Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Raimundo Correa (1859-1911)


Marca d'água

A Victor Hugo

 


A musa heroica, enquanto a heroica lança,
Em cólera, archangelica e fulgente,
Brande, e de encontro aos déspotas avança
Pé a pé, peito a peito e frente a frente,

Acolhe o nú, o mísero, o indigente
Sob a roupa talar da esparsa trança...
Muza ! Para o inclemente, és inclemente;
Mas para o manso e bom, és boa e mansa!

Como a Jersey do exílio, ilha, em catervas
Rolam-te aos pés os vagalhões marinhos...
Mas no teu verde topo brotam hervas,

O musgo cresce e se entrelaçam ninhos;
E um pouco de água doce ahi reservas
Para lenir a sede aos passarinhos...

Maio, 83.


CORREIA, Raimundo. “A Victor Hugo”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 155.

 


Marca d'água

Divagando

 


Inspira-nos a mesma ardente musa,
A mesma ardente musa nos desperta
As almas, à luz tibia, á luz incerta
Na alva da vida pallida e confusa ,

E cilas, como do aspecto de Medusa,
Da realidade de ilusões deserta
Focem, se a minha mão a tua aperta,
Se meu olhar com teu olhar se cruza.

Como às regiões do mar inabitadas,
Voam duas gentis, Cândidas velas ;
Assim vão nossas almas enlaçadas

Pelas soidões dos céus, lúcidas, bellas,
Profundas e serenas, povoadas
Do archipelago infindo das estrelas...


CORREIA, Raimundo. “Divagando”. In: Symphonias. Rio de Janeiro; Typ. de Fernandes, Ribeiro & C., 1883, p. 121.

 


Marca d'água

Horacio Flacco

 


Julgo eu que, em tua sábia e conselheira
Musa, mais invejável é... (não digo,
Que o dom de até no ardor, provecto amigo,
Ser sempre a mesma: — sóbria e verdadeira;

Nem digo que esse engenho e essa maneira
Com que ella, das virtudes o áureo trigo
Ceifado ao campo do bom senso antigo.
Pingue, abastoso e ubérrimo, joeira...)

Mais invejável digo que é, e o julgo,
A sciencia não vulgar de, em companhia
Delia, e olvidado do profano vulgo,

Dentro em ti mesmo, achares essa pura
Paz de espírito e essa íntima alegria,
Que debalde entre os homens se procura.


CORREIA, Raimundo. “Horacio Flacco”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 169.

 


Marca d'água

Musa da Morte

 

(Sobre a morte de Gonçalves Crespo)


Da Morte a mão plutônica e maldita
A Proserpina bela colhe; e ao fundo
Do negro abismo, onde o clamor do mundo
Não chega, eil-a a descer.. Treva infinita !

Cahos ! Horror ! E eil-a attonita, eil-a aflicta,
Alma errante no Tártaro infecundo,
Em cujos prainos, a escoar, profundo,
O Danúbio infernal se precipita.

D'esse áureo plectro vede as cordas frouxas!
E, na testa, que a morte transfigura,
Vede essa coroa de perpétuas roxas !

Sulca o rio tartáreo. . . E ouvis ? Que mágoas
Profundas, longas, a chorar, mistura
Ao longo choro das profundas águas !..

Junho, 83.


CORREIA, Raimundo. “Musa da Morte”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 181.

 


Marca d'água

Nua e Crua

 


DOIRE a Poesia a escura realidade
E a mim a encubra! Um visionário ardente
Quiz vel-a nua um dia; e, ousadamente,
Do áureo manto despoja a divindade;

O estigma da perpétua mocidade
Tira-lhe e as galas; e eil-a, de repente,
Inteiramente nua e inteiramente
Crua, como a Verdade! E era a Verdade!

Fifa-a, em seguida, e attonito recua...
- O Musa! exclama então, magoado e triste,
Traja de novo a louçainha tua!

Veste outra vez as roupas que despiste!
Que olhar se apraz em ver-te assim tão nua?
À nudez da Verdade quem resiste?!


CORREIA, Raimundo. “Nua e Crua”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 234.

 


Marca d'água

Ode Parnasiana

 


De cyprio mosto cheia
A taça erguida. Cogitabunda Musa,
Fuge os pesares. Eia!
D'esta alma a flamina viva fala, e enaltece-a!
Insuffla-me o estro; e, á minha vista illusa,
As pristinas grandezas patenteia
Da celebrada Grécia!

Musa, a Grécia, como antes
Do último heleno, dá que eu sonhe agora!
Pátria do gênio ousado; de gigantes
Berço de oiro e de luz; Grécia immortal!

Ria-nos, Musa, o mundo hodierno, embora;
Em rapto audaz, nas rémiges possantes,
Transporta o meu ideal!

Mas, não; voa serena!
Longe da turba egoísta, que os meus gozos
Afelea e envenena.
Leva-me a um doce e plácido recesso;
Como a Banville e a Mendes, gloriosos,
Levaste, além do inquieto e ovante Sena,
às margens do Perniesso!

Voa, serena! A pista
Do casquilho de Samos seguir deves.
De safira, esmeralda, ambre, ametista
E murice orna o olimpio painel.
A harpa acrisola só no amor; e, em leves
Tintas, menos incômodas à vista,
Mergulha o teu pincel!

Do gesto ameno e brando,
Faze que, sem amarujentos travos,
Borbote e, gurgulhando,
Mane a poesia — fonte dara e pura;
Quaes, na bocca de Píndaro, os seus favos
Mellisonas abelhas fabricando,
A encheram de doçura.
Crôa a jucunda fronte
De mirto e rosas, que eu assim te quero,

E amo inda mais, Musa de Anacreonte!
Pulsar, em márcio, horríssono arrabil,
Cordas de bronze, é para as mãos de Homero;
A ti, de Erato coube a lira insonte
E a avena pastoril.

Fuge a cruenta pompa
De Belona, em que as fúrias tresvariem;
Trôe e retrôe a trompa
Belicosa; num som ríspido e agudo,
As disparadas frechas assobiem...
O atro tambor em roucos rufos rompa...
E Marte embrace o escudo!...

Na lympha crystallina
De Acidalia, onde immerge as formas nuas,
Com as irmãs, a candida Euphrosyne,
Tempera a voz... Tu, Musa, que, ao sabor
De Teos, tão docilmente os tons graduais,
Então antes, na cithara argentina,
A mocidade e o amor!

Sobe o Menalo, extranho
As guerras; onde Pan, os tentadores
Contornos, vê no banho,
Da esquiva nympha, e a rude frauta inventa;

Cuja uberrima falda bróslam flores;
E onde o zagal arcadio alvo rebanho
E os olhos apascenta.

Olha: de cada gruta
A boca, esvelta dryade sorri-se...
Estralam gargalhadas no ar, escuta:
Dentre elas a de um fauno sobresáe;
É Sileno, e na eterna bebedice,
Deixa cahir no chão a taça enxuta,
E, temulento, cai...

E Baccho; eil-o assentado
Sobre um tonei; eil-o a empunhar virente
Thyrso todo enramado
De cachos de uvas, de parreiras e heras;
E eil-o a voltar das índias, novamente,

No molle coche triumphal tirado
Por linces e panteras...
Phebo, ao clarão do dia,
Já visível nos torna a roxa face,
E a esplêndida quadriga luzidia
O Zodíaco em fogo a percorrer...
A solidão povôa-se. Desfaz-se
A névoa, que as pupillas me cobria;
Abro-as, começo a ver!

Penetro o sumptuoso
Templo de Pafos, onde o culto é menos
Arcano e mysterioso,
Que esse, que a Ceres íributára Eleusis;
E onde, ao cúpido olhar do amante, Vênus
Desnúa o lácteo collo delicioso,
— Branco manjar dos deuses.

Na ave, na flor, na planta,
E em tudo, ó Musa, a alma paga respiras!
Lembre-te um corço a alípede Atalanta;
Faça-te a linda anémone lembrar
O filho incestuoso de Cinyras;
E Leda — o fallaz cysne, que levanta
A nivea pluma ao ar…

A ti não são defesos
Assumptos taes, eróticos assumptos.
Canta; e, em perlas, acessos.
Musa, os dois olhos no Passado fita!
Como Castor e Pollux, sempre juntos,
São dois planetas mais, cravados, presos
Na abobada infinita…

Moteje embora o mundo!
Ria-nos essa turba ímpia e nojosa.
Sobre a qual cuspo o meu desdém profundo;
Misera e vil, curvada aos pés de um rei!
Vil e ínisera, sim; que ela não goza
Da embriaguez divina, que há no fundo
Da taça, que emborquei.


CORREIA, Raimundo. “Ode Parnasiana”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 39.

 


Marca d'água

Sobre as Manhãs do Estio

 

(Á Memória do poeta Jorge Rodrigues)


AQUELE, cujo espírito arrombado,
— Condor fechado por ignota setta —
Ala-se, à fria luz dormente e quieta
Das estrellas, ao ninho azul sonhado ;

Tu, Musa de ar excêntrico e magoado,
Não lhe apparelhas, tu, Musa do poeta,
Um thalamo entre rosas ; mas, discreta,
Entre goivos o túmulo ignorado...

D'essas manhãs, irônica e funesta,
Flores da juventude e da alegria
Tu semeaste, entre as risonhas galas;

Mas do vento, que, na harpa da floresta,
Guaia e soluça, antes do fim do dia,
Veio o primeiro sopro desfolhar-as.

Setembro, 86.


CORREIA, Raimundo. “Sobre as Manhãs do Estio”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 187.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)