Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

 Raimundo Correa (1859-1911)


Marca d'água

Pesadelo

 


PENETRO a estância fúnebre e sombria,
Extremo leito da mulher amada;
E ergo a loisa, que a cobre — despojada
De toda a graça ideal, que a revestia:

Da belleza, onde um casto amor sorria,
Pudica e doce, nada resta, nada!
Nua de carnes, só a branca ossada,
Que apalpo e sinto fria, fria, fria...

E, o sono seu eterno interrompendo,
Clamo... Da noite o vento álgido corta,
Cai neve e é gélido o esplendor da lua...

Então, a erguer-se, pávida, tremendo
De frio e com pudor, me diz a morta:
Cobre-me! Há tanto frio e estou tão nua!


CORREIA, Raimundo. “Pesadelo”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 177.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)