de todo o bem, de todo o mal origem.

Com duplo e largo esforço arredondou-te o flanco,
Dos sólidos quadris torneou-te a opulência,
E inclinou dessa cspádua o longo sulco branco
A)o jugo da carícia e ao jugo da insolência.

Sob o colo bojou, entumeceu-te os seios
Robustos às paixões, e onde vêm arquejantes,
Sitibundos beber, como em dois tanques cheios.
Os lábios infantis e as bocas dos amantes.

E no ventre, ante o qual os sentidos se insurgem,
Rasgou-te amplo, a cinzei, o boqueirão mundano,
Onde entram gerações, de onde gerações surgem.
Como, sem trégua, o fluxo e refluxo do oceano..
Pois quando o homem sucumbe ao tédio e a vida, é quando
O amor com braço firme o empuxa e arroja, um dia,
Como um bronco animal, bêbado e cambaleando,
No abismo em cujo fundo o seu nada jazia...


CORREIA, Raimundo. “A Vênus de Vienna”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 186.

 


Marca d'água

Ixion

 


A deusa amante e desejada é ela!
Todo o amor em meu seio arfa e redunda,
Abraço-a — e verga ao braço que a circunda;
Beijo-a — e, corando, ainda se faz mais bela.

Abraço a Juno ou, louco, abraço aquella
Nuvem de ouro illusoria e vagabunda?!
Minha ventura, ó céus, é tão profunda,
Tão larga e tanta, que eu duvido dela!

Que lindos olhos! Que venusto e lindo
Gesto... Beijo-a de véras, ou suponho
Beijal-a só, num sonho doce e infindo?...

Não! Durmo; o despertar vai ser medonho!
Durmo; e sonho de certo, assim dormindo!
Quem me assegura que eu não sonho? Eu sonho


CORREIA, Raimundo. “Ixion”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 60.

 


Marca d'água

Plena Nudez

 


EU amo os gregos tipos de escultura:
Pagãs nuas no mármore entalhadas;
Não essas produções que a estufa escura
Das modas cria, tortas e enfezadas.

Quero em pleno esplendor, viço e frescura
Os corpos nús; as linhas onduladas
I.ivres; da carne exuberante e pura
Todas as saliências destacadas…

Não quero, a Vênus opulenta e bela
De luxuriantes formas, entrevê-la
Da transparente túnica através:

Quero vê- la, sem pejo, sem receios,
Os braços nús, o dorso nú, os seios
Nus... toda nua, da cabeça aos pés!


CORREIA, Raimundo. “Plena Nudez”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 58.

 


Marca d'água

Vana

 


Baixa a mim, alma angélica e impoluta!
Traze a meu ermo o sol da primavera,
A água que o lábio secco refrigera,
A urna de aroma e orvalho, e a flor, e a fruta.

Troca a cerúlea, constelada esphera,
Pela, em que habito, solitária gruta!
Tomba em meu seio! Eil-o a bater... Eseuta
O coração ansioso, que te espera!

Vem, mas tal qual, em seu delírio insano,
A alma te sonha, te deseja e sente;
Mulher, não: ser divino e sobrehumano!

Porém, se acaso assim não és, detém-te!
Não venhas! Deixa-a, nesse doce engano!
Deixa-a a esperar-te em vão, eternamente.


CORREIA, Raimundo. “Vana”. In: Aleluias. Rio de Janeiro: Companhia Editora Fluminense, 1891, p. 19.

 


Marca d'água

Versos a um artista

 


Tu, artista, com zelo,
Esmerilhar e investigar!
Nyssia, o melhor modelo
Vivo, oferece, da beleza antiga.

Para esculpir-a, em vão, árduos, no meio
De esbraseada arena,
Batem-sc, quebram-se em fatal torneio,
Pincel, lápis, buril, cinzel e penna.

A Aphrodite pagan, que o pejo afronta,
Exposta nua do universo ás vistas,
Dos seios duros na marmórea ponta
Amamentando gerações de artistas,

Não na excede; e, ao contrário, em sua rica
Nudez, por mil espelhos.
Mostra o que ella não mostra, de pudica,
Do collo abaixo e acima dos artelhos.

Analisa-a, sagaz, linha por linha,
E á tão sagaz minúcia apenas poupa
Tudo o que se não vê, mas se adivinha
Por sob a avara roupa...

Deixa que a roupa avara
Do peito o virginal tesouro esconda,
E o mais, até... onde, perfeita e clara,
A barriga da perna se arredonda...

Basta-te á vista esperta
Revelar-se, através do linho grosso,
O alabastro da espádua mal coberta,
E o Paros do pescoço.

Basta que traía, como trai, de leve,
O contorno flexuoso...
Basta esse rosto ideal — púrpura e neve —
E a linha grega do nariz gracioso.
Um quasi nada basta, enfim, que traia
Ao teu olhar agudo,
Para que este deduza, tire e extraia
D'aquelle quase nada, quase tudo...

Embora o olhar profano
Não possa ver o que ella só não nega
Ao lado avesso do grosseiro panno,
A cuja guarda os mimos nús entrega;

Nem leve brecha ao menos
Abra nessa, onde fulge, áspera crôsta,
Como a pérola — lágrima de Vênus —
Rútila dentro de uma casca de ostra...

Desnuda-a imaginariamente; e a poma,
O ventre, o talhe esculptural da cinta,
E o amplo quadril pondo-lhe á mostra, toma
O teu pincel para pintal-a, e pinta!

Seus melindrosos traços aproveita;
E, ao fundo de um painel clássico, aviva
As graças fcminis d'ella — perfeita
Cópia da formosura primitiva.

Pinta-a. Esse ignóbil, rústico tamanco
Tira-lhe ao branco pé: e, por seu turno,
Calça-lhe o pé tão branco
(Mais digno de um coturno) de um coturno.

Mas não faças a ideia
De que o semblante vês, feroz e lindo,
Da trágica Médéa
No teatro de Eurípides surgindo.

Não dês ao quadro qualquer tom mais negro;
Fazê antes n'ele, em vividos fulgores.
Correr gárrula a nota de um allegro
De matizes, de tintas e de cores.

Pinta-a no Olympo, dominando-o todo
Com esses olhos claros,
Bellos e verdes... Verdes d'esse modo,
São mais preciosos, porque são mais raros.

Não sobre negros, horridos escolhos,
Mas de um oiteiro célebre na falda,
A esmeralda do Egeu volvendo os olhos,
— Dois inimigos abysmos de esmeralda —
E onde do Hymettus a tribu sequiosa
E loira das abelhas
Lhe oscule o doce lábio côr de rosa
E a doce cor de rosa das orelhas...

Ou da harpa antiga os místicos segredos,
De Sapho as odes, de Timotheo os hymnos,
Frenética, arrancando com seus dedos
Longos, alexandrinos...

Rasga-lhe em larga tela o largo mundo
Da Grécia; e amplos, remotos horizontes,
Onde se esfumem, pallidas, ao fundo,
As cordilheiras dos mais altos montes...

Onde, perpétua, a Primavera esvoaça.
Abra em capellas mádidas, cheirosas,
E, em mil grinaldas trêmulas, deslace
De Anacreonte as rosas...

E em torno d'ella tudo se reúna;
Da Arabia o incenso e a myrrha da Ethiopia;
E, dadivosa e pródiga, a Fortuna
Despeje a rica e farta cornucopia!

Ou deixa então da deusa de Cythera
Tudo o que em Nyssia vês... Para pintal-a,
Busca antes o ar de castidade austera,
Que ás semi-deusas da Odysséa a iguala.

Pinta-a onde, ao pino, o sol da Líbia ardente
Estanque o Nilo, que fecundo corre;
E, buindo o deserto incandescente,
Faisque, abraze, torre.

Queime; espedace os raios flamejantes,
— Como um milhão de espadas
Contra claros broqueis — contra os brilhantes
Zimbórios das mesquitas elevadas:

Coza, encoscóre a adusta areia rubra;
Calcine-a; lamba em fogo os obeliscos;
De Memphis as pyramides encubra
De fuzis e de fúlvicos coriscos;

Relampeje enfim... Mas sem que tisne
A rija carnação d'ela, mais grata,
Mais doce aos olhos, que o canto do cisne,
Que no cristal do Eurotas se retrata;

Nem lhe deslustre, nem mareei a alvura;
E nem lhe decomponha a peregrina
Combinação, e a singular mistura
De anil, leite e nácar da pele fina.

Pinta-a enfim — não em vasto peristilo
De capiteis coríntios, mas naquela
Sóbria feição do estilo do rio, estilo
Que, por mais simples, é mais próprio d'ela —

Ao hombro a clâmide espartana, ao peito
A égide adamantina, area, inteiriça,
No braço esquerdo o escudo, e no direito
A espada da Justiça.

Num Parthenon seu vulto assim conserva,
Sem os crespos florões de acantho e louro;
E eil-a ao molde da estátua de Minerva,
Feita por Phidias, de marfim e de couro.

Então não queiras tu pôr em confronto
O original e a imitação já finda,
Para ver se, d'aquelle, n'esta um ponto,
Um toque, ou pincelada falta ainda;

Nem, na febre da esthetica, profunde
Mais teu olhar, buscando-lhe a nudeza
Perlustrar do seu corpo: mapa-mundi
Da suprema Beleza.

Poupa às faces da deusa a onda purpurea:
Pinta-a, ideando-a só: o heril recadio,
O torso e o resto... Sem, tremenda injúria!
A túnica lhe abrires de alto a baixo.


CORREIA, Raimundo. “Versos a um artista”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 29.

 


Marca d'água

Vesper

 


DO seu fastígio azul, serena e fria,
Desce a noite outonal, augusta e bela;
Vesper fulgura além... Vesper! Só ela
Todo o céu, doce e pálida, alumia.

De um mosteiro na cúpula irradia,
Com frouxa luz... Em sua humilde cella.
Contemplativa e lânguida á janella,
Triste freira, fitando-a, se extasia…

Vesper, envolta etn deslumbrante alvura,
Ò nuvens, que ides pelo espaço afora!
A quem tão longo olhar volve da altura?

Que olhar, irmão do seu, procura agora
Na terra o astro do amor? O olhar procura
Da solitária freira que o namora.


CORREIA, Raimundo. “Vesper”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 79.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)