Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Mário de Andrade (1893-1945)

 

Camafeu

 


Já de púrpura e zarcão
Tonalizando-se vão
Moitas, bosquetes e grama,
Uma dríada outras chama

E passam em tropelias
As nudezas alvadias
De loiras ninfas em bando
Galopando.

Pelos relvados oblongos,
De mãos unidas em longos
Cordões, hílares, ovantes,
Elas bailam palpitantes

Os calínicos sensuais.
Animam-se mais e mais,
Helecimente incautas,
Ao ziar das flautas.


ANDRADE, Mário de. “Camafeu”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 81.

 

Écloga

 

(Imitado de Alberto de Oliveira)


Tirsis, enquanto Melibeu procura
Esgarrado caprídeo, sonolento
Deita-se à sombra de pinhal e o vento
Escuta, olhando os cirros pela altura.

Chega porém das vargens Nise pura,
Que o tem preso a seus pés, e ele, sedento
De amor, mais o de sonhos lesto armento
Guarda, que esse, de capros, na planura.

Passa-lhe a ninfa ao lado. Ele então muda
O olhar para essa frol de primavera,
E diz, vendo-lhe os lábios e o regaço:

– Ai, se eu pusesse, em vez de à frauta ruda,
Minha boca na tua, não tivera
Então escuro o engenho, e o corpo lasso.


ANDRADE, Mário de. “Écloga”. In: Poesias inéditas e esparsas. In: Poesias completas. Organização de Tatiana Longo Figueiredo e Telê Ancona Lopez. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013, v. 2, p. 83.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)
Revisão de Thais Regina Ribeiro Neves (PIBIC/UFPA)