Henriqueta Lisboa (1901-1985)
Brinquedo
Desde o principio foi brinquedo: amigo, amiga...
E eu te contei os meus segredos um por um.
Tu, que trazes no olhar tanta lembrança antiga,
não contaste nenhum.
Quando das crianças nos rodeou, curioso, o bando,
tu estavas sorrindo, eu estava chorando…
Para os meus olhos enxugar disseste: "Vem!
Tu, que és boneca, sobe aos ombros do gigante!
Vamos num sonho por ahi além,
ao luar, em busca de um país distante."
Voltei sozinha pela escuridão.
Quando quis regressar, nem me estendeste a mão.
Veio depois a cabra-cega. A toda a gente
para tanger teu vulto esquivo abri meus braços.
Tua voz desnorteava. E quedei, finalmente,
sem saber de onde vinha o rumor dos teus passos.
Quando de novo ao sol pude levar os olhos,
em tudo quanto punha o olhar só via escolhos.
Mais tarde então foi a ciranda: -"Sou o vento!
E's a roseira mais formosa para mim.
Si rodopiasses, que deslumbramento!"
E o dia inteiro rodopiei no meu jardim.
Quando a noite baixou, estirada na alfombra,
da roseira que eu fora, era apenas a sombra.
Queres agora por um anel no meu dedo.
Não sei si digo sim ou não... talvez...
Mas afinal é simples o brinquedo.
Quem sabe si vou ser mais feliz desta vez?!
LISBOA, Henriqueta. “Brinquedo”. In: Enternecimento (Versos). Rio de Janeiro: Empreza Graphica Editora - Paulo Pongetti & Cia, 1920, p. 29.
Infância
E volta sempre a infância
com suas íntimas, fundas amarguras.
Oh! por que não esquecer
as amarguras
e somente lembrar o que foi suave
ao nosso coração de seis anos?
A misteriosa infância
ficou naquele quarto em desordem,
nos soluços de nossa mãe
junto ao leito onde arqueja uma criança;
nos sobrecenhos de nosso pai
examinando o termômetro: a febre subiu;
e no beijo de despedida à irmăzinha
à hora mais fria da madrugada.
A infância melancólica
ficou naqueles longos dias iguais,
a olhar o rio no quintal horas inteiras,
a ouvir o gemido dos bambús verde-negros
em luta sempre contra as ventanias!
A infância inquieta
ficou no medo da noite
quando a lamparina vacilava mortiça
e ao derredor tudo crescia escuro, escuro…
A menininha ríspida
nunca disse a ninguém que tỉnha mêdo,
porém Deus sabe como seu coração batia no escuro,
Deus sabe como seu coração ficou para sempre diante da vida
- batendo, batendo assombrado!
LISBOA, Henriqueta. “Infância”. In: Prisioneira da noite. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S/A, 1941, p. 15.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Colaboração: Literatura e sociedade: releitura de vozes plurais (Projeto Universal/CNPQ)
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPQ/Universal)