Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Auta de Souza (1876-1901)


Marca d'água

Agonia do coração

 

A Maria Carolina de Vasconcelos


Estrelas fulgem da noite em meio
Lembrando círios louros a arder...
E eu tenho a treva dentro do seio...
Astros! Velai-vos, que eu vou morrer!

Ao longo cantam. São almas puras
Cantando a hóra do adormecer...
E o eco triste sobe às alturas...
Moças! Não cantem, que eu vou morrer!

Pássaros tremem no ninho santo
Pedindo a graça do alvorecer...
Enquanto eu parto desfeita em pranto...
Aves! Suspirem que eu vou morrer!

De lá do campo cheio de rosas
Vem um perfume de entontecer...
Meu Deus! Que mágoas tão dolorosas...
Flores! Fechai-vos, que eu vou morrer!


SOUZA, Auta de. “Agonia do coração”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 83.

 


Marca d'água

Feliz

Diz-me que a ventura te foi dada
E contente tu'alma jamais chora:
Vives sorrindo à luz de uma alvorada
E a noite parati é cor da aurora…

Não creio nessa dita, me perdoa.
Ninguém na terra pode ser feliz,
Até o sino que na terra soa
Tem sua dor, nem sempre ele bendiz.

Longe... Distante... Pelo azul chalrando,
A modular uns hinos tão suaves,
Pássaros meigos lá se vão cantando...
Mas tu crês na ventura dessas aves?

Repara bem naquela que ficou
Pousada lá no cimo da aroeira:
Ela chora, coitada, pois deixou
Muito longe perdida a companheira.

Aves da terra, em tímidos adejos,
Também alegres como as rolas mansas,
Rostos corados, rescendendo beijos,
Correm cantando grupos de crianças.

E enquanto passa, em revoada louca,
Este dourado batalhão de arcanjos,
Eu quero ouvir-te da risonha boca
Se é eterna a aventura desses anjos.

A moça também sofre:.. um áureo cofre
Guarda-lhe os prantos e o martírio duro,
E, de todas, aquela que mais sofre
É a que tem o coração mais puro.

Jardim 1893


SOUZA, Auta de. “Feliz”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 224.

 


Marca d'água

Flor do Campo

 

A meu irmão Eloy


Moça ingênua e formosa,
Ó doce filha do sertão agreste!
O teu olhar celeste
Tem o fulgor da noite luminosa,

Guarda a mesma doçura
O mesmo encanto feito de esperanças
Dos olhos das crianças,
Ninho de sonho e ninho de ternura.

A luz do Paraíso,
Quando a Alegria tua boca enflora,
Resplende como a aurora
Na graça-virginal de um teu sorriso.

És inocente e boa
Como a quimera que em teu seio canta
Tens a beleza santa
Da pomba amiga que no Espaço voa.

Jamais alguém te disse
Que tens o rosto branco como o gelo,
A Noite no cabelo
E o sorriso tão cheio de meiguice.

Por isso ainda é mais bela
A tua fronte cândida e tranquila,
E o fogo que cintila
No teu olhar é como o de uma estrela

Angélica é suave,
É tua voz que as almas adormece,
Um ciciar de prece,
Embalando a saudade de alguma ave.

Hoje tu'alma ignora
Toda a magia deste rosto puro;
Mas, olha, no futuro
Lembrar-te-ás do que não vês agora,

E então, com que saudade
Recordarás esse passado morto
Em triste desconforto,
Chorando os sonhos da primeira idade.

Ó lindo malmequer,
Anjo que vives a sonhar com Deus...
Pje os olhos nos meus é
Ouve bem séria o que te vou dizer;

Um dia, talvez cedo,
Teu coração palpitará inquieto
E transbordando afeto,
Há de afagar um íntimo segredo.

Para tu'alma honesta
Ó Céu inteiro, iluminado, ó flor!
Com a luz de um puro amor
Há de brilhar como uma Igreja em festa.

E assim, risonha é calma,
Conduzirá ao porto da aliança,
Na barca da Esperança,
Como um troféu, o noivo de tu'alma.

E Deus há de baixar
Sobre estas duas mãos que o padre estreita,
A bênção mais perfeita,
O seu mais doce e mais divino olhar.

Feliz, muito feliz,
A tua vida correrá de manso
No plácido remanso
De quem adora o Céu e o Céu Bendiz.

Depois, do Paraíso,
Jesus há de enviar-te uma filhinha,
Formosa criancinha
Que embalarás cantando num sorriso.

Ela há de ser bonita
E boa como tu, anjo terrestre,
Ó linda flor silvestre,
Minha singela e casta margarida!

E após anos e anos,
Quando ela ficar moça e no teu rosto,
A sombra do sol-posto
For desdobrando o manto dos enganos,

Num dia de verão,
Sentado à porta, à hora do descanso
Sorrindo bem de manso,
Há de dizer, pegando-te na mão,

O velho esposo amigo:
— Repara como é linda a nossa filha!
Seu riso como brilha!
Eras assim quando casei contigo.

E tu hás de evocar,
Entre saudades trêmulas e ais,
Aquele tempo que não volta mais!

E no gracioso olhar
De tua filha os olhos mergulhando,
Deixarás a tu'alma ir Autuando

Sobre a onda bendita
Daquele mar puríssimo e dolente…

E, então, murmurarás saudosamente:
Ah! Como fui bonita!

Alto da Saudade


SOUZA, Auta de. “Flor do Campo”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 164.

 


Marca d'água

Hoje

Fiz anos hoje... Quero ver agora
Se este sofrer que me atormenta tanto
Me não deixa lembrar a paz, o encanto,
A doce luz de meu viver de outrora.

Tão moça e mártir! Não conheço aurora,
Foge-me a vida no correr do pranto,
Bem como a nota de choroso canto,
Que a noite leva pelo espaço em fora.

Minh'alma voa aos sonhos do passado,
Em busca sempre desse ninho amado
Onde pousava cheio de alegria.

Mas, de repente, num pavor de morte,
Sente cortar-lhe o voo à mão da sorte...
Minha ventura só durou um dia.

12 de setembro de 1894


SOUZA, Auta de. “Hoje”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 229.

 


Marca d'água

Morena

Ó Moça faceira,
Dos olhos escuros,
Tão lindos, tão puros;
Qual noite fagueira!

Criança morena,
Teus olhos rasgados
São céus estrelados
Em noite serena!

Que doces encantos,
No brilho fulgente,
No-brilho dolente
De teus olhos santos!

E eu vivo adorando,
Meu anjo formoso,
O brilho radioso
Que vão derramando,

Em chamas serenas,
Tão mansas e puras,
Teus olhos escuros,
Ó flor das morenas!


SOUZA, Auta de. “Morena”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 79.

 


Marca d'água

Tudo Passa

I

Aquela moça graciosa e bela
Que passa sempre de vestido escuro
E traz nos lábios um sorriso puro,
Triste e formoso como os olhos dela…

Diz que sua alma tímida e singela
Já não tem coração: que o mundo impuro
Para sempre o matou... é o seu futuro
Foi-se num sonho, desmaiada estrela.

Ela não sabe que o desgosto passa
Nem que do orvalho a abençoada graça
Faz reviver a planta que emurchece.

Flávia! Nas almas juvenis, formosas,
Berço sagrado de jasmins e rosas,
O coração não morre: ele adormece…

II

O coração não morre: ele adormece...
E antes morresse o coração traído,
Mulher que choras teu amor perdido,
Amor primeiro que não mais se esquece!

Quando tu vais rezar, quando anoitece,
Beijas as contas do colar partido;
E o coração num trêmulo gemido
Vem perturbar a paz de tua prece.

Reza baixinho, ó noiva desolada!
E quando, à tarde, pela mesma estrada
Chorando fores esse imenso amor…

Geme de manso, juriti dolente!
Vais acordar o coração doente…
Não o despertes para nova dor.


SOUZA, Auta de. “Tudo passa”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 205.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)