Vinicius de Moraes (1913-1980)
Soneto de um casamento
Na sala de luz lívida, sorriam
Sombras imóveis; e outras lacrimosas
Perseguiam lembranças dolorosas
Na exaltação das flores que morriam.
Em vácuos de perfume, descaíam
Diáfanos, de diáfanas mãos piedosas
Fátuos sons de brilhantes que fremiam
Entre a crepitação lenta das rosas.
Nas taças cheias acendiam círios
Votivos, e entre as taças e entre os lírios
Vozes veladas, nessa mesa posta
Velavam... enquanto plácida e perdida
Irreal e longínqua como a vida
Toda de branco perpassava a Morta.
02.05.1938
MORAES, Vinicius de. “Soneto de um casamento”.In: Poesias coligidas In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 349.
Uma mulher no meio do mar
(Sobre um desenho original de Almir Castro)
Na praia batida de vento a voz entrecontada chama
Dentro da noite amarga a grande lua está contigo e está com ela – pousa o
(teu rosto sobre a areia!
A tua lágrima de homem ficará correndo sobre o teu corpo dormindo e te
(levará boiando
E talvez a tua mão inerme encontre a sua mão cheia de frio
Tudo está sozinho e o supremo abandono pousou sobre o corpo nu da que
(deixaste ir
A onda solitária é o berço do amor e há uma música eterna nas formas
(invisíveis
Passa o teu braço sobre o que foi o triste destroço de um outro mar bem
(mais revolto
E sentirás que nunca o pobre corpo foi mais flexuoso ao teu afago nem o
(olhar mais aberto ao teu desejo.
Afaga os seios que os seus beijos poluíram e que a água amante fez altos e
(serenos
Mergulha os dedos pela última vez na úmida cabeleira espessa que se vai
(abrir como as medusas
Porque também a lua vive a vez derradeira a visão escrava
Porque nunca mais também os olhos que estão parados te mostrarão o céu
E as linhas que vês desfeitas já pesam como que para o descanso do fundo
(que não atingirás.
Não sentes que é preciso que ela vá, vá dar morada às algas que lhe cobrirão
(amorosamente o corpo
Para fugir de ti que o cobrias apenas com a ardência imutável do teu desejo?
Oh, o amor que abre os braços à piedade!…
Rio de Janeiro, 1935
Nessa sala perdida na Inglaterra
Nessa sala perdida na Inglaterra
Vivo entre coisas mortas, vivo e mudo
Poeta louco e triste, eu te saúdo
No teu quarto de século na terra
Não te valha essa máscara de estudo
Nem te sirva essa máscara de guerra
Valha-te essa tristeza que te aterra
E essa loucura que em tua alma é tudo
Mova-te o sangue que em teu ser lateja
Leve-te o estro lúcido e distante
Que consomes nos copos de cerveja
Leve-te a vida ao bem da tua amante
E a morte, que do túmulo te beija
Viva-te como um momento deste instante.
Oxford, 19.10.1938
MORAES, Vinicius de. “Nessa sala perdida na Inglaterra”.In: Poesias coligidas In: Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 349.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)