II
Ser moça e bela ser, porque é que lhe não basta?
Porque tudo o que tem de fresco e virgem gasta
E destroi? Porque atrás de uma vaga esperança
Fatua, aérea e fugaz, frenética se lança
A voar, a voar?...
Também a borboleta,
Mal rompe a nympha, o estojo abrindo, a vida e inquieta,
As antennas agita, ensaia o voo, adeja;
O finíssimo pó das asas espaneja;
Pouco habituada à luz, a luz logo a embriaga;
Boia do sol na morna e rutilante vaga;
Em grandes doses bebe o azul; tonta, espairece
No ether; vôa em redor; vai e vem; sobe e desce;
Torna a subir e torna a descer; e ora gyra
Contra as correntes do ar; ora, incauta, se atira
Contra o tojo e os sarças; nas púas lancinantes
Em pedaços faz logo as asas scintillantes;
Da tênue escama de ouro os resquícios mesquinhos
Presos lhe vão ficando à ponta dos espinhos;
Uma porção de si deixa por onde passa,
E, enquanto há vida ainda, esvoaça, esvoaça,
Como um leve papel solto à mercê do vento;
Pousa aqui, vôa além, até vir o momento
Em que de todo, enfim, se rasga e dilacera...
O borboleta, pára! O mocidade, espera!
CORREIA, Raimundo. “II”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 8.