Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Cantos Populares do Brasil (1883)Marca d'água

Balaio

Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do coração ;
Moça que não tem balaio
Bota a costura no chão.
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio do presidente;
Por causa d'este balaio
Já mataram tanta gente!...
Balaio, meu bem, balaio,
Balaio de tapeti;
Por causa d'este balaio
Me degradaram d'aqui.


ROMERO, Sylvio (org.) “Balaio”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 123-123.

 


Marca d'água

Manoel do ó Bernardo

Indo eu para a novena
Na villa da Floresta,
O major Antonio Lucas
Convidou me para a festa.
« Seu major Antonio Lucas,
Como é que eu hei de ir?
Quem anda por terra alheia
Não tem roupa p'ra vestir.
- Dou-te cavallo de sella,
E roupa p'ra te vestir,
Dinheiro para comeres,
Escravo p'ra te servir.
Estava jantando em casa
Um dia bem descansado,
Quando dei fé que chegava
Um cavallo fino sellado:
<<Seu major manda dizer
Que é já tempo do chamado ! >>
Quando sahi de casa
Logo peguei a encontrar,
Era homens e mulheres ...
- <<Vai cantar com Rio-Preto?
É melhor que não vá lá! ... »
Porque se importa esta gente
Da desgraça que commetto?
Hão de ter logo noticia
Que fim levou Rio-Preto.
Quando ganhei lá por dentro
N'aquelle campo mais largo,
O povo que eu encontrava
De mim ficava pasmado:
« Queira Deus este não seja
Manoel do ó Bernard! »
Distante bem quinze leguas
De mim tiveram noticias ;
Ao major Antonio Lucas ·
Quando elle me enxergou,
Botou oclo de arcance :
«Lá vem o meu cantador!»
Quando fui chegando em casa,
Na entrada do terreiro,
Antes de lhe dizer adeus,
Deu-me um abraço primeiro:
-Ora vem cá, ó Bernardo,
Filho ele Deus verdadeiro.
«Seu major Antonio Lucas,
Me mande dar ele cear;
Quero vêr si Rio-Preto
Inda é forte no lugar. »
Elle puxou pelo braço
E mandou botar a ceia;
Eu fiquei agradecido,
Pois estava em terra alheia . .
Ao levantar a toalha,
Puz as mãos para rezar,
Quando chegou um aviso
Que já vinham me chamar.
Eu sabi logo á fresca,
Rio-Preto me fallou.
Não te afastes, Rio-Preto,
A resposta já te dou.
« -Manoel do ó Bernardo,
Olha que já estou previsto,
Segura o botão da calça,
Aqui tens homem na vista.
<<Rio Preto, tu vigia,
Olha que bom não sou, não,
Aperta o botão da calça,
Segura o cós elo calção.
<<- A onça não faz carniça
Que não lhe coma a cabeça,
Nunca vi a cantador
Que por fóra não conheça.
«A pois manda fazer uma
Com seis braças de fundura;
Como é bicho de represa,
Tanto lava como fura.
Quando vim da minha terra
Truce ferro cavador
Para tapar Rio-Preto,
Deixal-o sem sangrador.
<<-Si tapares o meu rio,
Não tapas o meu riacho,
Que eu represo nove leguas,
Botando a parede abaixo.
« Rio-Preto, si tu vires
Eu passear em gangorras,
Si tu vires, não te assustes,
Si te assustares, não corras ;
Si correres, não te assombres;
Si te assombrares, não morras.
Rio-Preto, não me vexo
Para subir a ladeira,
Subo de cócra e de banda,
Subo de toda a maneira;
Até mostro preferencia
Em subil-a na carreira.
« -Manoel do ó Bernardo,
Olha, já me vou cl 'aqui;
Já estou certificado
Que tens o major por ti.
«O fama do Rio-Preto,
Um cabra tão cantador,
Descobriu por bocca propria
Que era atraiçoador.
<<- Manoel do ó Bernardo,
Reza o acto de contrição,
Que viemos te matar,
Não ficas mais vivo, não.
A madrinha da noiva
Foi quem te mandou matar,
Para de outra donzella
Te não ires mais gabar.
<< A madrinha do noivado,
Por ser moça de acção,
Por um elogio tirado
Deu-me a mim um patacão ;
Deu quatro para o meu bolso,
E quatro p'ra minha mão.


ROMERO, Sylvio (org.). “Manoel do Ó Bernardo”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 54.

 


Marca d'água

O boi espacio

Foi garrote, foi capado
No curral da Piedade;
Nunca temeu a vaqueiro,
Nem a vara de ferrão,
Nem o mesmo José de Castro
No cavallo Riachão.
Do chifre do Boi-Espacio
D'elle fez-se uma canôa,
Para embarcar a gente
Do Recife p'ra Lisboa.
Dos olhos do Boi-Espacio
D'elles fez-se uma vidraça

Para espiar as moças
Quando passeiam na praça.
Da cabeça do Boi-Espacio
D'ella se fez um banqueiro
Para retalhar a carne
Da gente do Saboeiro.
O couro do Boi-Espacio,
Tirado por minha mão,
Deu trinta jogos de malas,
Nove pares de surrão.
A rabada do Boi-Espacio,
Tirada por minha mão,
Deu trinta laços de corda,
Nove pares de surrão.
A carne do Boi-Espacio
Botada no estaleiro,
Comeram vinte famílias
De janeiro a janeiro.
O corredor do Boi-Espacio
Deu tamanha corredeira,
Que todo o povo do Crato
Ficou-se de caganeira.
As tripasdo Boi-Espacio
Tiradas por minha mão,
Deu dez cargas de linguiça,
Onze arrobas de sabão.
Do debulho do Boi-Espacio
D'elle se fez barrella,
Para se lavar a roupa
Da gente da Manoela.
Da unha do Boi-Espacio
Quatro obras se formou,
Uma jangada, uma lancha,
Um palacio e um vapor.

Das orelhas do Boi-Espacio
Quatro obras se formou,
Um abano, uma esteira,
Uma maca, um tambor.
Este meu Boi-Espacio
Morava em dois sertãos,
Comia nos Cipoaes,
Bebia nos Caldeirão.
Matei o meu Boi- Espacio
Em uma tarde serena,
Toda a gente da ribeira,
Que não chorou, teve pena:


ROMERO, Sylvio (org.) “O boi espacio”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p.84-85.

 


Marca d'água

O boi surubim

Nasceu um bezerro macho
No curral da Independencia,
Filho de uma vacca mansa
Por nome de Paciencia.

Quando o Surubim nasceu
D'ahi a um mez se ferrou,
Na porteira do curral
Cinco touros enxotou.
Na porteira do curral
Onde o Surubim cavou
Ficou o barreiro tal
Que nunca mais se aterrou.
Na praça da cacimba
Onde o Surubim pisou
Ficou a terra acanhada,
Nunca mais capim creou.
Um rêlho de duas braças,
Que o Surubim amarrou,
Botou-se n'uma balança,
Duas arrobas pesou.
Fui passando n'um sobrado,
Uma moça me chamou:

-Quer vender o Surubim?
Um conto de reis eu dou.
« Guarde o seu dinheiro, dôna,
O Surubim não vendo, não.
-Dou um barco de fazenda,
De chita e madapolão.
<<Este meu boi Surubim
É um corredor de fama,
Tanto elle corre no duro,
Como nas vargens da lama.
Corre dentro, corre fóra,
-Corre dentro na catinga ;
Corre quatro, cinco leguas
Com o suor nunca pinga.
Quando o Surubim morreu,
Silveira poz-se a chorar ;
Boi bonito como este
No sertão não nascerá;
Eu chamava, elle vinha:
- O-lé, ô-lô, ô-lá ...


ROMERO, Sylvio (org.) “O boi surubim”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 98-99.

 


Marca d'água

O calango

Calango fez um sobrado
De vinte e cinco janellas
Para botar moças brancas,
Mulatas côr de canella.

Calango matou um boi,
D' elle não deu a ninguem;
Lagartixa respondeu :
- Calango fez muito bem.
O calango foi á feira
Em traje de gente rica;
Lagartixa respondeu :
- Calango, vossê lá fica
O calango foi á festa
Montado n'uma leitôa ,
Lagartixa respondeu :
- Calango não é pessoa
Calango estava deitado
Na prôa do seu navio,
Lagartixa respondeu:
- Calango, tu és vadio.
Calango sahiu á rua
Montado n'uma perúa;
Lagartixa respondeu:
-Vejo que a tola está núa.
Calango foi convidado
Para ser juiz de paz ;
Lagartixa respondeu :
- Calango, veja o que faz.
Calango foi á Bahia
Com seu barco de feijão ;
Lagartixa respondeu:
- Cada bage é um tostão.
O calango é bicho porco,
N'um folguedo q uiz entrar;
Lagartixa respondeu :
- Calango, vai-.e lavar.
Calango foi convidado
Para ser um presidente;
Lagartixa respondeu :

- Calango, me traz um pente.
Minha gente, venha vêr
Cousa de fazer horror :
Lagartixa de chinelas,
Calango de paletô.


ROMERO, Sylvio (org.) “O calango”. In: Cantos Populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v.1. p. 114.

 


Marca d'água

Oh ciranda, oh ciranda

Oh ciranda, oh cirandinha,
Vamos todos cirandar;
Vamos dar a meia volta,

Volta e meia vamos dar;
Vamos dar a volta inteira,
Cavalleiro, troque o par.
Rua abaixo, rua acima,
Sempre com o chapéo na mão,
Namorando as casadas,
Que as solteiras minhas são.

Aqui estou na vossa porta
Feito um feixinho
de lenha,
Esperando pela resposta
Que da vossa bocca venha.
Caranguejo não é peixe,
Caranguejo peixe é ;
Caranguejo só é peixe
Na vasa o te da mar é.
Dá-ri -rá-Já-lálá-lá.
Dá-ri-rá-lá-lá-lá-lé. ..
Caranguejo só é peixe
Na vasante da maré.

Atirei com o limãosinho
Na mocinha da janella;
Deu no cravo, deu na rosa,
Bateu nos peitnbos d'ella.

Craveiro, dá-me um cravo,
Roseira, dá-me um botão;
Menina, me dá meu beijo
Qu'eu te dou meu coração.

Minha mãi bem que me disse
Que eu não fosse á fonçào,
Qu'eu tinha meu nariz tórto,
Servia de mangação.


ROMERO, Sylvio (org.). “Oh ciranda, oh cirandinha”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 248-249.

 


Marca d'água

Uma moça me pediu

Uma moça me pediu
Um vestido de filó ;
Eu mandei-lhe por resposta:
-Si o couro não é melhor.
Tú-tú-rú-tú-tú
Lá de traz do murundú ...
Teu pai e tua mãi
Que te comam com angú ..


ROMERO, Sylvio (org.). “Uma moça me pediu”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 265.

 


Marca d'água

Xacara de dom Jorge

Dom Jorge se namorava
D'uma mocinha mui bella;
Pois que apanhando servido
Ousou logo de ausentar-se
Em procura d'outra moça
Para com ella casar.
Juliana que d'isto soube,
Pegou logo a chorar,
A mãi lhe perguntou :

-De que choras, minha filha?
«É Dom Jorge, minha mãi,
Que com outra vai casar.
-Bem te disse, Juliana,
Que em homens não te fiasses;
Não era dos primeiros
Que as mulheres enganasse .

- << Deus te salve, Juliana,
No teu sobrado assentada!
«Deus te salve, rei Dom Jorge,
No teu cavallo montado.
Ouvi dizer, rei Dom Jorge,
Que estavas para casar?
-<< É verdade, Juliana,
.Já te vinha desenganar.

« Esperai, rei Dom Jorge,
Deixa eu subir a sobrado;
Deixa buscar um copinho
Que tenho p'ra ti guardado.
-<<Eu lhe peço, Juliana,
Que não haja falsidade ;
Olhe que somos parentes,
Prima minha da minha alma.
<< Eu lhe juro por minha mãi,
Pelo Deus que nos creou,
Que rei Dom Jorge não logra
Esse seu novo amor.
- << Que me deitas, Juliana,
N'este seu copo de vinho?
Estou com as rédeas nas mãos,
Não enxergo meu rucinbo?
Ai, que é do meu paisinho,
Por elle pergunto eu?
Eu morro, é de veneno
Que Juliana me deu.
-Morra, morra o meu filhinho,
Morra contrito com Deus,
Que a morte que te fizeram
EUa quem vinga sou eu.
- <<Valha-me Deus do céo,
Que estou com uma grande dôr;
A maior pena que levo
É não vêr meu novo amor.


ROMERO, Sylvio (org.). “Xacara de dom Jorge”. In: Cantos populares do Brazil. Lisboa: Nova Livraria Internacional, 1883. v. 1. p. 38-39.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Fabrícia Paraíso de Araújo (PIBIC/ UFPA)