Gilka Machado (1893-1980)
Sem título
Numa nuvem de renda,
Musa, tal como a Salomé da lenda,
na fôrma núa
que se ostenta é estúa,
— sacerdotiza audaz —
para o Amor de que és preza,
rasgando véos.de sonho, rd.ançarás
nesse templo pagão da Natureza!
Dançarás por amor das cousas e dos seres,
e por amor do Amor
tua dança dirá renuncias e quereres;
faze com que desfira
tua lyra
gargalhadas de gôso e lamentos de dôr,
e possas em teu rythmo recompor
tudo que viste extatica, sorpresa,
e a imprevista belleza,
a belleza incorporea
dos perfumes e sons indefinidos
de tudo que te andou pelos sentidos,
de tudo que conservas na memória.
Dize da Natureza em que á luz vièste,"
dize dos seus painéis encantadores,
dize da pompa/ do esplendor celeste
das suas noutes; dos seus dias,
e animisa com teus espasmos e agonias
as expressões com que a expressando fores.
Alma de pomba,- corpo de serpente,
enche de adejos
e rastejos
teu ambiente,
caiam em torno a ti pedras ou flores
de uma contemplativa multidão::
de lisonjeiros e de malfeitores
cheias as sendas da existência estão.
Toda de risos tua bocca enfeita
quando te surja um ser sincero, irmão;
e sejas sempre pura, espelhante, perfeita,
na verdade da tua imperfeição.
Musa satânica e divina
ó minha Musa sobrenatural,
em cujas emoções, igualmente, culmina
a sedução do Bem, a tentação do Mal!
em teus meneios languidos' ou lestos
expõe ao Mundo que te espia
que assim como ha na Dança a poesia dos gestos,
ha nos versos a dança da Poesia.
Dança para esse gôso,
o grande gôso maternal
da Terra,
que te fez sem egual,
e, envaidecida,
em seu amor te encerra,
amando em ti a sua própria vida,
sua vida carnal
e espiritual.
Torce e destorce o ser flexuoso
e estoso
ó Musa emocional!
maneja os versos
de .maneira tfal
que elles se fiquem pelos séculos dispersos,
com os rythmos da existência universal.
E a dançar,
a dançar,
num delicioso sacrifício, t
patenteia a nudez desse teu ser puniceo
ante o sereno altar
do deus que te domina.
Que importa a injuria hostil de quem te não compirehenda?
dança, porém, não como a Salomé da lenda,
a lyrica assassina:
dança de um modo vivificador;
dança de todo núa,
mas que seja a nudez sensual da dança tua
a immorfcalização do teu glorioso Amor!
MACHADO, Gilka. “Sem título”. In: Mulher Nua. Rio de Janeiro, 1922, p. 15.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)