Realidade
Em uma longa estrada, em ruas de baunilha,
asseia uma senhora, altiva e descuidosa:
Respira mocidade, é, no pisa vaidosa,
Se envolve em tenue véo, riquíssima escomilha.
Alguém se lhe dirige; é uma velha feia
Coberta com um ló e roupas tristes, frouxas,
Na mão tem um raminho de perpétuas roxas
De envolta a uma foice, que o sorrir mareia!
“Quem és tu, lhe pergunta a dama assoberbada,
Que vens tolher o passo a mim, que rica sou!
Formosa, senhoril, o meu poder não dou
Por cousa alguma, crê, ou nobre, ou invejada.”
—Responde-lhe a velhinha;
—“Eu sou gigante, athleta
Tão grande como o mundo, imenso como Deus!
Ninguém me empata andar, eu vou da terra aos céus,
Osculo o rico e o pobre, esmago tudo quieta!”
— “Quem és tambem: responde!”
— Eu tenho um nome—-a vida!”
—Pois sou maior que tu—a morte, é que me chamo;
Vês?! esta foice prostra, e pelo chão derramo
As flores ideias, a pet'la a mais querida!”
SABINO, Inês. “Realidade”. In: Impressões: Versos. Pernambuco: Typographia Apollo, 1887, p. 71.