Inês Sabino (1853-1911)
A Joia
Me lembro!.. foi á noite,
Em uma larga rua, nela se agrupavam
A's portas de uma loja, em extasis, crianças
Mirando as bellas joias, que acolá brilhavam.
Por entre aquela turba,
Que a vida sorria ante o fulgir do ouro,
Eu vi uma criança, angelical, serena,
De aspecto pobre e nu, pasmada ante o thesouro!
Pobre, infeliz menina,
As vestes eram feias; mas, no olhar se lia
A innocencia chã, com mansidão dos anjos
Nessa doce expressão que a paz a revestia!
Aponta avidamente
E diz :— “Oh mãe, eu quero aquela volta bela,
Que luz tão resplendente, eu vejo outras meninas
Ter brincos, e pulseira, e voltas, como aquela...”
Responde a mãe sorrindo;
“Sou pobre... a joia é cara... e uma pois, ofereço
E’ minha benção santa, os puros, castos beijos,
Que valem mil thesouros, pois que não têm preço.”
Repete-lhe a filhinha:
— “Pois bem!.. me dá um beijo, que eu agradecida
Em recompensa, eu dou, oh terna amiga santa,
O meu affecto extremo, e esfalma embevecida.”
SABINO, Inês. “A Joia”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 39.
À Alice
Oh pequenina flor! meu lyrio tremulante,
Sobre esta folha aqui, vaes ter o teu quinhão,
Tu és a harpa eolia, o canto dominante,
Que vibra no meu peito e acalma o coração.
Tu és um anjo ainda!... a tua vida é pura,
E’ branda como o lago, em ondas de cristal,
E que te não mareie a atmosphera impura
Dos átomos da vida o riso virginal!
O riso da infância é belo como os astros,
Sereno como o céu... suave como Deus!
Feliz quem livre o tem dos traiçoeiros rastros,
E lhe disputa a posse dos arcanos seus,
SABINO, Inês. “À Alice”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 23.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)