Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Auta de Souza (1876-1901)


Marca d'água

Adoração dos Reis Magos


Jesus sorri. Que ternura,
Que doce favo de luz
Vejo brilhar na candura
De seus dois olhos azuis!

Chegam os Magos. De joelhos,
Cheios de unção e de amor,
Beija o pezinho vermelho
Do pequenino Senhor.

Trazem-lhe mesmo um tesouro
Lembrando glória e tormento:
Caçoilas de incenso é ouro
É a mirra do sofrimento.

Ó reis do Grande Oriente,
Por que lembrastes, então
À mãe do louro inocente
A dor sem fim da Paixão?

Não vedes que a Virgem chora
Olhando a mirra cruel?
É que ela se lembra agora
Da esponja embebida em fel.

Talvez não vísseis o lindo
Bando gentil de pastores
Que o rodearam sorrindo,
Mas só lhe trouxeram flores!


SOUZA, Auta de. “Adoração dos Reis Magos”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 226.

 


Marca d'água

Angelina

 

Brilhante como uma estrela,
Criança e já numa cova
J. Eustachio de Azevedo


Ter doze anos somente
E nesta idade sofrer!
Sonhar um porvir ridente
E nesta aurora morrer!

Eis o que foi-te a existência,
Ó desditosa Angelina!
Doce lírio de inocência,
Pobre floco de neblina.

Como dois botões pequenos,
Duas Hores orvalhadas,
Teus olhos dormem serenos,
Sob as pálpebras cerradas.

Voaste, meiga criança,
Tão feiticeira e mimosa, a
Como um riso de esperança
Como uma folha de rosa.

É triste morrer no fim
De uma manhã de esplendores…
A fronte a ocultar, assim,
Numa grinalda de flores.

E sentir, por entre a dor
Da derradeira agonia,
De mãe um beijo de amor
Roçar a fronte já fria…

Quando num suspiro leve,
Envalma que o corpo encerra,
— como uma pomba de neve
A desprender-se da terra

Num voo suave e franco,
Fugiu para o céu de anil...
Vestiram-te, então, de branco,
Como uma noiva gentil.

No cetíneo caixãozinho,
Mais puro que as alvoradas,
Depuseram seu corpinho,
Entre as cambraias nevadas,

Ai, no funéreo leito,
Toda coberta de tosas,
Tendo cruzadas ao peito
Duas mãozinhas formosas;

Pareces um anjo santo,
Envolto em gélido véu,
Transpondo azulado manto,
Como em procura do Céu.

Eu sigo-te o voo alado,
Pela esfera diamantina,
Ó meu anjo imaculado,
Ó minha santa Angelina!


SOUZA, Auta de. “Angelina”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 63.

 


Marca d'água

De Joelhos

 

À Maria da Glória Pena


Ajoelhada, ó minh'alma, abraçando o madeiro
Em que morreu Jesus, o teu celeste amigo!
A seus pés acharás o pouso derradeiro,
O derradeiro amparo, o derradeiro abrigo.

Ajoelha e soluça... A noite, mãe piedosa,
Te apertar contra o seio e te ensina a rezar...
Balbucia a oração, pequenina e formosa,
Das estrelas do Céu e das ondas do Mar.

Ajoelha e soluça, implorando a alegria,
Que a saudade sem fim do coração te arranca,
E a graça de viver, como a Virgem Maria,
Eternamente pura, eternamente branca

Ajoelha e repete a prece imaculada
Que aprendeste a rezar no tempo de criança;
Deixa a prece subir como uma ária encantada
Se evocando da terra ao País da Esperança.

Ajoelha e soluça... A dúvida, que importa?
Ninguém poderá rir ante uma dor tamanha...
Todos beijam a cruz, toda a descrença é morta
Quando se chega ao pé da sagrada montanha.

De joelhos, minh'alma, ao pé do lenho santo
Em que sofre Jesus a derradeira pena!
Deixa cair-lhe aos pés em gotas O teu pranto...
Que as enxugue no Céu a doce Madalena!

Ajoelha e soluça, implorando a alegria
Que a saudade sem fim do coração te arranca,
Ea graça de viver, como a Virgem Maria,
Eternamente pura, eternamente branca...

Serra de Raiz — fevereiro de 1898


SOUZA, Auta de. “De Joelhos”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 130.

 


Marca d'água

Na Judeia

 

Imitando a transfiguração de G. Crespo


Tinha Jesus no olhar o doce azul dos mares
E no cabelo d’ouro os raios estelares.

No seu sorriso em flor alguma coisa havia
Dos beijos virginais dos lábios de Maria.

Seu passo era tão leve e sua voz tão mansa
Como deve ser leve um sonho de criança.

Ele vinha do Céu dizer ao mundo inteiro:
“Eu sou filho de Deus, Messias verdadeiro”

O povo soluçava ouvindo a voz dolente
Do pálido Jesus, tão doce e tão clemente!

E Maria também, lembrando a profecia
Do velho Simeão, da espada da agonia,

Soluçava de dor fitando os olhos castos
No rosto de seu filho, em seus cabelos bastos.

Mas Jesus, a sorrir, falava à turba imensa,
Silenciosa a escutar, de sua voz suspensa…

E a palavra dela dos seus lábios descia,
Como o pranto sem fim dos olhos de Maria.


SOUZA, Auta de. “Na Judeia”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 75

 


Marca d'água

Na capelinha

Lembrança do colégio

Entrou na igreja sorrindo,
Coberta com um fino véu.
O seu rostinho era lindo
Como o da Virgem do Céu.

Foi ajoelhar-se contrita
Ao pé do sagrado altar.
E, com piedade infinita,
Principiou a rezar.

Um doce sorriso veio
Encher-lhe à boca de luz.
Uniu as mãos sobre o seio,
Fitou os olhos na Cruz.

O que dizia... Alguém pode
Adivinhar o que diz
A prece que o lábio acode
Enquanto a gente é feliz?

Nossa idade, para que
Se reza... (saberei eu?)
A gente reza porque
Também se reza no Céu,

E ela, tão meiga e pura,
Que não conhecia o mal,
E que guardava a ventura
No coração virginal;

Em sua fé de criança
Ingênua e cheia de amor,
Talvez pedisse a esperança
Para os que vivem na dor.

Talvez tivesse gemidos
Para quem vive a chorar,
Para os que vagam perdidos
Nas frias ondas do mar.

E enquanto o lábio querido
Otava piedoso assim,
Do negro olhar comovido
O pranto rolou por fim.

E deslizaram sem calma
Às bagas por sua tez,
No desconsolo de uma alma
Que chora a primeira vez,

Su'alma santa onde moram
A Luz, a Inocência é o Bem,
Pedindo pelos que choram
Foi soluçando também.

E compreendendo o segredo
Daquela doce emoção,
Eu disse baixinho, a medo,
Falando ao meu coração:

Benditos nós que sofremos
Varados por mágoa atroz...
Enquanto assim padecemos
Os anjos pedem por nós.


SOUZA, Auta de. “Na Capelinha”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 90.

 


Marca d'água

No templo


Que suave harmonia
Em tua voz...
Tu roubaste-a, Maria,
Aos rouxinois?

Aqui na igreja santa,
Se vens rezar,
Quanta piedade, quanta!
Trazes no olhar.

Maria como és bela,
Junto a Jesus!
O réu olhar de estrela
Parece luz.

E que doce brancura
Na tua cor...
Tens a pálida alvura
De um lírio em flor.

Junta estas mãos, formosa!
Assim. Assim...
Deixa o lábio de rosa
Pedir por mim.

Vale tanto uma prece,
Dita por ti!
Mas... A noite já desce,
Vamos daqui.

Olha que eu tenho medo,
Da escuridão...
Vamos: termina cedo
Tua oração.


SOUZA, Auta de. “No templo”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 65.

 


Marca d'água

Olhos de Santa

 

À Antônia de Araújo


Cheios de treva e luz, teus olhos têm a cor
Das noites sem luar, ó meu divino amor!
E eu amo tanto a sombra e o brilho doce e puro
Dos grandes olhos teus, ó luz de meu futuro,
Como adora minh’alma os rútilos clarões
Do bando virginal de suas ilusões.

Olha-me sempre e sempre… em teu olhar formoso,
Minha noite e meu sol, ó Querubim piedoso!
Eu quero ver à toa, eu quero ver boiar,
- Como se fosse um lago o teu formoso olhar-
Todo um mundo sem fim de sonhos e quimera,
Lírios desabrochando ao sol da Primavera.

Não vês? É noite, e o Céu nos mostra tanta luz
Que, olhando para cima, eu cuido que Jesus
As estrelas formou de lúridos novelos
Dos raios ideais do sol de seus cabelos…
E assim no teu olhar, doce como um jasmim,
Uma estrela se fez do nosso amor sem fim.
Deixa brilhar a estrela loura e mansa,
Que nos há de guiar à terra da Esperança.


SOUZA, Auta de. “Olhos de Santa”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 100.

 


Marca d'água

Oração da noite


Ajoelhada, ó meu Deus, e as duas mãos unidas,
Olhos fitos na Cruz, imploro a tua graça...
Esconde-me, Jesus! Da treva que esvoaça
Na tristeza e no horror das noites mal dormidas,

Maria! Virgem mãe das almas compungidas,
Sorriso no prazer, conforto na desgraça...
Recolhe essa oração que nos meus lábios passa
Em palavras de fé no teu amor ungidas.

Anjo de minha guarda, ó doce companheiro!
Tu que levas do berço ao porto derradeiro
O híbrido batel de meu sonhar sem fim,

Dá-me o sono que traz o bálsamo ao tormento,
Afoga o coração no mar do esquecimento...
Abre as asas, meu anjo, e estende-as sobre mim.

Macaíba — 3 de abril de 1899


SOUZA, Auta de. “Oração da Noite”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 198.

 


Marca d'água

Pombos mensageiros

 

A Amélia Moura


Foi ontem, minha santa,
À hora do sol-posto:

(Quanta saudade, quanta,
Chorava no meu rosto!)

Transformados em pombas cor de neve,
Entraram-me a cantar pela janela,
“A tua carta delicada e leve
E o beijo amigo que envolveste nela.

Ó que alegria para o coração
Onde a Saudade, sempre em flor, renasce!
A carta leve me pousou na mão
E o beijo amigo acarinhou-me a face.

E então, a- tir, é pomba idolatrada!
Eu transformei meu coração em ninho:
Nele repousa a tua carta amada
E canta o beijo a ária do carinho.

Alto da Saudade, 31 de maio de 1890


SOUZA, Auta de. “Pombos mensageiros”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 189.

 


Marca d'água

Quando eu morrer

 

À Julieta Mascarenhas


Quando eu morrer...
(Quem me dera
que fosse num dia assim,
num dia de primavera
cheirando a cravo e jasmim!)

transformem meu coração
- sacrário azul de esperanças —
num pequenino caixão
para-enterrar as crianças.

De meus olhos façam círios,
de meu sorriso um altar
— cheio de rosas e lírios,
tão doce como o luar-;

E guardem nele, entre flores,
longe; bem longe da terra,
a Virgem santa das Dores
lá da Igrejinha da Serra.

Daquele sonho formoso
que minh'alma tanto adora,
façam o turíbulo piedoso
que incense os pés da Senhora,

E as saudades orvalhadas
- de meu amor triste enleio —
transformem nas sete espadas
de dor que Ela tem no seio..

Se deste repouso santo
Em que meu corpo adormece
Vier perturbar o encanto
O choro de quem padece:
Eu quero as gotas de pranto
Todas mudadas em prece…

Prece que leve, cantando,
Minh'alma ao celeste ninho.
Como um pássaro ruflando
“Às asas brancas de arminho.


SOUZA, Auta de. “Quando eu morrer”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 153.

 


Marca d'água

Regina Coeli

 

À Antonia de Araújo
Tudo o que sobe ao céu, tudo o que desce a terra
Balbucia o teu nome...
LUIZ MURAT


Teu nome santo, ó Maria,
Tem a doçura inocente
De uma carícia macia,
De uma quimera dolente.

Nele se embala a Esperança
N’uma meiguice dileta,
Como no berço a criança,
Como no verso o poeta.

Do céu teu nome nos desce
Numa harmonia divina,
Como um cicio de prece
Nos lábios de uma menina.

Teu nome é cetíneo laço
Prendido em formoso véu,
Qual branca nuvem no espaço,
Qual uma estrela no céu.

Teu nome reflete a imagem
Da melodia serena
Que passa rindo n’aragem
E no voejar da falena.

Uma blandícia suave
Nele cantando divaga,
Como no azul uma ave,
Como no mar uma vaga.

Teu nome, cheiroso lírio,
No níveo cálice encerra
Todo o mistério do Empíreo,
Toda a alegria da Terra.

Como um contraste do encanto,
N’este teu nome diviso
Toda a saudade do pranto
E todo o afago do riso...

Ah! todo o perfume amado,
Toda a fragrância mimosa
Que o colibri namorado
Bebe no seio da rosa;

Toda a pureza do Amor,
Todo o feitiço do olhar,
Orvalho a cair na flor,
Sereno a cair no mar…

Tudo em teu nome palpita,
Tudo embriaga e seduz,
Como a delícia infinita
De um paraíso de luz.

E n’um canto repassado
De lirismo que extasia,
Teu nome vive embalado,
Teu nome santo, ó Maria!


SOUZA, Auta de. “Regina Coeli”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 49.

 


Marca d'água

Sancta Virgo Virginum”


|Ó santa estremecida,
Formosa e imaculada!
Estrela abençoada
Do Céu de minha vida!

Rainha casta e santa
Das virgens do senhor,
Eterno resplendor
Que o mundo inteiro encanta.

Tu és minha alegria,
Meu único sorriso,
Ó flor do paraíso,
Angélica Maria!

Ai! Quantas vezes, quantas!
A minha fronte inclina
Orando a ti, divina,
Ó santa entre as mais santas!

Ó virgem tão serena!
“Tu és meu sonho doce,
Perfume que evolui-se
De um seio de Açucena!

Amada da criatura,
Lança-me estremecido
O teu olhar ungido
De imácula doçura!

'Ó Arco da Aliança,
Celeste é brarico lírio,
Salva-me do martírio,
Senhora da bonança!

Envolve no céu véu
A minha triste sorte,
E mostra-me na morte
A porta de teu Céu!

Nova Cruz — novembro de 1897


SOUZA, Auta de. “Sancta Virgo Virginum ”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 94.

 


Marca d'água

Simbólicas

 

Á Emilia Guerra


Quando Deus criou Além
As estrelas em cardume,
Na terra criou também
As flores, mas sem perfume.

Um dia, ao mundo de abrolhos
A virgem pura desceu,
Com um manto da cor dos olhos
E uns olhos da cor do céu.

No Céu azul de seu manto
Brilhava um astro: Jesus!
E, em seu olhar sacrossanto,
Boiava a inocência, a Luz…

Maria! — os anjos clamaram
A chorar, vendo-a partindo...
Tu levas nossa alegria.”
Mas da terra lhe acenaram
As flores todas, abrindo: “Maria!”

E Ela deixou do Infinito
Os resplandecentes fulgores,
Para acudir ao bendito
Aceno doce das flores.

E teve pena de vê-las
Formosas, mas sem ter brilho:
Olhou sorrindo as estrelas:
Dos cabelos de seu filho...

Ah! Fora Ela que as fizera
Com a graça de seu sorriso,
Num dia de Primavera,
Na glória do Paraíso!

E seus olhos procuraram
Algum oculto tesouro:
“Para as Hores, que faria?
Quando do céu a chamaram
Os anjos todos, em coro:
“Maria!”

la partir... Que lembrança
Podia deixar no campo?
Dera O sorriso à criança,
Estrelas ao pirilampo!

Nos meigos olhos perpassa
Não sei que lampejo doce...
E a virgem, cheia de graça,
Do mundo triste evolou-se.

Mas, Ela, que dera o encanto
Do riso sagrado à infância,
Da dobra azul de seu manto
Deixou cair a fragrância.

Desde esse dia, na tetra,
As flores sabem falar...
Avoz da flor é a ambrosia
Que tanta doçura encerra
Quando murmura ao luar:
“Maria!”


SOUZA, Auta de. “Simbólicas”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 80.

 


Marca d'água

Versos a Inah

 

Na procissão


Passaste rindo... E o'teu perfil modesto,
Cheio de graça e cheio de inocência,
À doce luz daquele riso honesto,
Tinha de um sonho a doce transparência.

Teus lindos olhos castos e sagrados,
Ingênuos como os olhos das crianças,
Pareciam dois céus imaculados,
Tão azuis como as minhas esperanças.

Desmanchou-se-té a trança cor de ouro
Enquanto assim passavas rindo, rindo...
E eu murmurei, ó meu gentil tesouro,
Fitando os olhos nesse olhar tão lindo:

“Ó tranças cor da alegria,
Olhar que um sorriso fez:
Olhos de Santa Luzia,
Cabelos de Santa Inés!

Dourai, dourai meus abrolhos,
Ó tranças que o vento leva...
Olhos, ficai nos meus olhos,
Que eles são feitos de trevas.

Cabelos cheios de luz,
Não fujam, que eu vou chorar...
Ai! Lindos olhos azuis,
Descansem no meu olhar

Mas teus cabelos voaram,
Teus olhos... Não mais os vi:
Os olhos que me fitaram,
As tranças por que morri…

Ó tranças cor da alegria,
Dourai, dourai meus abrolhos...
Olhos que a graça alumia,
Vinde motar nos meus olhos.”

1º de janeiro de 1898.


SOUZA, Auta de. “Versos a Inah”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 140.

 


Marca d'água

À Eugênia


Imagem santa que entrevejo em sonho,
Sempre, sempre a cantar,
Criatura inocente, anjo risonho,
Que me ensinaste à amar!

Meu doce amor! Calhandra maviosa
Que canta dentro em mim;
Minha esperança tímida e formosa,
Meu sonho de marfim!

Amaranto do Céu, flor encantada,
Mimoso colibri;
Minha açucena pálida e magoada
Meu niveo bogari;

Gota de orvalho a tremular num lírio
Que mal começa a abrir;
Ó tu que apagas meu cruel martírio
E que me fazes rir;

Madressilva entreaberta, lira de ouro,
Celeste beija-flor;
Minha camélia, meu sorriso louro,
Amor de meu amor;

Guarda estes versos que só dizem mágoa
E tristezas sem fim...
Deixa-os no seio como a gota d'água
No cálice de jasmim…


SOUZA, Auta de. “Á Eugênia”. In: O horto, outros poemas e ressonâncias: obras reunidas / Auta de Souza. - Natal, RN: EDUFRN, 2009, p. 103.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)