Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Alberto de Oliveira (1859-1937)


Marca d'água

O sonho de Titânia

 


Lá vai, pé ante pé, de folha em folha, o alado,
O aéreo Puck, o trasgo, o gênio endemoniado.
Vêde-o: não é mais leve, assim qual vai, tão leve,
A plúmula que o vento acaricia, a neve
Que se equilibra no ar em flóculos. Cautela,
Silêncio, auras subtis! Dorme Titânia, a Bella!
Deixe-a assim, qual é, no sono ameno e brando,
Dos tomilhos do bosque ao lado repousando;
Lidou tanto, através de vales e de outeiros
Tanto cansou, correndo, os zephyros fragueiros,
Tanto a si se cansou também, que a pobrezinha
Necessário é dormir. Dorme, bela rainha!
Pé ante pé, de folha em folha, no entretanto,
O elfo lá vai. Não soa em de redor um canto,
Não trina um'ave, um sopro em de redor não passa,
- Uma asa em de redor sequer se agita e esvoaça.
Calma estranha, mudez. O elfo lá vai. Que aéreo
Pisa! que aéreo o passo adianta! Que mysterio
É esse que se vai passar ali?... Cautela,
Silêncio, auras subtis! dorme Titânia, a bella,
Dorme. E o elfo lá vai: um passo ainda e a alcança,
Curva-se e de uma flor que leva, sem tardança,
Cauteloso lhe abrindo as pálpebras, instilla
Uma gota, que obtém do suco, na pupila.
Fal-o e parte.

Vingado em seu despeito insano
“Está dos gênios do espaço o excelso soberano,
Folga o altivo Oberon. Titânia, a encantadora,
(Auras, podeis falar, ela desperta agora!,
Titânia, a loira, acorda e, horror! da estranha planta
Graças ao succo estranho, ao poder que a quebranta,
Olha em roda e atro amor domina-a num momento,
Vendo, pasma a encarar-a, a face de um jumento.
Beijos que ela lhe dá, num sôfrego carinho,
Flores de que lhe adorna o túmido focinho,
Confissões que lhe faz, vozes que lhe murmura,
Os pellos a alisar-lhe á tesa orelha escura,
Tudo é verdade induz de que um momento chega
Em que ao monstro mais vil o ser melhor se entrega,
Para os olhos, mais tarde, ao que sonhou rolvendo,
Fitar com asco e pavor seu pesadelo horrendo.


OLIVEIRA, Alberto de. “O sonho de Titania”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 256.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)