Raimundo Correa (1859-1911)
A Ave- Maria
AVE-MARIA! Enquanto nas campinas
As boas-noites» abrem, misteriosas
Boccas exalam no ar frases divinas,
Como suave emanação as rosas...
O noivas do infortúnio lacrimosas,
Crianças loiras, mórbidas meninas,
Órfãs de lar e beijos, que, piedosas,
Ergueis ao céu as magras mãos franzinas
Quando rezais, às horas do sol-posto,
A Ave Maria assim, no azul parece
Sorrir-se a Virgem-Mãe aos desvalidos;
Nossa Senhora inclina um pouco o rosto
Para escutar melhor tão meiga prece,
Hynno tão doce e grato aos seus ouvidos.
CORREIA, Raimundo. “A Ave-Maria”. In: Poesias. 4 ed. São Paulo; Unesp, 1898, p. 103.
Sobre a effigie de uma santa
TROCASTE o certo pelo incerto, oh triste!
Em vão, sob o cilício rigoroso
E a penitência, o polvo monstruoso
Da carne e dos instintos comprimiste!. .
Atrás do azul, onde esse olhar piedoso
Tanta vez se embebia, o que é que existe?
Existe o céu? Será real o esposo
Sem nervos e sem côr, que preferiste?.
Cataléptica e louca, tu, que a vida,
Com jejuns e com bárbaros esforços,
Crua, estancaste; o que é que, em troca, houveste!
Tua aparência é fria e arrependida,
E parece-me até, que tens remorsos
Do deplorável câmbio, que fizeste!
Janeiro, 83.
CORREIA, Raimundo. “Sobre a effigie de uma santa”. In: Versos e Versões. Rio de Janeiro; Typ. e Lith Moreira & C., 1887, p. 111.
Projeto de Pesquisa: Tradição e ruptura na poesia de senhor de engenho: imagens da mulher (FALE/ILC/UFPA)
Coordenadora: Profa. Dra. Angela Teodoro Grillo
Bolsista: Ana Lígia Rodrigues Drago (Universal/CNPq)