Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Jorge de Lima (1893-1953)

 


Marca d'água

Amada vem

 


Amada, deixei a porta aberta para vires.
Plantei árvores longas para te dar sombra.
Apressa-te querida minha,
Fechei os olhos para esperar-te.
Só os abrirei quando chegares,
ó perfeitíssima entre as mulheres.
Fecharei depois a minha porta
para o silêncio de Deus nos envolver.
Amada minha traze a eternidade para nós.
Traze a estrela que me prometeste.
Traze tuas sobrancelhas como asas.
Perdi o paraíso nao t’o posso dar.
Dar-te-ei o sonho em que te geraste:
o começo das águas ern que te vi flutuando.
Vem como estás, vem molhada das fontes.
Vem como estás, recoberta de folhas.
Vem do meu barro amada minha, vern.
Vem virgern através do ternpo, vern.
Vem louca através da ordem, vem.

Vem cantando através da dor, vem.
Vem com o primeiro pecado, vem.

Vem que tu foste gerada para mim.
A porta está aberta, amada vem.


LIMA, Jorge de. “Amada vem”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 332.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)