Mil Marias: Grupo de Pesquisa de Imagens da Mulher na Poesia de Língua Portuguesa (FALE/ ILC/ UFPA/ CNPq)                         

 

Jorge de Lima (1893-1953)

 


Marca d'água

Oração

 


- “Ave Maria cheia de graça ... "
A tarde era tão bela, a vida era tão pura,
as mãos de minha mãe eram tão doces,
havia, lá no azul, um crepúsculo de ouro. .. lá longe ...
- “Cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita!
Bendita!
Os outros meninos, minha irmã, meus irmãos menores, meus
brinquedos, a casaria branca de minha terra, a burrinha do
vigário pastando junto à capela. .. lá longe ...
Ave cheia de graça
- “bendita sois entre as mulheres~ bendito é o fruto do vosso
ventre . .. "

E as mãos do sono sobre os meus olhos,
e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho,
e as estampas de meu catecismo
para o meu sonho de ave !
E isso tudo tão longe... tão longe ...


LIMA, Jorge de. “Oração”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 77.

 


Marca d'água

Olhado

 


Menino Jesus de Deus e da sagrada luz
que a mãe santa deu a luz
numa segunda feira
do santo Jordão na beira
que o Santo Cristo benzeu
que Maria concebeu
que homem feito cresceu
sem temor de olhos e olhados
em nome dos santos rezes
eu te benzo
eu te livro
eu te curo
eu te sarvo
com 3 cruzes no teu peito
com 3 cruzes nos teus olhos.

E as 7 cores cantaram sons em redor do menininho.
E a sala amarela,
a cortina encarnada.
olharam o arco-íris que estava dentro de seus olhos
Ele sorriu.

E as sete cores saíram dos olhos
e subiram nas cortinas,
no jarrinho,
na mesinha,
na santinha da parede;
e o sol desceu do monte
com o ouro da mina encantada
tingiu de cor de ouro o cabelo do menino.

E a mãe-negra deu uma gargalhada mais clara
que o zigue-zague do raio que sai do ventre da noite.


LIMA, Jorge de. “Olhado”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 94.

 


Marca d'água

Meus olhos

 


Nossa Senhora, minha madrinha,
tu vês as coisas verdes, não é ?
Meus olhos pretos, coitados deles !
Teus olhos verdes, felizes deles,
minha madrinha, Nossa Senhora da Conceição !

Nossa Senhora, dá-me teus olhos
para eu ver com eles meus pobres olhos.
Coitados deles, minha madrinha,
só veem as coisas como elas são.

Nossa Senhora, minha madrinha,
pinta meus olhos, que eu quero ver
verdes os dias que ainda virão.
Nossa Senhora, minha madrinha,
tu vês as coisas verdes, não é?

Teus olhos verdes, felizes deles !
Meus olhos pretos, cor de carvão !
Nossa Senhora, minha madrinha,
Tu vês meus olhos como eles são?


LIMA, Jorge de. “Meus olhos”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 178.

 


Marca d'água

Poema de Natal

 


O' meu Jesus, quando você
ficar assim maiorzinho
venha para darmos um passeio
que eu também gosto das crianças.

Iremos ver as feras mansas
que há no jardim zoológico.
E em qualquer dia feriado
iremos, então, por exemplo,
ver Cristo Rei do Corcovado.

E quem passar
vendo o menino
há-de dizer: alí vai o filho
de Nossa Senhora da Conceição !

- Aquele menino que vai alí
(diversos homens logo dirão)
sabe mais coisas que todos nós !

- Bom dia, Jesus ! - dirá uma voz.

E outras vozes cochicharam :
-É' o belo menino que está no livro
da minha primeira comunhão !

- Como está forte ! - Nada mudou !
- Que boa saúde ! Que boas cores !
(Dirão adiante outros senhores).

Mas outra gente de aspecto vário
há-de dizer ao ver você :
- É o menino do carpinteiro !
E vendo esses modos de operário
que sai aos Domingos pra passear,
nos convidarão para irmos juntos
os camaradas visitar.

E quando voltarmos
pra casa, a noite,
e forem pra o vício os pecadores,
eles sem dúvida me convidarão.

Eu hei de inventar pretextos sutís
pra você me deixar sozinho ir.
Menino Jesus, miserere nobis,
segure com força a minha mão.


LIMA, Jorge de. “Poema de Natal”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 193.

 


Marca d'água

Ave Maria

 


Boa tarde ó meu caminho estreito
por onde os últimos da vila vão !
Boa tarde, avozinhas,
Boa tarde, avozinhas.
me dai uma história do vosso surrão !

Me dai a Princesa Morgana-Vilão,
que eu sem história não durmo não !

Aí que há noites mais têmporas,
mais frias, mais tristes que as outras noites

Boa tarde avozinhas onde é que eu me acoito
da minha própria inquietação ?

Boa tarde avozinhas, boa tarde avozinhas,
as últimas andorinhas lá vão !

As vossas mãos, avozinhas
onde é que estão ?

Adeus, adeus, caminho estreito !

Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós …
              Blão!


LIMA, Jorge de. “Ave Maria”. In: Obra Poética: Edição completa. Rio de Janeiro: Editora Getúlio Costa, 1949, p. 194.

 

Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Bolsa CNPq/Universal)