Alberto de Oliveira (1859-1937)
Aphrodita
Móvel, festivo, trépido, arrolando,
A clara voz, talvez, da turba iriada
Das sereias de cauda prateada,
Que vão com o vento os carmes concertando,
O mar, — turquesa enorme, iluminada,
Era, ao clamor das águas, murmurando,
Como um bosque pagão de deuses, quando
Rompeu no oriente o pálio da alvorada.
As estrellas clarearam repentinas,
E logo as vagas são no verde plano
Tocadas de ouro e irradiações divinas;
O oceano estremece, abrem-se as brumas,
E ela aparece nua, á flôr do oceano,
Coroada de um círculo de espumas.
II
Cabello errante e louro, a pedraria
Do olhar faiscando, o mármore luzindo
Colorido do peito, — nua e fria,
Ela é a filha do mar, que vem sorrindo.
Embalaram-n'a as vagas, retinindo,
Ressoantes de pérolas, — sorria
De vêl-a o golfo, se ela adormecia
Das grutas de âmbar no recesso infindo.
Vêde-a: veio do abismo! Em roda, em pelo
Nas águas, cavalgando onda por onda
Todo o mar, surge um povo estranho e belo;
Vém a saudar-a todos, revoando,
Golfinhos e tritões, em larga ronda,
Pelos recursos búzios assoprando.
III
Clytia, quando tu vens e a mão nervosa,
Fino alabastro, as roupas te desata,
E nua surges e entras n'água, ansiosa,
Dando às vagas o colo que arrebata;
Não sei, mulher, que amor que abrasa e mata
É este, ao ver-te a forma primorosa,
Que em suas linhas nítidas retrata
Mármore polido de pagan formosa.
Mas quando o corpo escultural, perfeito,
Molhas na vaga e a coma te fluctua,
Como em doudo pulsar me estala o peito!
Tremo de zelos e o meu ser recua
Vendo-te, e vendo o mar que vem desfeito
Lavar-te em beijos, Aphrodita nua.
OLIVEIRA, Alberto de. “Aphrodita”. In: Poesias. Rio de Janeiro, 1900, p. 26.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)