Alphonsus de Guimaraens (1870-1921)
Antífona
Volvo o rosto para o teu afago,
Vendo o consolo dos teus olhares...
Se propícia para mim que trago
Os olhos mortos de chorar pesares.
A minha Alma, pobre ave que se assusta,
Veio encontrar o derradeiro asilo
No teu olhar de Imperatriz augusta,
Cheio de mar e de céu tranquilo.
Olhos piedosos, palmas de exílios,
Vasos de goivos, macerados vasos!
Venho pousar à sombra dos teus cílios,
Que se fecham sobre dois ocasos.
Volvo o peito para as tuas Dores
E o coração para as Sete Espadas...
Dá-me, Senhora, para os teus louvores
A paz das Almas bem-aventuradas.
Dá-me, Senhora, a unção que nunca morre
Nos pobres lábios de quem espera:
Se propícia para mim, socorre
Quem te adorara, se adorar pudera!
Mas eu, a poeira que o vento espalha,
O homem de carne vil, cheio de assombros,
O esqueleto que busca uma mortalha,
Pedir o manto que te envolve os ombros!
Adorar-te, Senhora, se eu pudesse
Subir tão alto na hora da agonia!
Sê propícia para a minha prece,
Mãe dos aflitos…
Ave, Maria.
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Antífona”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 47.
Coro de Arcanjos para teus ouvidos…
Coro de arcanjos para os teus ouvidos,
As barcarolas com que sonhaste
Gemem no luar desfalecido...
Ah! quantos lírios nelas tombam da haste!
E quantas rosas, quantas,
Por elas desfalecem como Santas!
Pois o luar é formado das mais suaves
Pétalas brancas: ninho
De alvas plumagens de aves
Cheirando a rosmaninho…
E um rosal cheio de harpas: quem ama,
Vendo-o florir de beijos o caminho,
Saudades tem do olhar da sua dama…
E um consolo suavíssimo: quem sofre
Acolhe na alma os raios desmaiados
– Pérolas a cair de um cofre –
Como alívios nunca sonhados.
Feliz de quem, quando nasce,
Recebe por entre frestas
Beijos de lua na face...
Carícias não há como estas.
O luar, que pelo céu mágoas espalha,
É o estendal de sudários: quem morre
Vai pedir-lhe a mortalha
Silenciosa que nos socorre…
E a inefável ternura: o próprio cego,
Tão infeliz que não conhece a lua,
Recebe na alma todo o seu sossego
– Ondas de lago que além flutua.
Não são somente os desgraçados
Que procuram as horas mortas:
Ao luar, felizes sonham noivados...
A lua bate a todas as portas.
E um cemitério cheio de almas,
De hierática dolência...
Todos levam nas mãos as brancas palmas
Que florescem na outra existência.
Doce escombral de ruínas, montão de ossos,
Carinho angelical das noites tristes!
Urna de padre-nossos,
Como estás longe, como perto existes!
Deixa cair sobre a minh’alma ilesa,
Livro de horas e de loas,
As notas brancas da sublime reza
Que em surdina entoas…
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Coro de Arcanjos para teus ouvidos.” In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 72.
Epífona
Nossa Senhora, quando os meus olhos
Semicerrados, já na agonia,
Não mais louvarem os vossos olhos...
Valei-me, Virgem Maria.
Por entre escolhos, por entre sirtes,
Consolai os meus olhos tristes.
Nossa Senhora, quando os meus braços
Não mais se erguerem, já na agonia,
Oh! dai-me o auxílio dos vossos braços...
Valei-me, Virgem Maria.
Por entre escolhos, por entre sirtes,
Auxiliai os meus braços tristes.
Nossa Senhora, quando os meus lábios
Não mais falarem, já na agonia,
Desça o consolo dos vossos lábios...
Valei-me, Virgem Maria.
Por entre escolhos, por entre sirtes,
Consolai os meus lábios tristes.
Nossa Senhora, quando os meus passos
Se transviarem, já na agonia,
Vinde guiar-me com os vossos passos...
Valei-me, Virgem Maria.
Por entre escolhos, por entre sirtes,
Sede guia aos meus passos tristes.
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Epífoma”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 59.
Initium
Ao meu primo Horácio Bernardo Guimarães
Tanta agonia, dores sem causa,
E o olhar num céu invisível posto...
Prantos que tombam sem uma pausa,
Risos que não chegam mais ao rosto...
Noites, passadas de olhos abertos,
Sem nada ver, sem falar, tão mudo...
Alguém que chega, passos incertos,
Alguém que foge, e silêncio em tudo…
Só, perseguido de sombras mortas,
De espectros negros que são tão altos...
Ouvindo múmias forçar as portas,
E esqueletos que me dão assaltos…
Só, na geena deste meu quarto
Cheio de rezas e de luxúria…
Alguém que geme, dores de parto,
– Satã que faz nascer uma fúria…
E ela que vem sobre mim, de braços
Escancarados, a agitar as tetas...
E nuvens de anjos pelos espaços,
Anjos estranhos com as asas pretas…
E o inferno em tudo, por tudo o abismo
Em que se me vai toda a coragem...
“Santa Maria, dá-me o exorcismo
Do teu sorriso, da tua imagem!”
E os pesadelos fogem agora...
Talvez me escute quem se levanta:
É a lua... e a lua é Nossa Senhora,
São dela aquelas cores de Santa
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Initium” In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 10.
Jesus, eu sei que ela morreu. Viceja
Jesus, eu sei que ela morreu. Viceja,
Cheia das rosas pálidas do outono,
A sua cova ao pé de alguma Igreja:
Quero dormir o mesmo eterno sono.
Nada por mim, tudo por ela seja!
Senhor Jesus, meu Santo e meu Patrono,
Dá que em breve a minha Alma humilde a veja,
Junto de ti, na glória do teu Trono.
Dá que a minha Alma a veja, breve, breve,
Dama de honor da tua Mãe sublime,
Vestida de ouro com florões de neve.
Quero outra vez dizer com mágoa tanta:
Santa Teresa de Jesus sorri-me
Naquela suave palidez de Santa.
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Jesus, eu sei que ela morreu. Viceja.” In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 26.
Nossa Senhora encontra-o…se não fora…
Nossa Senhora encontra-o... Se não fora
O eterno sopro que do Céu lhe vinha,
Diante dessa visão contestadora,
Certo caíra a pálida Rainha.
É Ele, o seu Filho amado: a luz que doura
O seu cabelo, é sangue: linha a linha,
É sangue o rosto: e a barba, que entre loura
E negra está, clarões de sangue tinha.
Verga-lhe as Pernas o Madeiro: os braços
A sua Mãe estende-lhe, chorando,
Ante a incerteza dos seus pobres Passos.
Sob irrisórios aparatos régios,
Tudo se apronta para o mais nefando,
Para o mais infernal dos sacrilégios…
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Nossa Senhora encontra-o…se não fora…” In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 54.
Nossa Senhora vai…céu de esperança…
Nossa Senhora vai... Céu de esperança
Coroando-lhe o perfil judaico e fino...
E um raio de ouro que lhe beija a trança
É como um grande resplandor divino.
O seu olhar, tão cheio de ondas, lança
Clarões longínquos de astro vespertino.
Sob a túnica azul uma alva Criança
Chora: é o vagido de Jesus Menino.
Entram no Templo. Um hino do Céu tomba.
Sobre eles paira o Espírito celeste
Na forma etérea de invisível Pomba.
Diz-lhe o velho Simeão: “Por uma Espada,
Já que Ele te foi dado e que O quiseste,
A Alma terás, Senhora, traspassada...”
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Nossa Senhora vai…céu de esperança..” In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 49.
Não quisera sofrer esta agonia
Não quisera sofrer esta agonia
Que a cada instante os dias me acabrunha...
Mas ponho agora, como outrora punha,
Toda a esperança em ti, Virgem Maria.
Osso a osso, dedo a dedo, unha por unha,
Uma tenaz de ferro me crucia.
Sumiram-se, ao clarão da lua fria,
As dúlias e hiperdúlias que eu compunha.
Quem se atreve a jungir ao fogo eterno
A alma que veio da espiral do inferno
Até os lírios do fulgor de Deus?
Jesus! sofra eu pesares sobre-humanos...
Venham-me enganos sobre desenganos,
Mas que inda eu creia nos milagres teus…
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Não quisera sofrer esta agonia”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 134.
O mistério imortal das olheiras de opala…
O mistério imortal das olheiras de opala,
Onde vagueiam a dor dos seus olhos proibidos,
Manda que venham terra e céu para adorá-la...
Morre no seu olhar a vida dos sentidos.
Mesmo calada, quem a vê julga escutá-la,
Pois canta o seu olhar pelos nossos ouvidos.
De que estrela lhe desce a voz? Quando se cala,
Que rumor de orações nos olhos doloridos!
Não existe cá embaixo uma expressão humana
Capaz de definir-lhe o grande olhar tristonho;
E quem a vê, ou sonha uma estátua romana,
Marmoreamente branca, imaculada e fria,
Ou tem por entre o nimbo estrelado do sonho
A áurea Revelação de outra Virgem Maria.
GUIMARAENS, Alphonsus de. “O mistério imortal das olheiras de opala”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 27.
Portas do Céu que dais para a outra vida
Portas do Céu que dais para a outra vida,
Diante de mim, de par em par, abri-vos...
E a oblação da minha Alma entristecida
Chegue ao limiar dos tronos primitivos.
Ermitão que procura a quieta ermida,
Isolada dos mortos e dos vivos,
Evoco a luz da terra prometida...
Falazes sonhos meus contemplativos!
Vagueando pela vastidão cerúlea,
Minha Alma é como um hino que se expanda
Em louvores de sempiterna dúlia…
Exaude, Virgem branca, intemerata,
A fervorosa prece miseranda,
– Rosário que entre os astros se desata…
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Epífona”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 58.
Pálida, de uma palidez sublime…
Pálida, de uma palidez sublime,
E tão sentimental que enleva e espanta:
Santa Teresa de Jesus sorri-me
Naquela suave palidez de Santa.
Há como um luar celeste que a redime
No exílio nosso onde a impureza é tanta:
A religiosa luz de um claustro exprime
O clarão que, cercando-a, se levanta.
E vagueia por ela toda, em suma,
Alguma cousa de além-vida, alguma
Cousa que me é saudosamente triste…
Oh a minha doce, a minha doce amada...
Beija-lhe a branca face macerada
A palidez de quem já não existe.
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Pálida, de uma palidez sublime”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 24.
Virgem Maria
Vós que fostes o angélico dulcedo,
A encher-me o peito de eternal conforto;
Que me mostrastes o divino porto
Onde caminham anjos em segredo;
Que me guiastes às vésperas deste horto,
Onde tremo de frio, e não de medo;
Que hoje triste me vedes (fui tão ledo!),
Pendido à terra como um lírio morto;
Vós, Rainha do Céu, doce Maria,
Sobre mim abaixai os olhos santos,
Cheios da luz da Dolorosa-Via:
Para alívio dos meus pesares tantos,
Dai-me para rezar nesta agonia
O rosário dos vossos próprios prantos!
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Virgem Maria”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 135.
Últimos versos
Na tristeza do céu, na tristeza do mar,
eu vi a lua cintilar.
Como seguia tranquilamente
por entre nuvens divinais!
Seguia tranquilamente
como se fora a minh’Alma,
silente,
calma,
cheia de ais.
A abóbada celeste,
que se reveste
de astros tão belos,
era um país repleto de castelos.
E a alva lua, formosa castelã,
seguia
envolta num sudário alvíssimo de lã,
como se fosse
a mais que pura Virgem Maria…
Lua serena, tão suave e doce,
do meu eterno cismar,
anda dentro de ti a mágoa imensa
do meu olhar!
Vaga dentro de ti a minha crença;
ai! toda a minha fé,
como as nuvens de incenso que vagueiam
por entre as aras de uma Sé...
Como as nuvens de incenso que goleiam
e fogem rapidamente
até o teto das catedrais,
dentro de ti, numa espiral silente,
vão gemendo os meus ais.
Mais uma vez a mágoa imensa
do teu clarão,
veio, tremendo na onda clara e densa,
até meu coração.
E pude ver-te, contemplar-te pude,
como a imagem da virtude
e da pureza,
cheia de luz,
como Santa Teresa
de Jesus!
GUIMARAENS, Alphonsus de. “Últimos versos”. In: Melhores Poemas Alphonsus de Guimaraens. 1 ed. São Paulo: Global Editora, 2013, p. 140.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)